Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
5

CANÇÃO NACIONAL À CONQUISTA DO MUNDO

O fado vai bem e recomenda-se… à Unesco. Santana Lopes quer propor a canção portuguesa a Património Mundial. Os fadistas aplaudem, os especialistas esperam para ver. Todos se unem numa certeza: o momento é propício, o fado está a viver uma nova idade de ouro. Obrigado, obrigado, obrigado.
8 de Fevereiro de 2004 às 00:00
As longas patilhas, o rabo-de--cavalo e as tatuagens nas duas mãos fazem de Marino João, de 47 anos, uma das personagens carismáticas de Alfama. Aos 5 anos já pedinchava aos donos das casas de fado para cantar um ‘fadinho’. Em troca de um rebuçado, dava largas à sua voz. A fama espalhou-se. Hoje, não há noite que não se junte com os amigos para uma sessão de fado vadio. “Não ganho dinheiro com isto”, refere. A sua temática preferida é a da festa brava. Para além de fadista, Marino é também forcado amador. Ou era, até há poucas semanas. Numa festa em Santarém, um toiro partiu-lhe dois dedos e foi obrigado a abandonar as lides. “Não posso tourear, mas ainda posso cantar”, afirma o fadista marialva minutos antes de subir ao ‘palco’ do restaurante
‘A Baiúca’, em Alfama e arrebatar com o seu vozeirão as dezenas de convivas.
Nas ruas e vielas dos bairros típicos de Lisboa não faltam casas de fado como ‘A Baiúca’, que atraem cada vez mais turistas e amantes da canção nacional. “Quando Amália Rodrigues morreu, muita gente augurou que o fado ficaria enterrado com ela no Panteão Nacional. Felizmente não foi assim”, afirma o compositor José Niza. “Pelo contrário, há uma renovação e inovação do fenómeno fadista”. Camané corrobora: “O fado, símbolo da nossa expressão cultural, é cada vez mais reconhecido no estrangeiro.”
A Câmara Municipal de Lisboa já anunciou a intenção de propor o fado como Património Mundial junto da UNESCO. O objectivo é o de preservar a canção nacional e colocá-la ao nível do tango, do samba, ou do flamengo. Ou seja: num fenómeno à escala global. Os fadistas aplaudem a iniciativa: “Declará-lo Património Mundial é torná-lo reconhecido mundialmente como monumento. Um monumento vivo”, declara Mariza – a fadista escolhida para dar um rosto à candidatura portuguesa, juntamente com Carlos do Carmo.
Os especialistas dividem-se. Rui Vieira Nery adverte: “Esta medida não é uma prioridade para o fado. Devia-se apostar antes na preservação de discos antigos ou nas casas de fado.” Já para David Ferreira, esta é uma decisão acertada. “É bom que Lisboa reconheça o fado como parte do seu património.”
O executivo de Santana Lopes já não volta atrás. Nos próximos dias, a Câmara Municipal de Lisboa irá elaborar um 'dossier', reunindo material discográfico, de som, imagem e documental que sustente a candidatura. “Dentro de dois meses, espero que tenhamos o processo pronto a enviar à UNESCO”, referiu o edil.
FADO COM ‘SAMPLERS’
O sucesso além-fronteiras de artistas como Mariza, Mafalda Arnauth, Cristina Branco, Camané, Kátia Guerreiro ou Mísia ressuscitou um género musical que parecia moribundo depois do 25 de Abril. Eles são os novos embaixadores de Portugal no estrangeiro. “O estado da nação do fado é bom. Desde os anos 60 que não havia tantos jovens fadistas de talento”, resume Rui Nery. Para o musicólogo, o fenómeno da ‘world music’ contribuíu bastante para que o fado ganhasse esta exposição internacional. Algo que não acontecia desde os tempos míticos de Amália Rodrigues e Carlos do Carmo: “Não será uma moda passageira.”
As novas divas, porém, já não se vestem de preto da cabeça aos pés nem têm um ar choroso. E substituíram a viola pela percussão, saxofone ou ‘samplers’. Nos concertos usam as mesmas tecnologias ao dispor de qualquer grupo de 'rock'.
“O fado sofisticou-se”, declara um dos aristocratas do género, Vicente da Câmara, que teima em não abandonar o seu instrumento de 66 anos: a guitarra portuguesa. Rui Vieira Nery refere que esta nova geração surgida nos anos 90 tem um leque muito diferente de abordagens. Enquanto Cristina Branco ou Kátia Guerreiro, por exemplo, misturam o fado com outros géneros musicais, artistas como Camané preferem seguir uma linha de continuidade com a tradição fadista de todo o século XX.
ENTRE A GUITARRA E OS JOAQUINZINHOS
Nas tabernas do Bairro Alto, Alfama, Mouraria e Madragoa, o fado de Lisboa continua a ser cantado como manda a tradição. Os fadistas fazem a sua ‘tournée’ entre casas de fado respeitáveis como a ‘Adega Machado’, o ‘Dragão de Alfama’, o ‘Sr. Vinho’, ‘A Severa’, ou ‘A Baiúca’. Trazem a sua guitarra na mão e cantam os êxitos velhinhos de Amália, Alfredo Marceneiro ou Hermínia Silva. A sua audiência não paga bilhete e divide a atenção entre os seus fados castiços e a travessa de joaquinzinhos. “Muitos deles nem percebem a letra. Mas arrepiam-se e às vezes até choram”, segreda Marino João, que ouve de olhos fechados a melodia triste cantada por um seu ‘compagnon de route’.
A noite termina lá para as tantas, depois de 12 fadistas terem tentado a sua sorte em cima de um palco improvisado. “O fado amador é o genuíno. Cantamos apenas por paixão”, desabafa Marino João, de testa transpirada após a sua actuação. Os italianos olham para ele com veneração. Tinha sido o homem da noite. “Um dia destes gravo um CD”, promete.
PRÉMIOS PARA ELAS
Em Janeiro, Mariza, Mísia e Dulce Pontes receberam galardões internacionais. Mariza ganhou o recém-criado prémio ‘European Border Breaker’, atribuído pelo seu primeiro álbum, ‘Fado Em Mim’ no decorrer da 38.ª edição do Midem (Mercado Internacional das Editoras Discográficas e do Vídeo), em Cannes. Atribuído pela primeira vez este ano, os ‘Border Breaker’ destinam-se a álbuns de estreia com maior número de vendas na União Europeia, fora do país de origem do artista ou grupo. Dias antes, Mísia fora condecorada com a Ordem das Artes e das Letras de França e Dulce Pontes tinha sido distinguida com o Prémio Amigo para a Melhor Solista Feminina Latina.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)