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CARTA AO PAI

Os nossos pais não são perfeitos. Já todos sabemos. Sobretudo quando os papéis se invertem e damos connosco do lado de lá, com uma voz de fundo a chamar-nos mãe, ou pai. E olhem que não há tratamento mais eficaz para a compreensão dos erros alheios do que a experimentação do seu ‘vil’ papel.
8 de Novembro de 2002 às 18:44
Por esse País e por esse gigantesco mundo fora existem milhares de crianças que não têm nos seus registos de memória a mais pálida manifestação de afecto. E outras que cujo álbum de família guarda apenas registos terríveis de dor, agressão e vergonha.

Que seria de nós se todas as crianças do mundo resolvessem ir à televisão contar a tristeza de um pai ou de uma mãe que não esteve à altura de tão nobre título?
Eu sei que a televisão é o mais eficaz tribunal da democracia moderna. Sei e compreendo porquê. Não é por acaso que quando um prédio cai, se corre a chamar a televisão e alguns jornais. Nem sei bem se a chamada para a comunicação social é feita antes ou depois do pedido de socorro para o 112.

A televisão é terrível. Porque tem uma ‘arma’ ainda mais poderosa do que a palavra: a imagem. Um esgar de sofrimento diz tudo. Um grito de raiva também. E ser chamado à praça pública em directo é diferente de receber cartas e mais cartas com queixas e pedidos de auxílio. Mas pedir contas aos nossos pais em directo é bem diferente de fazê-lo com o ‘patife’ do senhorio que nos deixa a viver num prédio em eminente derrocada.
Tudo isto para dizer que, a ser verdade tudo o que li e vi, lamento que o Cadete seja um mau pai. E tenho pena daquela miúda de olhos tristes – que foi ao Herman SIC e se deixou entrevistar pela “Nova Gente” – que é a sua filha.

Sim, deve ser mau ver que um bando de estranhos merece mais a atenção do nosso Pai do que nós, que somos um produto seu e que o adoramos; sim, deve ser terrível ser confrontado com as perguntas e os comentários maldosos dos colegas, sobretudo desde que o nosso pai é estrela de horário nobre; e dói, com certeza, ficar à parte deste seu novo mundo, pintado como perfeito para ficar bem na fotografia.

Mas aquilo que era uma tristeza orgulhosa e um segredo de família – vá que chegasse a círculos mais abrangentes, género ‘o bairro’ – passou a ser um tema de discussão nacional (o “Herman SIC” é visto por milhares de portugueses e a “Nova Gente” tem uma circulação inquestionável). E este escancarar de portas terá servido para alguma coisa?

Agora, penso eu, os colegas da Andreia vão fazer ainda mais comentários; as revistas vão fazer perguntas atrás de perguntas e esgravatar por mais um pormenorzinho a dar para o sórdido; e, ou muito me engano, ou o pai não vai ouvir uma campainha de arrependimento a tinir sem descanso, e passar a ligar-lhe, a ir buscá-la para passar fins-de-semana ou a oferecer-lhe merecidos presentes no seu dia de anos. Talvez com sorte pague a horas a pensão em atraso, mas pouco mais.

Se algum dos intervenientes na história ler estas palavras, vai com certeza indignar-se, dizer que não sei do que falo e que não tenho nada a ver com a vida deles. Não é verdade. Eu falo do que li e vi publicado. E no dia em que o caso se tornou público, todos passaram a ter direito a opinar sobre ele. O pior é que isso não faz a Andreia mais feliz, pois não?

PS – Carta ao Pai é o título de um dos mais famosos livros de Franz Kafka, no qual o escritor checo explica porque é que não morria de amores pelo pai. No tempo dele não havia televisão. Ou muito me engano, ou o pai não vai ouvir uma campainha de arrependimento a tinir sem descanso, e passar a ligar-lhe, a ir buscá-la para passar fins-de-semana ou a oferecer-lhe merecidos presentes no seu dia de anos.
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