Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
6

Carvalho da Silva: “Tenho muitas amizades, também no PSD”

Aos 63 anos, Manuel Carvalho da Silva sai de cena e troca a liderança da maior central sindical – a CGTP – pelo ensino da Sociologia.
5 de Fevereiro de 2012 às 00:00
Carvalho da Silva, Arménio Carlos, CGTP, 25 de Abril, PCP, Cavaco Silva, Mário Soares, Ramalho Eanes, Jerónimo de Sousa
Carvalho da Silva, Arménio Carlos, CGTP, 25 de Abril, PCP, Cavaco Silva, Mário Soares, Ramalho Eanes, Jerónimo de Sousa FOTO: Pedro Catarino

- Deixou a liderança da CGTP por limite de idade, 63 anos. Se as regras o permitissem mantinha-se?

 

- O meu desejo era ter saído há oito anos, se estas coisas dependessem só de nós. Mas quando temos um compromisso colectivo dependemos da organização em que estamos inseridos e foi por isso que cumpri mais dois mandatos. Entretanto, há quatro anos ficou muito claro e assumido que mesmo que se alterassem as regras não continuaria.

 

- Estava cansado?

 

- Tudo tem o seu tempo. Fui eleito pela primeira vez em representação dos trabalhadores nas proximidades do 25 de Abril. Mantive-me foi na empresa, pois a maior parte dos sindicalistas estão no local de trabalho e eu também estava lá. E portanto estive 25 anos na direcção e 35 anos no executivo da central.

 

- Sai num momento de viragem. Houve a questão com a UGT, que assinou o acordo de concertação social, ao contrário da CGTP. O que vai mudar no sindicalismo?

 

- O sindicalismo é um organismo muito activo e vivo na sociedade. Se a sociedade está cheia de problemas, isso também se reflecte no movimento sindical. Se a sociedade projectou o individualismo de forma absolutamente exacerbada, se os apelos desta dinâmica neoliberal que varre o mundo são apelos de egoísmo, de individualização institucionalizada, apelos de consumo e não de compromisso colectivo, isso reflecte-se no sindicalismo. E depois há uma questão de fundo que é esta precarização generalizada do trabalho, a desvalorização do trabalho, a desvalorização das profissões, a desvalorização das carreiras profissionais. Tudo isto tem efeitos no sindicato.

 

- São as novas gerações, mais precárias...

 

- Não são. Nós vimos daí. Basta um pequeno exercício de memória histórica para sabermos que a precariedade não é uma coisa moderna, é muito antiga. Repito sempre a mesma coisa mas é um facto. Quando era criança ou jovem, a precariedade era generalizada. As pessoas não tinham protecção nenhuma. Não se apresente a precariedade como fruto da modernidade, isso é uma falácia total. As inseguranças na sociedade começam no trabalho mas não são exclusivas deste, são reflexo do caminho. Desde alguns anos comecei a falar deste retrocesso social e civilizacional, que levou ao exagero absoluto da exploração das expectativas das pessoas, em todas as áreas, financeira, dos comportamentos em geral... Não quer dizer que não existam dimensões de volatilidade dos postos de trabalho, de menos durabilidade, que não sejam decorrentes da evolução tecnológica, organizacional, comunicacional. Isso é um facto. Mas a questão de fundo é que esta sociedade explora as inseguranças e as instabilidades das pessoas até ao limite.

 

- Sai num momento crucial. Assistimos a um acordo assinado por 25 dos 27 estados-membros da União Europeia, incluindo Portugal, para maior fiscalização orçamental...

 

- É uma imposição leonina da Alemanha, que julgo que só vai agravar os problemas.

 

- E vai reflectir-se nas condições de trabalho, na sociedade em geral?

 

- Claro! Tudo está montado para garantir à Alemanha que no imediato receba mais dinheiro. Ou melhor, para garantir que os investimentos dos interesses alemães são salvaguardados e rapidamente. Há duas componentes que é preciso relevar. Uma é a falta de solidariedade profunda, que nega o projecto europeu, e a outra é um egoísmo que resulta da inexistência de confiança por parte da Alemanha no futuro da Europa. Estão é a sacar. A Europa são eles e os seus interesses.

 

“O BALANÇO É POSITIVO”

 

- Teve um papel activo durante a mudança vivida em Portugal. O balanço destes anos foi positivo?

 

- Claro que sim, se olharmos para o que o País era há uns anos e é hoje o balanço é muito positivo. Mas isto é como uma roda. Se não tivermos o cuidado de lhe imprimirmos o movimento certo, a determinada altura a roda começa a girar ao contrário. Desarmámo-nos em relação ao que era a percepção e a exigência de o País ter um modelo de desenvolvimento, tratar dos seus problemas. Aqui a desresponsabilização foi colectiva e individual.

 

- Os sindicalistas ficam sozinhos, nas suas reivindicações?

 

- Isso é um pouco o que se passa em todos os países e em todas as épocas. Em cima da nossa cultura, temos as cargas do passado. Somos um povo que durante séculos tem, na sua história, um contributo extraordinário para a humanidade, na sua forma de circular pelo Mundo, mas estamos muito marcados pela nossa vida do século XX, pelos 48 anos de fascismo e todas as contradições da primeira República. Houve atrasos do ponto de vista cultural e em diversos campos que não se recuperam facilmente, não se recuperam numa geração. Não é impunemente que se passou por isso tudo. Agora o comportamento dos portugueses, do ponto de vista da sua atitude, para a construção de solidariedade é o mesmo de outros povos. Não somos menos solidários do que outros povos, temos é outras condições. Tivemos sempre, durante décadas, um poder patronal e classes dominantes a viver debaixo do chapéu do Estado, sempre criticando o Estado e explorando-o até ao limite.

 

- Trabalhou numa multinacional alemã. Foi aí que iniciou a sua actividade sindical?

 

- Não. Trabalhei três anos uma oficina de reparações de electrodomésticos, eramos três ou quatro pessoas. Depois fui para a tropa e quando voltei trabalhei mais um ano numa empresa de produção de talheres, que tinha para aí 400 de trabalhadores. Foi aí que aprendi organização de trabalho. Depois fui para a Preh, a multinacional alemã, e aprendi bastante sobre organização com os alemães, fui marcado por isso. Ainda na semana passada, a propósito da situação da Europa e das críticas que do ponto de vista político é justo e indispensável fazer neste momento ao comportamento da Alemanha, disse ao embaixador da Alemanha que não tenho nenhuma perspectiva anti-alemã. Antes pelo contrário. Trabalhei com alemães e aprendi com eles sobre organização de trabalho que me marcou, até no meu comportamento, de forma positiva. Apesar de ser preciso mexer algo na consciência.

 

- O futuro dos direitos dos trabalhadores não passa tembém pela maior formação dos empresários?

 

- Não podemos isolar o conceito de formação do conceito de cultura. A cultura tem dimensões diversas.

 

“A CHINA INCORPORA AS DIMENSÕES DOMINANTES DO SISTEMA CAPITALISTA”

 

- Na blogosfera, circulou uma citação em que um suposto líder chinês classificava os trabalhadores europeus como preguiçosos, que só queriam ver TV, internet e futebol.

 

- Isso não tem sentido nenhum.

 

- Não estamos a caminhar para um encontro das leis laborais praticadas na China?

 

- Isso é um absurdo.

 

 

- Acha que é impossível chegarmos a esse ponto?

 

- O grande avanço da humanidade deu-se pela valorização do trabalho e dignificação dos trabalhadores. A Europa tem esse exemplo e chegou a primeiro parceiro comercial no Mundo com um modelo social avançado. A evolução dos direitos no trabalho é fundamental para a evolução dos direitos sociais, do conceito de cidadania, da democracia. As sociedades actuais são sociedades em que o trabalho tem um lugar central. A maior parte das pessoas vivem de quê? Vive do seu trabalho, seja por conta de outrém, cada vez mais, seja por conta própria. O factor de sustentação do processo de socialização, das qualificações, da relação dos indivíduos com a sociedade, do estatuto, está no trabalho. Não teríamos o desenvolvimento a que chegámos se a retribuição do trabalho se mantivesse como subsídio de subsistência, se não passassemos a ter salário, sendo o salário uma parte da riqueza produzida. Um amigo  e destacadissimo jurista brasileiro, costuma dizer que o elemento mais democratizador do capitalismo foi o direito do trabalho e é capaz de ter razão nisto. Esta evolução dos direitos no trabalho constitui um elemento fundamental do desenvolvimento das sociedades e, por exemplo, se nos lembrarmos que a Organização Mundial do Trabalho, em 2009, fez a discussão do pacto mundial para o emprego e uma das coisas ditas foi que a contratação colectiva constituiu o instrumento de políticas mais eficaz, na segunda metade do século XX, na distribuição da riqueza. Nenhum governo, em nenhuma latitude, das diversas colorações, teve outros instrumentos de política com mais eficácia na distribuição da riqueza do que esse.

 

- Falou muito do século XX. Mas já vamos com 12 anos do século XXI. Que opinião tem sobre o comunismo chinês e os direitos dos trabalhores na China?

 

- A China, do meu ponto de vista, no desenvolvimento das relações económicas e das relações de trabalho incorpora as dimensões dominantes do sistema capitalista.

 

- Em excesso?

 

- Isso leva a uma longa conversa. Assistimos aos nossos governantes e, às vezes também aos nossos empresários, argumentarem que ‘não podemos estar como a China’. Mas o que nos está a ser imposto neste momento, em Portugal e noutros países, é uma regressão das condições e relações de trabalho que nos encaminha para aquilo que dizem que a China não pode manter... Estão a procurar alinhar-se todos por essa concorrência na espiral regressiva, que marca a sociedade hoje no plano social. Temos de ter em conta que os chineses partiram de uma situação muito de baixo e evoluíram em poucos anos. Visitei a China pela primeira vez em 1984 e assisti em directo à evolução das coisas. Recordo-me de ver nessa altura uma auto-estrada a ser toda construída à mão, com três mil trabalhadores. Em meados do século passado, na China todos os anos se calculava em função da agricultura do ano seguinte se ia haver dez ou 15 milhões de mortos de fome. Portanto, eles viveram uma aceleração rápida. Ainda estão sujeitos a regras que certamente não nos agradam, mas estão em linha ascendente e nós estamos em queda. Nós usamos muito, em relação a países como Índia, Brasil, China, o conceito de emergentes, mas já este ano, no decorrer de uma cimeira, houve alguém dos emergentes que disse que seria bom usarmos para nós o conceito de ‘submergentes’. Talvez seja correcto. Se não houver valorização do trabalho o retrocesso é inquestionável.

 

 

- Acredita que a Europa vai sofrer um retrocesso civilizacional? 

 

- Civilizacional porque é um modo de vida que se perde. A propósito de os europeus serem preguiçosos, vale a pena ler o trabalho do economista indiano Amartya Sen, prémio Nobel em 1998, sobre o comportamento face ao desemprego. Ele é um homem do mundo, que conhece bem a Europa, e na segunda metade dos anos 1990 já dizia que os europeus não percebem as perdas que o desemprego provoca no patamar de socialização dos indivíduos. E questiona como os europeus podem estar tão distraidos sobre o que lhes pode acontecer. Deixar destruir emprego com toda a facilidade e incluir isso na teorização de que é moderno, inevitável, é um desastre. Por isso, quando falo em retrocesso é social porque é um recuo das condições sociais das pessoas, mas também é civilizacional porque associado à quebra do social está a quebra de um conjunto de valores e dimensões da cultura dos inviduos e da sociedade. Ou seja, do seu patamar médio de vida, da importância que se dá ou não à educação, ao ensino, à formação, à saude, a dimensões fundamentais que são os campos indicadores do desenvolvimento de uma sociedade.

 

“ERA MUITO BOM QUE EXISTISSE UNIDADE DE ACÇÃO”

 

- No 25 de abril de 1974 já estava ligado aos movimentos sindicais?

 

- Sim.

 

- Como entrou no sindicalismo?

 

- As primeiras observações do papel dos sindicatos ocorreram em 1973 quando trabalhava na Chromolit, empresa de talheres. Sendo considerado na empresa um quadro em formação de grande qualidade, contestei algumas práticas pouco dignas de um administrador na sua gestão e demonstrei-lhe por números alguns consumos que mudavem e acabei por ser despedido. Nesse processo tive contactos com sindicalistas, como Manuel da Silva, um dirigente sindical muito destacado que integrou a primeira delegação representativa dos trabalhadores portugueses na conferência da Organização Mundial do Trabalho, logo em 1974. Aí tive os primeiros contactos, mas não desenvolvi actividade. Depois na multinacional Preh, nas vésperas do 25de Abril, constituiram-se nas fábricas aquilo a que se chamavam comissões mistas, com uma parte patronal e outras dos trabalhadores. E fui eleito por uma das secções representante dos trabalhadores. Não tinha as característiscas da eleição de delegado sindical, mas foi a minha primeira representação. 

 

 

- Como soube do 25 de Abril?

 

- Estava a trabalhar no Porto, na Preh, e ia de carro com um colega de trabalho. Entrávamos às 7h30 e ao entrar na Via Norte vimos uma companhia de militares armados mas a pé. Não sei para onde se dirigiam... Eu tinha alguma informação do movimento dos capitães, por contactos com outras pessoas, e quando vi os militares dei um soco no tejadilho carro, era um Honda 600, que ficou marcado e disse ‘foi hoje’. Depois, o alemão que era nosso director no Porto veio perguntar, falou do movimento, queria saber, comentar as notícias contraditórias... saber quem era o Spínola, quem era o Costa Gomes. Fomos logo comprar um rádio a pilhas e lá estivémos durante o dia metade a trabalhar, metade a discutir... Tínhamos boa relação. Aliás eles tinham sido simpáticos comigo antes do 25 de Abril.

 

- Como foi a evolução do sector sindical no País após o 25 de Abril?

 

- Já estava criado mas havia muitos sectores que não tinham sindicatos. A administração pública, os pescadores, o sector agrícola, a área da justiça, eram sectores da sociedade onde eram proibidos os sindicatos. Isso foi de facto um passo.

 

- E a ideia da unicidade sindical?

 

- Era uma batalha. Há países onde há unicidade sindical e isso não quer dizer que não sejam democráticos. É unicidade formal. Inglaterra tem uma central sindical e ninguém acusa de não ser um País democrático.

 

- Em Portugal, continua a fazer sentido que existam duas centrais sindicais, a CGTP e a UGT?

 

- Era muito bom que existisse unidade orgânica, mas mais importante era a unidade na acção, essa é que é fundamental.

 

- A linha de acção vai mudar?

 

(silêncio).....

 

- No discurso de eleição, o seu sucessor na CGTP, Arménio Carlos, que faz parte do comité central do PCP, nunca falou no passado, nunca se referiu ou elogiou a direcção que agora saiu...

 

- O meu percurso de identidade com a CGTP, identidade com o projecto, empenho no sindicalismo, do ponto de vista de observação e análise, espero tê-lo toda a minha vida. Agora não vou meter-me em considerações sobre o que os camaradas que me substituiram ou os comportamentos que vão ter ou sobre o destino da CGTP. Não faço comentários...

 

- Qual o peso do PCP na CGTP?

 

- Não falo nisso...

 

- Mas continua a ser militante de base do PCP?

 

- Sobre a minha relação no PCP não falo, já disse publicamente o suficiente. Não quero.

 

- Ainda é militante?

 

- Não quero dizer mais nada. O que disse continua a ser actual. Não digo mais.

 

- Como vai passar os dias?

 

- Dou aulas na Universidade Lusófona, coordeno este polo de Lisboa do centro de Estudos sociais de Coimbra (CES), que queremos transformar num polo influente. Esperamos nos próximos meses dar noticias sobre o que vamos fazer. E tenho a responsabilidade que me foi atribuída de coordenar isto. Não é pouco

 

- Que papel é que se reserva na vida activa e política, neste momento de urgência?

 

- Nem imagino.

 

- O seu nome tem sido apontado como possível candidato à Presidência da República...

 

- Essa é uma discussão fora do tempo. Há alguma gente empenhada nessas discussões, talvez mais preocupado que isso possa ser um facto do que isso ser um facto.

 

- Se a situação se proporcionar, avança?

 

- Acho que todos os portugueses que têm os seus direitos cívicos e políticos não devem abdicar deles. Portanto eu não abdico de nenhum dos meus direitos. Daí até dizer que tenho a pretensão ou o objectivo de... vai uma distância abismal. Não me movo por nenhum objectivo desse tipo neste momento.

 

- Mas foi muito duro nas suas críticas...

 

- Eu duro? Não fui nada duro.

 

- Estou a referir-me à opção do actual Presidente da República, Cavaco Silva, em receber a reforma e não o salário de presidente.

 

- Sim. Isso é uma coisa para a qual tinha sido desperto há tempos mas que se tornou mais vincada depois de uma conversa que tive com uma figura, um português que já teve funções de grande responsabilidade...

 

- Foi com Mário Soares?

 

- Não. Não vou dizer com quem foi, mas posso dizer que não foi com Mário Soares.

 

- Foi com Ramalho Eanes, que optou por não receber uma remuneração?

 

- Esse optou por receber o salário que recebia Américo Tomás, sofreu limitações na altura em que esteve na presidência. Pode-se discordar dele em muitas coisas,  certamente com razão, mas nesse plano foi absolutamente exemplar. Mas não. Isso surgiu e fiquei a reflectir. Acho que é uma questão fundamental e que o Presidente da República fazia bem em corrigir a opção. Porque os seres humanos podem errar, o Presidente da República também pode errar. Agora não se pode desvalorizar a função. Mas eu disse isso ao mesmo que disse para não se criar na sociedade a ideia de que o PR é um indivíduo que em Portugal ganha muito, pois isso não é verdade. Há para aí tipos que fazem comentários depreciativos sobre os políticos, que não têm responsabilidades nenhumas e recebem no fim do mês muito mais.

 

- O seu nome reúne vários consensos, da esquerda, do PS, tem proximidade à Igrja Católica, é amigo do D. Policarpo...

 

- Tenho amizades em muitos campos, também tenho amizades no PSD

 

- Não se considera um homem de esquerda?

 

- Sou, isso sou. Ser de esquerda não quer dizer que se feche os olhos a outros espaços.

 

- Sei que é católico...

 

- Sim.

 

- É praticante?

 

- Tenho inculcados valores católicos, mas isso não quer dizer que seja católico nos sentido de ser praticante. Tenho inculcados valores, na minha educação tive essas influências.

 

- Já não é incompatível ser de esquerda e católico?

 

- Isso corresponde a uma determinada fase da história. Também a Igreja precisa de recentar a sua doutrina.

 

- O sindicalismo pode organizar a sociedade?

 

- Se grande parte da nossa vida é feita no e em função do trabalho, desde o processo de socialização, estilo de vida, etc, nós enquanto seres humanos no espaço de trabalho precisamos de nos organizar, de ter representação. E a organização tem sempre dimensões colectivas. Os sindicatos até podiam mudar de nome no futuro, ou vir a ter relações e alianças com múltiplos movimentos que surjam. Pois o trabalho vai aumentando as suas dimensões de centralidade com a própria evolução da sociedade, ligado aos direitos sociais, ao conceito de cidadania, ao Estado social. Portanto há outros factores ligados ao trabalho que hoje se colocam, como a relação com os problemas ecológicos, ambientais, o aumento da esperança média de vida... Tudo isto são realidades que ampliam essa centralidade e os sindicatos, enquanto organizações dos indivíduos no trabalho, são indispensáveis. É natural que surjam muitos outros movimentos em função de tudo isto que têm de articular a acção com os sindicatos e os sindicatos com eles. Os movimentos podem ser imensos.

 

- Critica-se o facto de os dirigentes sindicais não estarem na vida activa...

 

- Há uma ideia errada sobre a actividade sindical. A CGTP no seu conjunto tem cerca de dez mil activistas, dirigentes e delegados sindicais. A tempo inteiro, nos sindicatos estão umas centenas, de certeza que não excede os 400. A maior parte da actividade sindical é feita por pessoas que estão nas empresas, vêm às reuniões, às iniciativas.

 

- A Auteuropa é um exemplo desse sindicalismo mais próximo da empresa?

 

- Sim, como outras. Eles estão lá, mas há outros que nos texteis e no calçado estão dentro da empresa.

 

- Há o caso dos professores...

 

- Mas como se quer, por exemplo, que um secretário-geral da FENPROF possa estar na escola? É impossível. Eu estive no executivo da CGTP durante dois ou três anos fazendo isso, estava dois ou três dias em Lisboa, na CGTP, e dois ou três dias na Trofa, na fábrica. Mas era de uma violência que se torna impossível.

 

“ESTAMOS LONGE DE TER A DIMENSÃO DE LICENCIADOS QUE O PAÍS PRECISA"

 

- Vai aumentar o seu vínculo ao ensino numa faculdade privada. Defende o ensino privado?

 

- Estou numa faculdade privada que me fez uma proposta de trabalho aberta, em que para além de dar aulas me desafia a contribuir para a estratégia da criação de caminhos. Mas estamos numa sociedade onde existem faculdades privadas e públicas. E constato que as públicas têm regras tanto ou mais duras que uma privada como a Lusófona. Há faculdades públicas muito boas. Ainda precisamos de evoluir muito no ensino superior. Estamos longe de ter a dimensão de licenciados que o país precisa.

 

- Não temos licenciados a mais?

 

- Não. Temos é uma economia e uma estruturação da sociedade que está a negar a utilização de uma geração que tem formação e qualificação muito significativa.

 

- Mas já ninguém quer ser operário...

 

- Quando se faz a critica à escola ela é significativa, e aí os professores tiveram um papel excepcional em todos os graus de ensino. A escola teve mais capacidades de respostas em relação à capacidades de desenvolvimento da sociedade portuguesa, a que o modelo da sociedade não correspondeu.  A disfunção não é a incapacidade da escola face ao modelo da sociedade. A disfunção em Portugal é que o modelo, a matriz do desenvolvimento do País, as opções que se fizeram, negam a utilização das capacidades que a escola entretanto foi produzindo.

 

- Mas como se valoriza na sociedade um operário?

 

- Esse foi um dos grandes disparates. Em Portugal, o autêntico crime foi feito na sociedade portuguesa quando se desvalorizaram as profissões de serralheiro, de estucador, ladrilhador, electricista. Havia grande qualidade em Portugal. Temos áreas de formação com um know how significativo. A desvalorização das profissões em Portugal foi criminosa e isso esteve associado à desindustrialização, desde os anos 80, com a entrada na União Europeia, aquela ideia de que vamos para uma sociedade desenvolvida, para o clube dos ricos, e já não temos de nos preocupar com a nossa indústria, com o desenvolvimento, porque agora tudo o que a União Europeia nos apresentar é correcto. Fecharam-se empresas, vendeu-se a frota pesqueira, o sector naval, da metalomecânica pesada.... tudo isso. Foi uma loucura. E criou-se nas pessoas a ideia de que as profissões modernas são profissões limpinhas, da internet, como se a internet não fosse para ser usada pelos operários. É criminoso.

 

- É preciso reeducar a sociedade?

 

- É. É preciso uma dinâmica de revitalização da nossa estrutura produtiva, da nossa industrializção no conceito moderno. A produção de bens e serviços úteis ao processo de desenvolvimento humano.

 

- Isso cabe aos politicos?

 

- Não só. Mas a eles cabe muito

 

- Qual vai ser o caminho?

 

- É uma interrogação do tamanho do País. Não sabemos o que vai acontecer na Europa e os países como Portugal estão numa situação muito débil. É bom que os portugueses tenham consciência, até para se mobilizarem, de criarem alternativas e não deixarem que caminhemos neste descalabro. A nossa diferença para com a Grécia é só uma. Na fila para o precípicio eles estão em primeiro lugar. Nós vamos a seguir e os outros vêm alinhados, por aí fora, se não mudarem de rumo.

 

 

PERCURSO DE UM ELECTRICISTA QUE ACABOU DOUTOR

 

Casado e pai de três filhos, a quem deu baptismo católico, Manuel Carvalho da Silva nasceu numa família de agricultores da zona de Barcelos. Terminou a Escola Industrial, como todos os irmãos homens. “Éramos os seis bons alunos, mas a melhor, mesmo excepcional, era uma das raparigas e elas só fizeram a 4ª classe”. Iniciou a vida profissional como electricista, numa oficina de reparação de automóveis, foi à Guerra do Ultramar, voltou para uma empresa de talheres e seguiu para uma multinacional alemã, onde aprendeu muito “sobre organização de trabalho”, diz.

 

Já tinha muitos anos de actividade sindical, como secretário-geral da CGTP, quando fiz o ad-hoc, aos 44 anos. Ainda ponderei a área da Engenharia, mas várias pessoas amigas falaram no curso de Sociologia como uma boa opção. Preparei-me e entrei no ISCTE. Eram exigidas provas específicas e quem me ajudou na preparação final a Sociologia foi na altura um jovem assistente, que se chama Paulo Pedroso. Ele acreditava que eu era capaz e na antevéspera deixou-me dois livros com 800 páginas para ler. Fez bem. Passei”.

 

Em 2007 doutorou-se com a tese ‘A Centralidade do Trabalho e Acção Colectiva’.

 

ARMÉNIO CARLOS: O LÍDER AGORA É OUTRO

Pode não ter tempo para uma conversa telefónica, mas sobeja-lhe uma certa graça. O recém-eleito secretário-geral da CGTP diz que também na escolha do clube desportivo carrega uma cruz. É do Belenenses. Ao contrário dos azuis do Restelo, que escorregaram para a segunda divisão, Arménio Carlos subiu no último fim-de-semana para a dianteira, ao ser eleito secretário-geral da CGTP. Num país com epitáfio encomendado, é uma soberana responsabilidade.

Mas se houver intervenção cívica da sociedade, o enterro nacional reúne francas hipóteses de ser anulado. Não é um sonhador que aplaude esta ideia, Arménio Carlos só sonha nas poucas horas em que dorme.

Desperto com humildade suficiente para ouvir e com disposição para aprender, tendo em mente, sempre, que a força de um indivíduo somente enrijece quando se junta ao colectivo, o comunista que vai dirigir a CGTP no próximo quadriénio igualmente é um democrata no que toca a gastronomia. Boca santa, que diz ámen, com gosto, a todos os pratos, à excepção de favas, é indubitavelmente senhor sem estômago para ficar calado diante de bocas que considera irresponsáveis.

Pode não ter tempo para uma conversa telefónica, mas sobeja-lhe uma certa graça. O recém-eleito secretário-geral da CGTP diz que também na escolha do clube desportivo carrega uma cruz. É do Belenenses. Ao contrário dos azuis do Restelo, que escorregaram para a segunda divisão, Arménio Carlos subiu no último fim-de-semana para a dianteira, ao ser eleito secretário-geral da CGTP. Num país com epitáfio encomendado, é uma soberana responsabilidade.

Mas se houver intervenção cívica da sociedade, o enterro nacional reúne francas hipóteses de ser anulado. Não é um sonhador que aplaude esta ideia, Arménio Carlos só sonha nas poucas horas em que dorme.

Desperto com humildade suficiente para ouvir e com disposição para aprender, tendo em mente, sempre, que a força de um indivíduo somente enrijece quando se junta ao colectivo, o comunista que vai dirigir a CGTP no próximo quadriénio igualmente é um democrata no que toca a gastronomia. Boca santa, que diz ámen, com gosto, a todos os pratos, à excepção de favas, é indubitavelmente senhor sem estômago para ficar calado diante de bocas que considera irresponsáveis.

MOZART E SPRINGSTEEN

É pena que a seca biografia que consta na Assembleia da República não inclua as suas preferências musicais. Mozart, Carlos do Carmo, Beethoven e um extenso cardápio de cantores de rock.

Muito menos inclui a predilecção que nutre pelo clássico de Bernardo Bertolucci ‘1900’, onde o crescimento do fascismo é contraposto com o comunismo que afectará a vida dos personagens centrais. Nada espanta, nem mesmo que consiga tirar férias, quinze dias, no Alentejo e no extinto ‘Allgarve’, que presida à assembleia geral da Voz do Operário ou que integre a direcção da Escola Profissional Bento de Jesus Caraça. Mas que um fiel pupilo da disciplina bolchevique tenha na sua lista de músicos o norte-americano ‘The Boss’, Bruce Springsteen, isso, sim, merece destaque.

A imprensa e a televisão têm realçado que estamos diante de um partidário obediente. Não diria tanto. Quatro são os adjectivos que fotografam o homem que não acredita em milagres e que garante que esperar por um Dom Sebastião dará sempre péssimo resultado. Exigente. Disciplinado. Rigoroso. Convicto. O substantivo lealdade com o pormenor de vir com o epíteto de conspirador induz a críticas.

Há, sim, traqueias a murmurar que esta fotografia contém o negativo de versar com a linha ortodoxa comunista e que o flash da independência entre o Partido Comunista Português e a Central Sindical deixado pelo seu antecessor, Manuel Carvalho da Silva, foi desligado.

Mas de luz percebe Arménio Carlos, que tirou o curso de montador de electricista na Escola Industrial, no Cacém. Não só com humor se constrói um perfil. A sua capacidade de trabalho é de respeito. Célia Portela, dirigente da União dos Sindicatos de Lisboa, baptiza-o de "workaholic", avança que Arménio Carlos "acredita em tudo o que faz"; abona que ele "está sempre disponível e pronto para contribuir".

A ex-responsável do departamento da Juventude da Intersindical resume: "Arménio Carlos é o exemplo". Basta reparar que durante os três meses em que exerceu as funções de deputado, em 1993, da sua autoria saíram oito iniciativas e apresentou 41 requerimentos. Sejam patrões e sindicatos, operários ou empresários, Arménio Carlos mantém a mesma postura reservada, educada e a léguas de ser eufórica. É feitio. Segredam os amigos. E dizem mais: não basta estar vacinado contra a gripe para levantar o punho esquerdo debaixo deste céu carregado de água.

FIEL MARXISTA-LENINISTA

Alguns sectores da CGTP, não retirando legítima competência a Arménio Carlos, classificam-no como um fiel marxista-leninista atado à doutrina comunista e que, em breve, muita boa gente ainda terá saudades "dos tempos da autonomia que acabou na passada sexta-feira 28 de Janeiro, no XXI Congresso da Central".

Não são recados da reacção, mas da oposição. Arménio Carlos ganhou com 113 votos a favor e desvalorizou as 28 abstenções na votação que lhe atribuiu o cargo. Pois. A transição não reuniu consenso no seio da estrutura, com a tendência socialista da CGTP a torcer o nariz à ligação evidente de Arménio Carlos ao PCP, mas, e apesar da manifesta reprova, resolveu não apresentar nome alternativo para ir a sufrágios.

Jerónimo de Sousa, na manhã seguinte à vitória de Arménio Carlos, saudou a nova direcção e justificou a abundância de foices e de martelos no interior da Central: "Pois, camaradas, há muitos comunistas, e não é por decisão do Comité Central, é por decisão dos próprios trabalhadores, que elegem os comunistas, nas empresas, nos sindicatos".

Mas antes do secretário-geral do PCP ter ironizado, já Arménio Carlos, sucinto e breve, repetira, duas vezes seguidas, ainda em pleno congresso: "Eu sou um homem sério". Que todos estavam a par da sua tonalidade política. Que orgulho o dele em ser comunista. Que o PCP havia sido fundamental para a consolidação da CGTP. E, por fim, que a Intersindical é uma "organização plural e não um projecto individual".

O projecto pessoal de um alfacinha da Portela de Carnide, nascido na sexta-feira 24 de Junho de 1955, filho de lisboetas, começou a menos de noventa dias da Revolução de 1974, a 28 de Janeiro. Com, então, dezanove anos, candidatou-se a um emprego na Carris. Ficou à experiência por dois meses e, nas vésperas de os Cravos Vermelhos sepultarem a ditadura, entrou nos quadros da empresa de transportes públicos.

Vergílio Guerreiro, que faz parte da Inter-Reformados, conheceu Arménio Carlos na Carris, precisamente em 1974, assegura que o único detalhe que mudou no antigo colega chama-se "idade".

Passaram três décadas, mas a memória assegura estar em dia: "O Arménio Carlos foi sempre um homem responsável, sério, inteligente e muito preocupado com a situação dos trabalhadores e do País".

Nesse ano de 1974, em que o Povo estava exaltado e unido, casou e no Verão quentíssimo do PREC já era pai. A aproximação com o PCP deu-se por simpatia recíproca. Poder-se-á chamar de namoro assumido. O casamento oficial com o partido fundado por Álvaro Cunhal deu-se em 1977, no momento da sua filiação.

A senda da luta sindical e de militante comunista cresce de mãos dadas. No início dos anos 80 passa a membro da subcomissão de trabalhadores da Carris, em Cabo Ruivo. Em 1985 torna-se dirigente do Sindicato dos Transportes Urbanos de Lisboa e, dois anos a seguir, da União dos Sindicatos de Lisboa.

Em 1988 entra para o Comité Central do PCP, em 1996 senta-se à mesa do Conselho Nacional e da Comissão Executiva da CGTP e coordena a União dos Sindicatos de Lisboa, em 2001 é o mandatário distrital de Lisboa da candidatura de António Abreu às eleições presidenciais. Há quatro anos encabeçou as pastas mais importantes na CGTP: as áreas do emprego, acção reivindicativa e Comissão Permanente de Concertação Social.

Na madrugada de 28 de Janeiro, curiosamente, no mesmo dia em que há 37 anos se tornara operário da Carris, Arménio Horácio Alves Carlos ascende ao céu da hierarquia.

O actual secretário-geral difere, e bastante, de Carvalho da Silva, que ficou um quarto de século à frente da confederação sindical fundada a 1 de Outubro de 1970. O estilo e a linguagem usada por Arménio Carlos lembram a revolução. Apenas quando pronuncia "netos" o ritmo da voz necessita de pausar, de seguida amolece e uma ternura protectora pede que não se invada a porta da privacidade sem antes tocar à campainha.

Pode não ter tempo para uma conversa telefónica, mas sobeja-lhe uma certa graça. O recém-eleito secretário-geral da CGTP diz que também na escolha do clube desportivo carrega uma cruz. É do Belenenses. Ao contrário dos azuis do Restelo, que escorregaram para a segunda divisão, Arménio Carlos subiu no último fim-de-semana para a dianteira, ao ser eleito secretário-geral da CGTP. Num país com epitáfio encomendado, é uma soberana responsabilidade.

Mas se houver intervenção cívica da sociedade, o enterro nacional reúne francas hipóteses de ser anulado. Não é um sonhador que aplaude esta ideia, Arménio Carlos só sonha nas poucas horas em que dorme.

Desperto com humildade suficiente para ouvir e com disposição para aprender, tendo em mente, sempre, que a força de um indivíduo somente enrijece quando se junta ao colectivo, o comunista que vai dirigir a CGTP no próximo quadriénio igualmente é um democrata no que toca a gastronomia. Boca santa, que diz ámen, com gosto, a todos os pratos, à excepção de favas, é indubitavelmente senhor sem estômago para ficar calado diante de bocas que considera irresponsáveis.

                                                                                                                                                           Miriam Assor    

 

Ver comentários