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"Casámos com duas irmãs após o regresso"

Revolução. Soube do 25 de Abril por um camarada que ouviu na rádio. Era condutor e, apesar de ser uma função perigosa, não tive grandes problemas.
23 de Agosto de 2009 às 00:00
'Casámos com duas irmãs após o regresso'
'Casámos com duas irmãs após o regresso' FOTO: d.r.

Parti de avião para Luanda a 20 de Outubro de 1973. A minha companhia era liderada pelo capitão Manuel Pinho, de Ovar. Os quatro pelotões totalizavam 110 militares, a que se juntaram, em Angola, mais 40 africanos. Eu estava no terceiro pelotão, chefiado pelo alferes José Marques, de Loures. Seguimos para Grafanil, onde se concentrava a tropa quando chegava. Ali permanecemos uma semana até sermos enviados para Santa Eulália, uma zona de mato, onde a guerra começou em 1961.

A minha missão, como condutor, era transportar os meus camaradas todos os dias ao mato. Partíamos do quartel para deixar um pelotão com 40 homens e regressávamos com uma escolta de 15 elementos. Também ia buscar mantimentos. Cada um dos quatro pelotões ficava um mês destacado num acampamento a 40 quilómetros de Santa Eulália. Normalmente, o alvo a atingir pelo inimigo era primeiro o condutor; por isso eu ganhava mais 500 escudos (2,5 euros), num vencimento de 1250 escudos (pouco mais de seis euros). Fui muitas vezes à frente. Se levava uma Berlier ia à frente, quando seguia numa Unimog ia ao meio ou atrás.

Quando chegou o 25 de Abril de 1974, as notícias da Revolução foram-me dadas por um camarada do 4º pelotão, que tinha ouvido na rádio. Ninguém nos comunicou nada directamente. Mas isso não modificou em nada os nossos hábitos. Na altura já estávamos à espera da ordem para sairmos de lá, o que só se verificou quase um ano depois.

As três baixas que tivemos na companhia deveram-se a acidentes de viação. Um dos que morreu até fazia anos no mesmo dia que eu – 3 de Julho – e tínhamos combinado ir a um bar civil para comemorar com outro camarada, que também fazia anos. O acidente aconteceu na véspera do aniversário, quando esse camarada regressava a Santa Eulália, vindo de Negage, onde tinha ido levar 40 africanos. Eu estava na escolta desde o Dange e numa curva, em Meconde, a Berlier que vinha à minha frente tombou, ficando de rodas para o ar. Um dos soldados que ia em cima teve morte imediata. Outro, o José Dionísio, da Covilhã, perdeu uma perna.

Eu era para vir à Metrópole, mas sofri paludismo e fiquei três meses e mais uns dias de cama, fechado na caserna, em Santa Eulália. Um enfermeiro deu-me os comprimidos errados durante mais de um mês. Era só enfermeiro na tropa. A minha salvação foi um furriel que já era enfermeiro na vida civil. Porque o comprimido não fazia nada é que fiquei mais tempo de cama. Sentia frio e febre, não tinha reacção no corpo.

Em Outubro, recebi a visita do meu amigo e futuro cunhado António Garcia. As nossas mulheres são irmãs e na altura já namorávamos com elas. Ele era soldado no Pelotão de Morteiros 5076 e estava em Angola desde Dezembro de 1973. Tinha como função apontador de morteiro e percorreu 400 quilómetros para estar duas vezes comigo, quando se encontrava em Sanza Pombo. Até mentiu às chefias dizendo que era meu irmão e foi-lhe disponibilizado um motorista. Com as namoradas só contactávamos por aerogramas. Enviei centenas – custavam dois tostões. Cartas é que eram só uma ou duas por mês, porque era mais caro.

Em Novembro fui para Carmona. Falava-se que a tropa era só 18 meses e passávamos à disponibilidade. Havia um grupo que estava no meio do mato, todos africanos, que já tinham vinte meses de serviço e queriam passar à disponibilidade. Fecharam os graduados todos, inclusive a mulher do capitão deles, no quartel e puseram-se a caminho de Carmona para resolver o problema. Tivemos de cercar as entradas da cidade. Ninguém entrava ou saía sem autorização, mas eles aparecerem, não sei de onde, e chegaram até ao Comando 6005 , todos armados. Mas não houve nada. Passaram-se horas e conversaram com os graduados toda a madrugada, imperando o bom senso.

Noutra altura, houve distúrbios provocados por uma companhia mobilizada de Moçambique. Havia um torneio de futebol de salão e nós tínhamos uma equipa. Armaram confusão no torneio e nos bares, e nós fomos apanhados de surpresa. A maior parte do pessoal estava à civil a ver o jogo, enquanto que eles estavam camuflados e armados com granadas. Os desacatos levaram o comércio em Carmona a fechar durante dois dias. Mas, no fim, tudo acabou por se resolver. Regressámos a 18 de Março de 1975.

FUNDOU A SUA PRÓPRIA FIRMA

António João Antunes Feliciano é natural de Reguengo Grande, na Lourinhã. Aos dois anos e meio foi morar para as Caldas da Rainha com os pais. Fez a 4.ª classe e, antes da tropa, foi empregado de balcão nos Grandes Armazéns do Chiado e na loja de ferragens J.L. Barros, nas Caldas da Rainha. Trabalhou na Recauchutagem Caldas, uma oficina de pneus. Foi para a tropa aos vinte anos. Quando regressou de Angola, voltou para aquela oficina, onde esteve mais oito anos, até fundar a sua própria empresa com outro sócio – a Machado & Feliciano, Lda, nas Caldas da Rainha. 

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