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Casos da vida de quem vive pelo Mundo

São cada vez mais os portugueses que escolhem carreiras internacionais. Saltam de país em país com salários de príncipes
10 de Outubro de 2010 às 00:00
O espanhol Alfredo Revuelta adora Lisboa, mas já prepara o salto para o Brasil
O espanhol Alfredo Revuelta adora Lisboa, mas já prepara o salto para o Brasil FOTO: Vasco Neves

Sacha chegou há um ano a Portugal e já pensa partir. No mundo onde se move "todos vão estudar para fora" e no próximo Verão viaja para a Escócia onde a espera um curso de cinema. Aos 18 anos, ela e a irmã Tânia, de 16, integram o cada vez maior clube dos filhos de expatriados.

Em Portugal são também cada vez mais os quadros qualificados que optam por carreiras internacionais. Os ordenados duplicam, o inglês torna-se a primeira língua e o enriquecimento humano um bem precioso. Conta quem viveu a experiência que os laços quebrados com a cultura de origem são largamente compensados com o mar de oportunidades que surge pela frente.

O destino de Carlos Esteves foi traçado cedo – aos nove anos, quando o pai instalou a família na África do Sul para evitar que o filho mais velho cumprisse serviço militar nas antigas colónias. A carreira na Banca levou-o a Inglaterra, Hong Kong e Dubai e foi numa viagem de trabalho que conheceu a actual mulher.

"Na altura estava em Inglaterra e ela em Hong Kong. Passámos um ano a trocar e-mails e quando mudei para o Dubai quis levar a Melody", lembra Carlos. Celebrada a cerimónia, ela ainda demorou um ano a partir com as filhas a tiracolo. Das recordações só reteve as boas: "é uma cultura muito rica. E desde que cumpramos as regras, sem mostrar os ombros nem andar de cabeça descoberta, não há entrave".

Mas o desgaste da carreira internacional é precoce. Aos 53 anos Carlos está reformado e procura um local para viver. Pensou na Tailândia, "por ser barato e próximo da origem de Sacha e Tânia". Melody, que viveu em Inglaterra, Hong Kong e Malásia, escolheu o destino que conhecia das férias. "Portugal é cosmopolita e seguro. Tudo é agradável, a comida, as pessoas". E o trabalho de consultora de tendências para o mercado asiático não sofre com a distância. "Com a internet trabalho em qualquer local, desde que tenha um aeroporto por perto", garante.

Para Carlos, no entanto, os dias passados entre a casa e a Marginal, quando vai buscar as enteadas ao Colégio St. Dominics, começam a ser sempre iguais: "vivo dos rendimentos que tenho no estrangeiro, em casa arrendada, só falamos inglês, na televisão vemos a CNN ou a Sky News e tenho pouca ligação ao País, para cujas eleições nunca votei".

VIDA EM MUDANÇA

Os contentores que entram e saem do armazém de Jorge Costa contam histórias fantásticas. De pessoas que deixam móveis e obras de arte guardados durante anos, de crianças divididas entre o país do pai e o da mãe. "O mais comum, no entanto, ainda é ir a família toda", diz, pois as empresas suportam o ordenado do cônjuge, despesas com habitação e escolas.

Foi devido à profissão dos pais, executivos do ramo automóvel, que iniciou uma "volta gigantesca pelo Mundo". Com apenas dois meses rumou ao Zimbabué. Passou pelo Botswana, Suazilândia, Congo, África do Sul, Qatar, Itália, Suécia, Austrália, Uruguai... ao todo foram 18 os países onde residiu. O ensino foi internacional. Excepção feita na adolescência, quando os pais estavam na Ásia e o deixaram interno num colégio em Anadia, a terra do "‘cantante’ José Cid". Da viagem reteve o sotaque dos padres salesianos e um léxico invulgar: "aprendi vários idiomas, tenho conhecimentos e espírito aberto para viver em qualquer local". O elogio maior vai para a Venezuela, "país de paisagens deslumbrantes, apesar das desigualdades sociais". Penosos foram os tempos em África e "a dificuldade em reunir um amigo de infância. Quando criava um laço de amizade mudava logo de país".

O desgaste fê-lo prometer que não daria experiência igual a um filho. Está prestes a quebrar a jura. Desde que casou já viveu em cinco cidades – Caracas, São Paulo, Miami, Madrid e agora Lisboa.

Apreciador da cultura portuguesa, desconfia do que o destino lhe reserva, pois só voltou por razões profissionais. Aos 39 anos, dirige a sucursal em Lisboa da Global Relocation, especializada em mudanças de expatriados. "Trabalhamos para diplomatas, funcionários da NATO, mas neste momento os maiores clientes são as multinacionais e em 2010 devemos duplicar a facturação", explica. Os números falam por si: em 2009 efectuou 417 exportações e 367 entradas. Até Agosto deste ano, o volume já ia em 422 saídas e 380 entradas.

PONTE PARA O MUNDO

O espanhol Alfredo Revuelta, 37 anos, director-geral da Daemonquest, veio lançar a empresa de estudos de mercado no mundo lusófono, mas a barreira cultural tornou a chegada a Portugal mais difícil do que as passagens pelos EUA ou Holanda. O conforto surgiu com a ajuda da empresa de apoio a expatriados, que o instalou num escritório de onde avista o rio. "Para mim, que sou de Madrid, a proximidade do mar é algo que me inspira. Lisboa é provavelmente das melhores capitais europeias".

Enquanto espera o nascimento do primeiro filho, viaja todos os fins-de-semana para Madrid, onde reside a mulher, médica. A família ficará unida no Brasil, país cheio de "potencial. Tenho pena de partir, mas o mercado na Europa está parado e, em termos de negócio, não estamos a crescer".

Isabel Cudell, 34 anos, nasceu no Brasil, quando o pai estava ao serviço de um banco. Aos dois anos veio com as três irmãs para Portugal e aqui completou o ensino primário. Desse tempo recorda as visitas ao pai, colocado no Bahrein, que duravam seis meses: "faltávamos à escola, as férias grandes eram maiores do que as das outras crianças e vivemos experiências muito gratificantes". Não tardou a partir.

A escolaridade completou-se entre Madrid, Luxemburgo e Paris. A licenciatura em Relações Internacionais trouxe-a de regresso a casa e aqui aplicou a sua experiência na gestão da Nau Relocation, empresa que acompanha expatriados. "É um mercado em crescimento, estas pessoas precisam sempre de apoio, seja a encontrar casa, escritório e escolas para os filhos, seja na documentação. Este é o passo mais complicado pois são precisos vistos de residência, inscrição no centro de saúde, cartão de contribuinte. No caso de cidadãos não europeus os processos de legalização são particularmente morosos", frisa, lembrando o quão difícil foi registar o filho de um executivo indiano, que nasceu já em solo português. "Andei de embaixada em embaixada, com vistos na mão..."

Isabel divide-se agora apenas entre Lisboa e Caramulo: "fiquei, mas tenho saudades do tempo em que andávamos com a mobília atrás e só mudávamos colchas e cortinados para dar um ar mais local. Nessa altura, o porto-seguro era a quinta da avó, no Alentejo, é aí que me lembro sempre de voltar".

EMPRESAS APOSTAM NA INTERNACIONALIZAÇÃO

"É nas áreas da tecnologia, da farmacêutica e da petroquímica, entre quadros altamente qualificados, dos 30 aos 40 anos, que se dá a grande captação de recurso humano português", explica Jorge Costa, da Global Relocation. Precisar o número de expatriados é difícil, mas a tendência é crescente.

"As empresas portuguesas investem cada vez mais em processos de internacionalização. De acordo com o estudo ‘International Assignment Survey - Portugal 2010’, verifica-se que 67% aumentaram o número de expatriados nos últimos dois anos, e que 79% tencionam fazê-lo nos próximos anos", diz Diogo Alarcão, da Mercer.

Quanto a destinos, "os principais são Espanha, Alemanha, Reino Unido, China, Brasil, EUA, Angola e Moçambique". Os contratos oscilam entre seis meses e os cinco anos e nota-se um aumento de expatriados do sexo feminino, assinala.

NOTAS

EXPANSÃO

Em 2010, a Global Relocation, empresa de mudanças de expatriados, deverá duplicar a facturação de 2009.

SAÍDAS

Há grande captação internacional de quadros portugueses qualificados entre os 30 e os 40 anos.

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