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CATARINA FURTADO: JÁ PRECISEI MAIS DE AGRADAR

Aos 31 anos, Catarina Furtado resolveu tomar a vida nas mãos. E antes de enfrentar a segunda edição da ‘Operação Triunfo’, voltou aos palcos. Em ‘Loucos Por Amor’, desafia o medo e os seus limites. Às vezes é preciso.
28 de Setembro de 2003 às 14:20
Ao fim de todo este tempo em permanente ‘exposição’, é inevitável construir uma imagem. Isso não é sufocante?
Agora não, mas foi muito sufocante, eu diria até asfixiante. Foi por causa disso que há uns anos fui para Londres. Tinha uma imagem tão forte e tão exposta que o meu interior era uma coisa só minha. Custava-me estar reduzida ao ‘pacote exterior’. Quando voltei, comecei a ver as coisas de outra forma. Já não tinha a mesma ansiedade de mostrar aos outros que existia - para o melhor ou para o pior -para além dessa imagem.
Tornou-se mais claro onde é que acabava a Catarina Furtado e começava a Catarina?
Para mim sempre foi claro, o difícil era lidar com o facto de as pessoas me reduzirem a uma imagem. Hoje, isso deixou de ser importante. A minha preocupação é tentar fazer aquilo que gosto, e concretizar. Já não tenho a ingenuidade de desejar que o destino se encarregue de mim. Quero que o meu percurso dependa da minha vontade e que aquilo que faço, acima de tudo, me dê prazer.
Não há muito tempo, tudo o que fazia era sistematicamente criticado. Como é que lidou com isso?
Isso aconteceu sobretudo ao nível da televisão. O facto de nunca ter tido uma má critica em relação ao meu trabalho no teatro, ajudou-me a contrabalançar. Mas acho normal. Para dizer a verdade, eu própria já estava farta de mim, aparecia muito, foi tudo muito…
Viu essas críticas como justas, ou achava que era apenas um período de pura embirração?
Não achei justo, mas percebo que existisse um certo cansaço. E talvez me tenha feito bem. Tenho a noção de que não fiz nada de especial ao ponto de me achar intocável, longe disso… As coisas são mesmo assim, também houve uma altura em que as pessoas gostavam de mim, independentemente do que fizesse.
Lembro-me de uma canção antiga que diz qualquer coisa deste género: “Toda a gente mata aquilo que ama”…
Isso é muito bonito, muito poético, mas não creio que seja o caso. Fui consensual enquanto não tive qualquer autonomia. Era muito ingénua e inofensiva, acreditava que a vida era cor-de-rosa. Era uma menina politicamente correcta e certinha. O facto de ter crescido, trouxe-me algumas opiniões, algumas defesas, mas também a confiança de conseguir dizer que ‘não’ a muitas coisas. Crescer tem um preço, mas não há outra maneira.
Há quem a acuse de estar sempre em pose, de ser uma sedutora nata...
Não, não estou sempre em pose e essa ideia irrita-me. Aliás, uma das coisas que me dá verdadeiro gozo é poder demonstrar a essas pessoas que isso não é verdadeiro. Quanto à segunda parte da pergunta, é verdade, sou sedutora -umas vezes mais inspirada, outras vezes menos, mas gosto disso, desse jogo, embora possa ser perigoso. Já me correu mal…
E isso traduz-se numa necessidade de que gostem de si?
Os livros dizem que sim (risos)… Mas já precisei mais de agradar aos outros. Ter alguns inimigos faz-me bem, ajuda-me a aprender gerir as minhas fragilidades e a procurar, dentro de mim, as respostas para as minhas inquietações.
Ao fim de muitos anos como uma imagem de marca da SIC, mudou para a RTP. O que é que a ‘Operação Triunfo’ (‘OT’) acrescentou ao ‘Chuva de Estrelas’? Não é apenas mais do mesmo?
Enquanto apresentadora, acrescentou muito. Aprendi mais durante esta primeira edição da ‘OT’ do que nos últimos quatro anos que estive na SIC. Primeiro, porque se trata de um programa em directo, sem teleponto, nem ninguém a dizer-me o que é que tenho que fazer no minuto seguinte. Por outro lado, emocionalmente também estou sempre no fio da navalha, o que me obriga a um controlo que nem sempre é fácil de gerir. Tudo o que digo, vive de improvisos. Em termos de programa de entretenimento, o ‘Chuva de Estrelas’, embora fosse muito bem produzido, na essência era um programa de imitações: durante muitos anos a Sara Tavares, quisesse ou não, foi a ‘nossa Whitney Huston’. A ‘OT’ tem um lado pedagógico de que gosto muito.
Não lhe custa alimentar sonhos que, em 95% dos casos, sabe que não se vão concretizar?
Sou a primeira a dizer-lhes que se devem empenhar e acreditar no que estão a fazer, mas também que não devem criar grandes expectativas em relação ao futuro. Os programas deste género podem ser um ponto de partida, o resto depende do trabalho, do talento e da sorte de cada um. Se dois ou três deles conseguirem iniciar uma carreira, acho que o saldo é bastante positivo.
A RTP tem correspondido às suas expectativas?
Tem. Enquanto colaboradora, não podia estar a correr melhor. Eles sabem que a minha prioridade é a representação, quer no cinema quer no teatro, mas que estou disposta a tudo para conciliar as duas coisas - desde que os programas que me proponham tenham alguma coisa a ver comigo. Todas as propostas que me fizeram até aqui, têm duas caracteristicas que prezo acima de tudo: dignidade e bom gosto.
Enquanto espectadora, vê alguns sinais do famoso serviço público na RTP?
Acho que está a mudar, como diz o slogan.
Muito devagar?
A experiência do meu pai, enquanto director de programas na televisão do Estado, mostrou-me como é difícil fazer mudanças por mais vontade que se tenha. Mas existe um esforço e uma determinação que me parecem visíveis. Pessoalmente, acredito nas pessoas e no projecto e espero poder colaborar nessa mudança. Dê-me alguns exemplos de programas que correspondem ao tal modelo de serviço público. Há debates, uma informação séria e, sobretudo, não há programas que nos agridam ou violentem o que, nesta altura do campeonato, faz toda a diferença.
A sua primeira experiência como actriz na telenovela ‘Ganância’ foi muito criticada…
A crítica reagiu de uma forma primária. Lá vem esta outra vez. Já não lhe chega ser apresentadora, escrever letras de canções, fazer cursos disto e daquilo e agora também quer fazer novelas..., pensaram. Mas acho que a minha evolução foi notória. A certa altura, sentia-me tão acossada que cheguei a levar os episódios para casa e ver cena a cena, de forma a tentar perceber o que é que estava a fazer tão mal que justificasse tanta… O lado bom foi o apoio dos meus colegas. E tive o privilégio de contracenar com aquela que eu considero ser a melhor actriz da sua geração – a Maria João Luís, que me ensinou muito e que me ajudou a acreditar em mim.
Quando vê esta quantidade de gente vinda não se sabe muito bem de onde a fazer novelas, sem que ninguém questione, ainda se pergunta porque é que foram tão duros consigo?
Percebo que me é exigido nunca estar abaixo de uma certa fasquia. O que, sinceramente, acho muito positivo – faz-me trabalhar o dobro, ser sempre muito exigente comigo. Sou extremamente auto-crítica: quando falho, nunca me perdoou. Só consigo ter esse tipo de tolerância com os outros.
O seu trabalho enquanto embaixadora da Boa Vontade na ONU tem despertado pouco interesse na comunicação social. Porquê?
Os jornalistas dizem-me descaradamente que tudo o que tem que ver com solidariedade não vende. Se assim é pergunto porque é que há tanta falta de empenho para tratar questões desta importância e tanta facilidade em inventar que me vou casar no dia X ou Y? E o pior é que me arrisco a ouvir a resposta contrária: “É que isso vende”. É incrível, não é?
E junto das empresas a quem pede apoios, há outra abertura?
Sem generalizar, até porque estaria ser injusta, sinto que Portugal ainda é um país muito racista. O meu trabalho dirige-se em grande parte aos PALOP, com os quais temos uma responsabilidade histórica. Já me aconteceu pedir apoios para países com problemas gravíssimos, como Moçambique ou Cabo Verde, e ouvir frases do género: “Temos pessoas tão carentes em Portugal, porque é que a Catarina se está a preocupar com os pobrezinhos de S. Tomé?”.
Depois de alguns convites para fazer teatro, escolheu um texto por sua conta e risco. Porque é que optou por ‘Loucos Por Amor’, de Sam Shepard?
Vi a peça em Nova Iorque há pouco tempo. Quando o espectáculo acabou, disse a um amigo meu: “Quero fazer isto”. Foi uma decisão muito intuitiva. Era um grande desafio. Precisava de fazer algo que me abanasse e fizesse refletir. Por outro lado, precisava de ter alguém a encenar da minha total confiança.
Porque é que sentiu essa necessidade?
Porque há sempre uma certa cerimónia entre os actores e os encenadores. Cheguei a uma altura da minha vida em que precisava de ter alguém com quem eu fosse capaz de fazer tudo: falhar, testar ou chorar, sem ter qualquer receio de ser ridícula. Precisava de alguém como a Ana Nave, uma grande profissional e que, por me conhecer muito bem, me faz sentir à vontade.
Como é que define a sua personagem?
É muito complexa... É uma mulher que está perdidamente apaixonada e profundamente ferida; alguém que diz com a mesma força “vai-te embora” e “fica”.
O que é que lhe interessou nesse desequilíbrio?
Acho que foi por oposição. Sou muito equilibrada… vivo bem com as minhas angústias, com os meus medos. Talvez inconscientemente precisasse de perceber quais são os meus limites. O excesso, o descontrolo, são universos que desconheço, mas que tinha vontade de descobrir.
O que é que poderia abalar esse seu equilibrio?
Perder as pessoas que amo, de quem sou completamente dependente. Um dia, isso vai acontecer...
'Loucos por amor’
‘Loucos Por Amor’, de autoria do dramaturgo norte-americano Sam Shepard tem encenação de Ana Nave e reúne os actores Catarina Furtado, Marco Delgado, Pedro Laginha e Rui Morisson.Está em cena no CAL - Centro de Artes de Lisboa - de 13 de Setembro a 10 de Outubro. A partir de 14 de Outubro,a peça irá para a Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa
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