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Correio da Manhã

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Cem candidatos a um planeta

Começaram por ser mais de 200 mil, agora são uma centena. Todos querem viver e morrer em Marte.
Isabel Lacerda 2 de Março de 2015 às 12:18

Thea cresceu no campo, algures na Austrália. Numa região onde o céu está tantas vezes tão limpo que se pode observar o arco da via láctea de um ponto do horizonte até ao diametralmente oposto. Shradha é indiana. Diz que é inteligente, forte, sensível e versátil. Adora ler e jogar badminton. Ambas têm 19 anos. São as mais jovens candidatas a embarcar com bilhete só de ida deste planeta azul para outro, o vermelho.

As suas apresentações online foram boas o bastante para sobreviver ao corte das mais de 200 mil candidaturas iniciais para 1058, a seguir resistiram à primeira fase de recrutamento, que manteve 660 pessoas, agora passaram a segunda, já baseada em entrevistas individuais.

Os resultados foram anunciados no dia 15: Thea e Shradha estão entre as 100 pessoas (50 homens e 50 mulheres) que competem para ir e nunca mais voltar de Marte. Os três portugueses que queriam embarcar ficaram pelo caminho e a única representante da língua portuguesa é uma brasileira de 51 anos. E dos 31 europeus (há ainda 39 do continente americano, 16 asiáticos, sete africanos e sete da Oceania), os que nos estão mais próximos são dois espanhóis, de 37 e 39 anos.

Esta centena de pessoas competirá agora por embarcar numa nave espacial, viajar durante sete meses, aterrar noutro planeta, montar a sua casa em Marte, produzir o oxigénio e a comida (só vegetais) que precisam para sobreviver, resistir a condições inóspitas que incluem gravidade de um terço da da Terra, elevada radiação, temperatura média de 60 graus negativos e que nunca sobe além dos cinco negativos. E querem viver assim para sempre. Até morrer. Lá, em Marte. Tudo isto debaixo de câmaras que emitirão as imagens para o planeta a que nunca mais voltarão: a Terra. Será o mais futurista de todos os reality shows. E começará ainda antes da partida.

OS 10 PRIMEIROS

A venda dos direitos de transmissão do programa e as receitas de publicidade serão a principal fonte financeira do projeto, que precisa de 4,4 mil milhões de euros só para enviar os primeiros quatro colonos para Marte. A empresa nota que o Comité Olímpico Internacional arrecadou três mil milhões de euros com a transmissão dos últimos Jogos Olímpicos: o voo inaugural ‘só’ custará mais 1,4 mil milhões. As viagens seguintes, de dois em dois anos, sempre com quatro novos colonos (dois homens e duas mulheres), devem rondar os três mil milhões.

Na terceira ronda eliminatória, que acontece este ano, os candidatos vão participar em provas de grupo, testes físicos e psicológicos. Quem ultrapassar esta fase estará na quarta e última etapa, que será ao mesmo tempo um programa de televisão, com pelo menos seis grupos de quatro. Haverá entre 24 a 40 finalistas. Como em qualquer reality show, o público votará na equipa que quer ver embarcar para Marte em 2025.

"Não é preciso ser piloto de jatos para fazer isto", afirmou Bas Lansorp, presidente da ‘Mars One’, no lançamento do projeto. "O principal é que a pessoa consiga trabalhar com outras, seja empática, adaptável", explicou ao site The Verge Norbert Kraft, chefe do departamento médico da missão e especialista em saúde aeroespacial: "Se for uma pessoa que explode quando há uma peúga no chão, se calhar isto não é para ela."

A empresa tem uma ideia de quem serão os mais "adaptáveis". Entre os 100 eleitos já há um top 10. O mais bem classificado, com 2469 pontos, é o dinamarquês Christian O. Knudsen, de 34 anos, que acredita que "os potenciais benefícios do projeto ‘Mars One’ superam de longe os potenciais custos" que a missão possa ter para ele. Um polaco de 38 anos, com 1908 pontos, está em segundo, e em terceiro aparece um australiano de 29, com 1694 pontos. Seguem-se uma japonesa de 50 anos, uma australiana de 45, um suíço de 30, um britânico de 21, uma canadiana de 42, um alemão que vive nos EUA, de 36, e outro alemão, de 27.

Mas todos os 100 candidatos que se mantêm na corrida terão oportunidade de treinar num ambiente que recriará o marciano. "Ser um dos melhores candidatos individuais não o torna automaticamente o melhor parceiro de equipa, por isso estou desejoso de ver como os candidatos progridem e trabalham em conjunto", afirmou Norbert Kraft.

REALITY SHOW

Na última fase, todos os grupos trabalharão durante pelo menos sete anos, incluindo três meses por ano confinados num ambiente que reproduz o de Marte. "Treiná-los-emos em Medicina, Medicina Dentária, Biologia e Arqueologia", explicou Kraft, na apresentação da iniciativa, em abril de 2013. Se um membro mudar de ideias, contrair uma doença que o impeça de prosseguir ou se se revelar desadequado para a missão, todo o grupo será substituído ou recomeçará o treino do zero, com um novo elemento.

Antes do envio dos primeiros quatro candidatos a marcianos, haverá um voo não tripulado, em 2018. Com a parceria da Lockheed Martin, que está a trabalhar numa nova versão da sonda ‘Phoenix’ que enviou para Marte em 2007, e a companhia de satélites britânica SSTL, essa missão porá um satélite na órbita e uma sonda na superfície do planeta. A ‘Mars One’ começará então a extrair água do solo, testar painéis solares e instalar o sistema de transmissão de imagens em direto que alimentará o reality show na Terra.

Ainda não se sabe que empresa produzirá o programa, mas foi noticiado que as negociações com a Endemol, autora do ‘Big Brother’, falharam.

O vídeo que promove a terceira ronda do processo de seleção, qual trailer de um filme, começa com a seguinte afirmação: "O nosso futuro não pode ficar confinado à Terra." E a seguir coloca a pergunta: "Quem terá o que é preciso para colonizar Marte sem nunca mais voltar?" Seguem-se excertos de declarações de alguns dos 100 que ainda estão na corrida ao planeta vermelho. Em inglês, com sotaques variados: "A colonização de Marte é a aventura do século"; "Se pudermos olhar para cima, a partir da Terra, e saber que há seres humanos a viver noutro planeta, alguma vez conseguiremos dizer a nós próprios que há alguma coisa que não conseguimos fazer?"; "Quero contribuir diretamente para a expansão segura da Humanidade no Sistema Solar, o que temos de fazer se queremos sobreviver no longo prazo"; "Quero que, depois de eu morrer, o impacto da minha vida seja passado às gerações seguintes"; "Sei que o custo é abandonar a Terra para sempre, mas o futuro pertence àqueles que acreditam na beleza dos seus sonhos".

"Quem o conseguirá, quando levado aos limites?", questiona o vídeo a fechar, antes de rematar com o tradicional: "Em breve, num ecrã perto de si."

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