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CERCAL: MEMÓRIAS DA ‘CASA DO CHAVEIRO’

António Chaveiro e a mulher, Rosa, coleccionaram um espólio variado, que conta a história do Alentejo rural. Na tasca, famosa pelas peças de ‘museu’ e pelos petiscos, recebem gente de todo o País e do estrangeiro.
23 de Março de 2003 às 16:00
Em pleno centro do Cercal do Alentejo, a ‘Casa do Chaveiro’ é uma caixinha de surpresas. Nesta tasca típica, onde ainda há vinho a copo, petiscos e clientes sentados ou encostados ao balcão tardes a fio – na típica cavaqueira amena tão característica do Alentejo – o visitante é surpreendido com uma multiplicidade de peças que, coleccionadas pelo proprietário ao longo de três décadas, evocam o mundo rural da região.

Penduradas no tecto e nas paredes, alinhadas no chão ou guardadas “onde ainda há espaço”, centenas de peças como chocalhos, campainhas, cangas, tarros, cabaças, pratos, almotolias, alfaias agrícolas diversas, candeeiros a petróleo, artigos em madeira e lamparinas – “quase todas do Alentejo” – fascinam quem entra na “casa mais típica da terra”, como a considera o proprietário, António Chaveiro, de 70 anos.

Ao lado da mulher, Rosa, de Jesus, de 75, este homem tem-se dedicado “de alma e coração” a esta colecção, visitada “por gente de todo o lado, tanto do País como do estrangeiro”.

“Conheço colecções mais ricas do que esta, mas nenhuma tão variada”, disse ao ‘Domingo Magazine’ António Chaveiro, recordando: “Tudo começou por brincadeira, com um muleto (um cajado) de pastor que encontrei no campo. Achei a peça engraçada e trouxe-a para casa”. Esse amuleto deu-lhe vontade de “reunir mais coisas do género” e, desde então, nunca mais parou.

Neste momento a colecção conta com centenas de peças. Entre elas, há uma a que António Chaveiro dá um valor particular, “pelo tempo que deve ter demorado e pelo trabalho que deu a quem a fez”. Trata-se de uma corrente de madeira – “um bocado de pau feito em argolas muito perfeitas”, como explica o coleccionador.

Para além das memórias do mundo rural alentejano, António Chaveiro reúne ainda outras curiosidades, como notas antigas e artigos relacionados com o futebol. “Sou sportinguista, mas na minha casa tenho fotos de todos os clubes e peças variadas, para que todos os clientes se sintam bem-vindos aqui”, frisa.

PETISCOS DE CHORAR POR MAIS

A ‘Casa do Chaveiro’ também é muito conhecida pelos petiscos de Rosa de Jesus: “Durante muitos anos, faziam-se aqui muitas petiscadas e era sempre eu que cozinhava. Era famosa por isso. Mas agora a idade já vai pesando e, por isso, cozinho menos”, conta a ‘patroa’.

A tradição dos petiscos permanece, aliás, muito arreigada no Alentejo, sendo frequente grupos de amigos reunirem-se na tasca e por ali ficarem largas horas a comer e a beber – o vinho e as ‘minis’ ainda são os preferidos dos alentejanos. Muitas vezes, já com os participantes bem bebidos, o encontro termina com cantes a despique, um costume que os mais antigos teimam em não perder e alguns novos, poucos, têm vindo a adoptar.

Pelas suas características únicas, a ‘Casa do Chaveiro’ mantém o espírito desses pontos de encontro ‘à antiga’. De facto, quando lá se entra, a sensação do visitante é a de ter voltado atrás no tempo, que ali parece passar mais devagar: junto ao balcão há sempre gente e, nas poucas mesas, clientes fiéis ali se instalam dia após dia, fazendo do local uma “segunda casa”. Entre eles há um conhecido ‘endireita local’, que exerce o seu mister na casa.

A colecção reunida pelo casal é um motivo de orgulho para muita gente da zona, tendo sido referida ao ‘Correio da Manhã’ – por várias pessoas do concelho – como um sítio “a não perder”, e onde se encontra “de certeza, motivo para reportagem”.

Os turistas estrangeiros são visitantes frequentes da ‘Casa do Chaveiro’ e nunca ficam decepcionados. A simpatia com que o casal os recebe e a multiplicidade de peças ali reunidas são razão bastante para justificar a sua ida ao local, bem como o seu regresso. O que acontece muitas vezes.

Talvez por isso, e pelo carinho com que ao longo dos anos juntaram tantas peças que evocam o passado – e que também reflectem um pouco do presente – António Chaveiro e Rosa de Jesus estão orgulhosos da colecção que exibem. “É um verdadeiro cartão de visita do Cercal”, defendem.
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