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“Chamam-me ‘perigoso comunista’”

O ator e humorista vem a Portugal apresentar ‘Uma noite na Lua’ mas é o seu país, o Brasil, que está a tirá-lo do sério...
Vanessa Fidalgo 1 de Maio de 2016 às 13:57
O ator brasileiro Gregório Duvivier tem 30 anos
O ator brasileiro Gregório Duvivier tem 30 anos FOTO: Pedro Loureiro
Como se apaixonou pela comédia?
É uma paixão antiga, mas lembro-me do exato momento em que nasceu: fui com os meus pais ao teatro O Tablado, no Rio de Janeiro, e fiquei encantado com tudo o que se passava o placo. Por acaso, era uma comédia. Mas os acasos não existem, não é?
Lembra-se da sua estreia?
A minha primeira peça foi uma improvisação… chamava-se ‘Zé’. Tinha 17 anos, estava nervoso, mas acima de tudo tive prazer em estar no palco. E percebi também que podia ganhar algum dinheiro com isso…
Esse dia mudou-lhe a vida?
Completamente. A partir dali encontrei uma profissão, saí de casa dos meus pais, fiz todos os meus amigos no teatro, apaixonei-me algumas vezes no teatro.
Como é que começa o projeto Porta dos Fundos?
Quando se começa a ter alguma visibilidade, mais cedo ou mais tarde, acaba-se por ser convidado para a televisão. As primeiras coisas que escrevi para a TV não me realizavam porque não tinha liberdade criativa. Até que me reuni com alguns amigos, pessoas com ideias diferentes sobre a política e a sociedade mas todos com a mesma vontade de fazer uma coisa tão irreverente na televisão como no palco.
Na atual situação política, não é melindroso assumir posições?
Chamam-me de tudo quando passo na rua. Principalmente ‘perigoso comunista’. Hoje em dia o país está muito repartido e há toda uma atmosfera de medo do comunismo. Vivemos novamente uma época de caça às bruxas, de fundamentalismo e intolerância. Defender que Dilma pode não ser o melhor governo mas é o único que não travou a investigação contra a corrupção é o mesmo que estar defendendo um sistema igual ao de Cuba, ou de Hugo Chávez.
Porque apoia Dilma Rousseff tão abertamente?
Foi o primeiro governo brasileiro que criou uma política social, de educação, um sistema de saúde pública, leis que protegiam as domésticas, leis de proteção da distribuição de rendas e que tirou milhões de pessoas da miséria. E isso incomodou. Foi o único que tornou o país um pouco mais seguro. Fala-se muito da violência no Brasil, mas esquecem-se que a violência é produto das desigualdades, não do caráter dos pobres. Foi o único que investigou a corrupção, mas isso não é criminoso nem ilegal. A razão pela qual a Dilma está caindo é uma farsa. O Brasil precisava de uma política social, mas antes mesmo desta ser posta em prática já está a ser destruída... E qual é a alternativa? Pôr o poder nas mãos dos réus? Numa democracia em que as eleições são financiadas por empresas privadas, pelos grandes empreiteiros, é impossível não haver corrupção no sistema eleitoral. E, enquanto assim for, não haverá uma verdadeira democracia.
Teme um retrocesso?
O que está a acontecer é trágico. É impensável que num país de minorias étnicas haja discursos racistas, contra os gays, que não haja proteção às mulheres, às minorias... e porquê? Porque esses não são eleitos nem conseguem eleger. Só os interesses privados elegem os governantes.
Sente-se tensão nas ruas?
Muito. Ainda há dias uma pessoa foi agredida porque o seu cão trazia um lenço vermelho ao pescoço. Qualquer símbolo que possa ser associado ao comunismo é prontamente ligado a coisas estapafúrdias, como os homicídios do Che Guevara.
Pensou deixar o Brasil?
Não. Adoro viajar, acho que viveria muito bem noutros países, como Portugal, por exemplo. Quando vou a Portugal fico até abalado, porque vejo um país muito mais progressista, mais seguro, mais democrático, mais cultural, etc. Mas sinto que o meu país precisa de mim , da geração dos jovens de 30 anos que querem mudar as coisas… No Brasil há muita coisa para ser feita, até a nível do pensamento. Tenho uma dívida para com este país. Costumo até dizer que ‘daqui não saio, daqui ninguém me tira’.
Vem a Portugal em maio fazer uma digressão com ‘Uma Noite na Lua’. É um registo diferente de Porta dos Fundos. O que esperar?
Não é tão irreverente. É aquele riso sardónico, melancólico, que flirta com a desgraça, que sabe rir do amor, de si próprio. O riso sentido que nasce da revelação de uma verdade. Está muito próximo da poesia. No fundo, é um espetáculo que tem muito a ver com a forma de estar dos portugueses.
Como é o Gregório Duvivier fora dos palcos?
Sou uma pessoa que ficou com o nome apropriado. O Gregório é gregário. Gosto muito de pessoas, de lidar com pessoas, de conhecer pessoas. São inspiradoras.
O que é que aprecia nas pessoas?
Os afetos, a troca, a forma como cada pessoa cresce quando é confrontada com outro alguém.
Como se vê daqui a outros 30 anos?
O que eu espero é não ficar careca. E que o Brasil não caia numa ditadura outra vez…
O Tablado Rio de Janeiro Porta dos Fundos Gregório Duvivier
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