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“Chamavam-nos os malucos de Gandembel”

Aquela zona ficou conhecida como o corredor da morte, tantas foram as baixas materiais e humanas sofridas
19 de Fevereiro de 2012 às 00:00
Em Gandembel com um morteiro 81
Em Gandembel com um morteiro 81 FOTO: Direitos reservados

A Companhia de Caçadores 2317 à qual eu pertencia ajudou a construir o aquartelamento de Gandembel e o destacamento de Ponte Balana, numa zona da Guiné que ficou conhecida como o corredor da morte, dado o elevado número de baixas sofridas pelas tropas portuguesas nessa mesma região.

Mas a minha história começa em Abril de 1967, quando assentei praça em Beja. Poucos meses depois, em Janeiro de 1968, desembarquei então na Guiné, para incorporar o Batalhão 2835, Companhia 2317, com a especialidade de telegrafista. Fiquei lá 23 meses, quase sempre sem conhecer uma cama, 15 em teatro de guerra, nove dos quais em Gandembel e Ponte Balana.

FOME E BAIXAS

Tive o meu baptismo de fogo pouco depois da chegada a Guilege, logo com dois mortos em combate, fruto da nossa inexperiência.

No aquartelamento de Gandembel foram nove meses de muita guerra, fome e sede. Muitas vidas se perderam naquele sítio. Todos os que lá estiveram sofreram as suas baixas, inclusivamente grupos de comandos e pára-quedistas, bem mais experientes e preparados do que nós.

Mesmo à distância de hoje, lembro-me que eram ataques brutais, em que a força das granadas chegava a deformar os abrigos construídos em ferro e revestidos de madeira e cimento. Contabilizei 372 ataques e não me é possível esquecer um deles: tínhamos ido buscar o pequeno-almoço, quando caíram três ou quatro granadas. Corremos para os abrigos, mas um companheiro que ia ao pé de mim caiu redondo no chão e minutos depois estava morto.

Quando acabaram as colunas militares de Guilege e depois da Aldeia Formosa, éramos abastecidos de helicóptero, mas mesmo assim chegávamos a estar vinte e muitos dias a ração de combate. As colunas foram interrompidas porque as baixas eram muitas, tanto a nível humano como material. Até um Fiat caça-bombardeiro derrubaram.


Outro grande perigo eram os fornilhos – minas muito potentes que o inimigo punha na beira da estrada e que rebentavam ao longo da coluna militar. Lembro-me de um rapaz ficar desfeito com o rebentamento de um fornilho. Resistiu só até conseguirem levá-lo para uma zona onde ia ser evacuado. Acabou por morrer ali.

BISPO A SALVO

Apesar de ser de transmissões, foram muitas as vezes que ajudei na defesa do aquartelamento, quase sempre no morteiro 81, que estava ao abrigo do capitão.

No Natal de 68 recebemos a visita do general Spínola e mais uns quantos ‘grandes’. Com eles vinha também o bispo de Madarsuma, D. António dos Reis Rodrigues. Estavam a rezar missa, quando no posto de rádio onde eu estava ouvi morteiros inimigos. Fui ver o que se passava e vi logo dois buracos. Corri e empurrei o bispo que estava no altar improvisado para o abrigo mais próximo.

Reencontrei-o 37 anos depois. E ele ainda se ria ao contar a história à minha mulher e ao meu filho, pois eu, mesmo pesando menos uns bons quilos, quase o levei pelo ar.

Em Janeiro de 1969 fomos retirados de Gandembel. Fomos para Buba, onde a guerra continuava, e onde recebemos a alcunha de ‘malucos de Gandembel’, devido à maneira como nos portávamos na guerra.

PERFIL

Nome: Carlos Alberto Silva

Comissão: Guiné, 1968/70

Força: Batalhão 2835, Companhia de Caçadores 2317

Actualidade: 64 anos, casado, duas filhas e dois netos 

Guerra do Ultramar Guerra Colonial Guiné-Bissau
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