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Chatices doutros tipos à hora do costume

“A velhota, que se não estava chateada, ficou muito rapidamente, começou logo a mandá-lo para a “terra dele””
13 de Junho de 2010 às 00:00
Chatices doutros tipos à hora do costume
Chatices doutros tipos à hora do costume

Há horas em que andar de transportes públicos chateia. Felizmente, quase sempre posso evitá-las. Quando se juntam demasiadas pessoas meio sonâmbulas e chateadas por irem enfrentar mais um dia de trabalho ou cansadas e chateadas por nunca mais chegarem a casa depois desse dia terminado, é apenas natural que por vezes aconteçam chatices.

Hoje assisti a algumas. Vinha chateado porque não consegui ser produtivo com o trabalho que tinha em mãos e quando abordei o motorista do autocarro para lhe explicar que o cartão do meu passe se encontra deteriorado, este disse-me que avançasse, que não me preocupasse que ele também não o faria e que se viessem "os homens" não teria nada a ver com o assunto. Nem sequer se deu ao trabalho de pegar no cartão e verificar a autenticidade do selo – que me custa quase cinquenta euros por mês – e perceber que ele de facto está danificado mesmo por cima do chip, o que impede a sua leitura normal.

Para além de mais chateado, senti-me ofendido e fiquei meio parvo, também, e não consegui mais do que ficar a olhar para o condutor – de trato completamente diferente do que um seu colega com quem falei apenas umas horas antes. Segui então apenas um pouco para a frente, onde assisti a uma senhora dos seus sessenta anos a pedir o lugar (mais especificamente, um dos reservados a pessoas com necessidades especiais) a um rapaz que não teria mais do que vinte e cinco.

O rapaz, chateado (claro), recusou a cedência do lugar, argumentando que estaria cansado e que não era obrigado a fazê-lo. Este acto, vindo de uma pessoa "normal" – entenda-se por normal uma pessoa branca, sem tatuagens ou brincos visíveis e portuguesa – seria entendido como simplesmente estúpido, mas o rapaz, ao denunciar um sotaque brasileiro, tornou-o numa acção terrorista.

A velhota, que se não estava chateada, ficou muito rapidamente, começou logo a mandá-lo para a "terra dele" e teve ajuda de mais um par de pessoas chateadas. Ele, irritadíssimo e a elevar o tom de voz no meio de impropérios disparados à esquerda e à direita, saiu na paragem seguinte. Eu fi-lo na outra à frente, feliz por estar quase em casa e triste por observar o verdadeiro íntimo de alguns, revelado à mínima adversidade.

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