Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
1

Chico

“E agora, se me dão licença, preciso de ir ouvir o belíssimo ‘Sinhá’, tema que fecha ‘Chico’, (...) só porque é bom demais”
7 de Agosto de 2011 às 00:00
Chico
Chico

Já está disponível o último disco de Chico Buarque, muito modestamente intitulado de ‘Chico’. O título acaba por reflectir a simplicidade deste novo trabalho – à medida que os anos passam, é natural que o amadurecimento traga aos criadores uma propensão para eliminar tudo o que poderá ser excedente, e se a palavra continua a ser tratada com a paixão que se dedica a um amor intemporal, a música que a sustenta tem arranjos cada vez mais delicados e menos ostensivos.

Um amigo dizia-me que não era mero acaso o facto de muitas das últimas obras dos grandes compositores da música clássica terem sido escritas para quartetos de cordas. Nunca tinha pensado nisso, até porque, na verdade, mais do que conhecedor da erudita, serei antes um tímido apreciador do género, mas estou em crer que essa lógica se aplicará a todo e qualquer género musical. Para mim, claro está.

O simples não poderá ser confundido com o básico, menos ainda com o fácil – muito pelo contrário: é mais fácil encher a música de instrumentos e variantes do que arranjar uma elementar frase de baixo ou guitarra que se torne irrepetível e inolvidável. Quanto mais nu, mais bonito terá de ser o corpo. Quanto mais vestido, mais fácil se tornará disfarçar as suas imperfeições.

Claro que muitas vezes é na singularidade da imperfeição que reside a principal fonte da beleza, mas aqui refiro-me a um sentido mais objectivo da expressão. O tal amigo de que falava tem apenas mais um ano de idade do que Chico Buarque de Holanda, que nasceu em 1944. Os dois são um exemplo que admiro e quero repetir.

À beira dos setenta anos, escrevem e compõem com uma capacidade que só a experiência acumulada aliada ao bom gosto e lucidez criativa podem permitir. E esse é um luxo que não está ao alcance de muitos. Não falando no talento necessário para atingir tal patamar, mais do que contar com a sorte e saúde, factores essenciais neste caminho, há que saber viver, fazer as escolhas certas: de quem se rodear, profissional e humanamente, estar atento à vida que nos rodeia e nunca, mas nunca, perder a perspectiva artística.

E agora, se me dão licença, preciso de ir ouvir o belíssimo ‘Sinhá’, tema que fecha ‘Chico’, mais umas dez vezes, só porque é bom demais. Bom domingo, minha gente.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)