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Choderlos de Laclos: erotismo cerebral

‘Ligações Perigosas’, o escândalo de um libertino feminista
João Pedro Ferreira 8 de Setembro de 2019 às 09:00
Choderlos de Laclos: erotismo cerebral
Choderlos de Laclos: erotismo cerebral
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Choderlos de Laclos: erotismo cerebral
Choderlos de Laclos: erotismo cerebral

Pierre Ambroise Choderlos de Laclos (1741-1803) foi um militar francês que viveu no período do Iluminismo e da Revolução Francesa e cujo nome é mundialmente conhecido por ter escrito um clássico do erotismo, considerado uma espécie de Bíblia da libertinagem que escandalizou muitas consciências durante quase dois séculos: ‘As Ligações Perigosas’.

Nascido no seio de uma família de magistrados, Laclos seguiu a carreira das armas, tornando-se oficial de artilharia, o que lhe deixou tempo livre para se dedicar à sua grande paixão, a literatura. Uma das suas causas foi a educação das mulheres (foi um precursor do feminismo). Outra foi a obra que lhe valeu fama e fortuna.

‘As Ligações Perigosas’ é um romance epistolar entre um casal de aristocratas, ex-amantes e libertinos: o visconde de Valmont e a marquesa de Merteuil.

Instigado por esta última, Valmont desenvolve uma estratégia de sedução para arrastar para o deboche a virtuosa Madame de Tourvel e a jovem Cécile de Volanges. Laclos não descreve cenas de sexo: a sua libertinagem é sofisticada, de um ‘erotismo cerebral’. Lançado em 1782, a primeira edição de dois mil exemplares (um ‘best seller’, para a época) vendeu-se num mês. Nos dois anos seguintes, esgotaram-se dez edições e, em 1784, o livro foi traduzido em inglês.

Acusado de ter escrito um libelo arrasador contra a nobreza, Laclos sofreu represálias da hierarquia militar. Retomou a carreira com a revolução e chegou a general.

Do livro ‘As Ligações Perigosas’, trad. da ed. francesa Gallimard

"Carta 4. O visconde de Valmont à marquesa de Merteuil

As vossas ordens são encantadoras; a vossa maneira de dá-las é mais amável ainda; vós seríeis capaz de fazer apreciar o despotismo. Não é a primeira vez, como sabeis, que lamento já não ser vosso escravo; e por mais monstro que digais que sou, nunca recordo sem prazer o tempo em que me honráveis com mais doces nomes. Muitas vezes mesmo sinto o desejo de voltar a merecê-los e acabar por dar, convosco, um exemplo de constância ao mundo. Mas interesses maiores nos chamam: conquistar é o nosso destino, há que segui-lo: […] vou confidenciar-vos o maior plano que já concebi. O que me sugeris? Seduzir uma menina que não viu nada, nem conhece nada; que, por assim dizer, me seria entregue sem defesa; que uma primeira homenagem não deixará de embriagar, e que a curiosidade talvez conduzisse mais rapidamente que o amor. Vinte homens poderiam ser tão bem sucedidos quanto eu. O mesmo não se dá com o projeto que me ocupa; o seu êxito assegura-me tanta glória quanto prazer. [...] Vós conheceis a presidente [mulher do magistrado] Tourvel, a sua devoção, o seu amor conjugal, os seus princípios austeros. Eis aí o que vou atacar; eis aí o inimigo à minha altura […]. Pois sabei que o presidente se encontra na Borgonha, por conta de um processo de peso (espero fazê-lo perder outro, mais importante). A sua inconsolável cara-metade deverá passar aqui todo o período dessa aflitiva viuvez. Uma missa diária, algumas visitas aos pobres do cantão, orações de manhã e de tarde, passeios solitários, piedosas conversas com minha velha tia e, vez ou outra, um melancólico ‘wisk’, deveriam ser o seu único entretenimento. Preparo-lhe outros, mais eficazes. […] Tenho de possuir essa mulher, para evitar o ridículo de apaixonar-me por ela: pois até onde não nos leva um desejo contrariado? Ó delicioso gozo! Imploro-vos, para minha felicidade e, sobretudo, para meu sossego. Que sorte a nossa as mulheres defenderem-se tão mal! Senão, não passaríamos, junto delas, de tímidos escravos. Sinto, neste instante, um sentimento de gratidão pelas mulheres fáceis, que naturalmente me traz a vossos pés. [...]"

"Carta 110. O visconde de Valmont à marquesa de Merteuil

[…] Já a recebi duas vezes; e nesse curto intervalo, a aprendiza [Cécile de Volanges] tornou-se quase tão hábil quanto o mestre. Na verdade, ensinei-lhe tudo […] menos as precauções. Assim ocupado toda a noite, passo grande parte do dia a dormir […].

Ocupo os meus momentos de lazer […] a compor uma espécie de catecismo do deboche para instrução da minha aprendiza. Divirto-me a não chamar nada senão pelo termo técnico: e rio-me por antecipação da interessante conversa que isso deverá proporcionar entre ela e Gercourt na noite de núpcias. Nada é mais divertido do que a inocência com que ela se serve já do pouco que sabe dessa língua! Esta criança é realmente sedutora! Este contraste da candura ingénua com a linguagem do descaramento não deixa de fazer efeito e, não sei porquê, nada me agrada mais do que as coisas bizarras."

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