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CIA & Companhia

Acaba de sair em Portugal um livro muito útil: mostra como tantas vezes confundimos realidade e reality show e alhos com bugalhos. Não, não é um tratado de metafísica etérea, mas a história nua e crua da CIA, a central de espionagem dos EUA. O autor, Tim Weiner, um jornalista do ‘NY Times’, cravou o prémio Pulitzer.
26 de Outubro de 2008 às 00:00
CIA & Companhia
CIA & Companhia

O título, ‘Legado de Cinzas’, exprime um desabafo do presidente Eisenhower sobre a agência. Ora, na mitologia das últimas décadas do século XX, tudo o quanto é sacanice – de golpes de Estado a assassínios políticos – era culpa da CIA, uma espécie de papão universal. O livro prova que, ao contrário, o currículo da agência é um rol de asneiradase fiascos. Aliás, a entidade é relativamentejovem: nasceu em 1947, quando todas as outras potências já brandiam serviços de informações.

E a CIA não foi 'pior' que as suas congéneres mais velhas (como a KGB): mais rica e poderosa, foi apenas mais incompetente. Digamos que se trata menos de ‘James Bond’ que de ‘Mr. Bean’. Em 1949, enquanto a Força Aérea americana registava a radioactividade atmosférica que confirmava o primeiro teste nuclear soviético, a CIA jurava a pés juntos que a bomba atómica comuna ainda não passava de um traque quimérico. Em 1961, a agência gizou um plano infalível para invadir Cuba e derrubar Fidel Castro. Mas os barbudos sabiam de tudo e o desembarque de 1500 exilados cubanos na Baía dos Porcos foi uma porcaria. Esmagado por um regime ainda fracote, azedou de vez as relações entre os dois EUA e Cuba.

A CIA não percebeu patavina do que acontecia no Vietname, e alienou um aliado vital da Casa Branca, o Xá do Irão, ignorando o desvario dos aiatolas. Tão-pouco previu a invasão russa do Afeganistão – e, para remediar, deu um tiro no pé: passou um cheque em branco aos resistentes que mais tarde seriam os taliban e a al-Qaeda. Ah, claro: os 007 americanos ficaram embasbacados comaquedado Muro de Berlim. Com o fim da Guerra Fria, o presidente Clinton achou que a geopolítica era uma relíquiado tempo da MariaCachucha. Resultado: quando o mandato do marido de Hillary acabou, a logística do 11 de Setembro estava prontinha, nas calmas. Em suma, a CIA nunca foi uma eminência parda, manipulando diabolicamente os cordelinhos da História, mas uma crónica tragicómica de patas na poça. Lição? É no que dá um órgão estatal regado a rios de dinheiro e fiscalização ínfima. Às tantas, a sua única missão reduz-se à própria auto-preservação. Infelizmente, não uma ‘Missão Impossível’.

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