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CICLISTA DE TRABALHO

Luís Sarreira é um “ciclista de trabalho” que nunca viu a glória. Passou em ‘sprint’ pelos azares, com muita abnegação à camisola. Ele conta.
1 de Agosto de 2004 às 00:00
Com rodinhas na traseira da pequena bicicleta, Luís seguia os Sarreira, pai, tios e irmão, durante o treino de aquecimento num campo de Paris. Estava marcado, o miúdo de três anos tinha entranhada a vontade de rolar sobre duas rodas para chegar mais longe, à meta.
Na capital francesa, onde nasceu filho de emigrantes portugueses e viveu em Montes-la-Jolie, Versailles, deu as primeiras pedalas da carreira e lembra-se inchado de orgulho, o privilégio de ver entrar nos Champs Eliseés Joaquim Agostinho, em cima da bicicleta na Volta à França.
Tinha de ser. Hoje aos 32 anos corre pela nona vez a Volta a Portugal. É profissional no Ovarense, depois de ter passado por equipas nacionais míticas, mas nunca foi foto de capa de um jornal. “A certa altura chegaram a dizer que eu prometia muito. Mas é preciso ter sorte. Ter a tal estrelinha que com as condições físicas fazem um campeão. Eu cá, ao longo da minha carreira, tive todo o tipo de azares.”
Ainda assim, numa família de ciclistas - “só a minha mãe é que não andava de bicicleta” - Luís Sarreira foi aquele que foi mais longe. Ao tio João Sarreira, que chegou a pedalar no Benfica, “na altura em que o Alves Barbosa era treinador”, não bastou ser craque na corrida ao ‘sprint’ - “começou a trabalhar para os outros e ficou pelo caminho, nunca foi longe”. Ou seja, na equipa ajudava os eleitos a chegarem em primeiro à meta. Acabou por largar a carreira.
Com 13 anos, Luís deixava nesse Verão a casa de Montes-la-Jolie para vir de Renault Fuego para Sobreiro Curvo, em Torres Vedras, numa viagem de 30 horas. Os pais ficavam em França e ele passa a viver com os dois irmãos mais velhos, até a mãe chegar pelo Natal.
“Os meus pais compraram um terreno e fizemos estufas de hortícolas. Eles ainda lá vivem em Sobreiro Curvo.” Alfredo Sarreira e Maria Judite Paulo fazem da agricultura o sustento da família – em França, o pai tinha sido empregado da Renault e jardineiro, a mãe mulher-a-dias.
Luís ingressa numa equipa, o Grupo Desportivo de Loures, e aí faz as camadas juvenil, cadete e júnior. Só pensa numa coisa, quer ser ciclista profissional. Deixa a escola no sexto ano.
PENAR NO ALENTEJO
Luís Sarreira anda acima das nuvens, de cabeça na estratosfera. Monta na bicicleta pela equipa do Atum Bom Petisco, tem 21 anos e a revista da federação elogia-o. Dele diz, ser um jovem com muito futuro. “Acho que além de não ter uma estrelinha, o problema sempre foi a minha maneira de ser, muito fechada, muito pessimista. Estou sempre a pensar que os outros são melhores do que eu.”
E mesmo assim teima, cumpre, nunca deixa a equipa mal, dê por onde der. Passa os seus 30 anos no Benfica e “as passinhas do Algarve”quando na antevéspera de Natal, depois das eleições que chutam para canto Vale e Azevedo, a equipa diminui e mandam-no embora.
Ele que tanto tinha penado na Volta da Portugal, persistindo em cima do selim quando não poderia haver o que o incentivasse a continuar - “Tive um problema muito grave de hemorroidal. Tive de ser lancetado. Foram umas dores terríveis, hemorragias, mas eu não queria desistir de modo nenhum. Mas tive de o fazer, a quatro dias de acabar a Volta.”
Fazia um calor severo no Alentejo, Sarreira não pode esquecer esses dias, o médico que o assistiu na altura também não. “Encontrei-o há pouco tempo, numa outra prova e ele reconheceu-me. Disse-me: ‘Lembro-me de si.’”
AGARRADO À CAMISOLA
Foi operado por duas vezes ao joelho, uma das quais quando corria pelo Tróia Marisco e ajudava Vítor Gamito. E volta para cima da bicicleta, recupera mesmo quando já não dão nada por ele. Com o problema do joelho, do hemorroidal e ainda um furo na bicicleta foi obrigado a desistir da Volta três vezes consecutivas. Partiu-se-lhe a alma.
Com as dificuldades, e um certo pessimismo agarrado à camisola, Luís Sarreira viu a paixão pelo ciclismo esconder-se no mesmo canto para onde vão os casamentos enfadonhos. No ano passado, no Cantanhede, dizia a quem o quisesse ouvir que bastava, que era dessa que largava a bicicleta. “Mas eu não sei fazer mais nada!”
E continuou, contratou com o Ovarense, por ordenado mais modesto que aquele que chegou a ganhar no Benfica (na altura,2.500 euros/mensais, durante nove meses), porque o sustento da família assim o exigia, é certo, mas também porque dentro de si continua a mesma gana pela meta. Nunca se sabe se é desta.
Hoje Sarreira ainda sorri quando se lembra do tal jovem promissor a que se referia o artigo da revista da federação de ciclismo - “Acho que com a idade que tenho, posso dizer que ficou pelo caminho.”
Não foi um Joaquim Agostinho, o homem excepcional que em pequeno viu entrar no Champs Eliseés. Mas nem o tio João Sarreira, que também pedalou no Benfica, para depois encostar a bicicleta e trabalhar na Casa Hipólito, em Torres Vedras, chegou tão longe.
O DIÁRIO DA VOLTA
“Levantámo-nos três horas e meia antes da partida e comemos um pequeno almoço, para nos dar força, de esparguete com fiambre, flocos, leite e café. Arrumámos o saco e partimos de Cebolais, uma aldeia perto de Castelo Branco, onde estamos hospedados, para as Termas de Monfortinho, onde foi o início da Volta cerca do meio-dia.
Uma distância de 80 quilómetros. Fiz a viagem com um nervoso miudinho, é sempre assim. Em todas as provas, mesmo depois de tanto tempo, fico sempre com medo das quedas. Esta primeira etapa foi muito dura, 200 quilómetros. De maneira que pedalávamos todos devagar e só havia um homem isolado. Depois, ainda consegui uma fuga com o Cândido Barbosa, o Rui Lavarinhas e o Rui Sousa. Só que fomos apanhados.
A coisa pior que me aconteceu foi deixar cair o ‘bidon’ de água a 15 quilómetros da meta. Ficar sem água durante tanto tempo com um calor insuportável…. Quando se está a sofrer, não se tem reacção. Não vi que não estava a encaixar o ‘bidon’ na grade e ele caiu. Não podia ver, a gente tem é de olhar para a frente. Se tivesse olhado, poderia ter uma queda e aí seria a morte do artista.”
CALENDÁRIO DA PROVA
Luís Sarreira corre a sua nona Volta a Portugal pela Ovarense, com a camisola número 102. Tem de ser o seu número de sorte. Desta vez, ele vai relatar aos leitores da Domingo Magazine a volta por dentro, por quem sofre e pedala e procura ver mais perto a meta; por quem vê na berma da estrada a população que grita e incentiva.
Ao longo desta semana, leia no ‘Correio da Manhã’ as primeiras impressões do ciclista e no próximo número desta revista, o diário completo e mais algumas histórias de uma vida a pedalar. No dia 15, depois do epílogo da prova rainha do ciclismo português, ficaremos a saber em que lugar corta a meta Luís Sarreira e se desta vez valeu ainda mais a pena.
AMOR EM CIMA DO TEJADILHO DO CARRO DE APOIO
Corria-se o Troféu Joaquim Agostinho, em 1996, no contra-relógio a equipa de Luís Sarreira fica sem carro de apoio. Para desenrascar, o carro da Avibom – que patrocina a equipa - serve as funções. Sarreira, enquanto pedala, olha o improviso de quatro rodas com vivo interesse.
Em cima do tejadilho, Susana está sentada, acompanha a volta depois de ter pedido à mãe, empregada naquela empresa de produção de aves, para se meter no meio dos ciclistas. “Gritei-lhe, pedi-lhe para me dar apoio.” Susana deu-lho para o resto da vida. Casaram em 1998 e tiveram uma filha, Beatriz.
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