Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
4

Cidades em Lisboa

Como se vive em dois dos prédios com mais moradores na capital
30 de Maio de 2010 às 00:00
O porteiro das torres do fonte nova conhece quase duas centenas de moradores
O porteiro das torres do fonte nova conhece quase duas centenas de moradores FOTO: Sérgio Lemos

É na garagem colectiva, entre as oito e as nove da manhã, que é mais evidente a densidade populacional do empreendimento Twin Towers, em Campolide, Lisboa – segundo a autarquia, o edifício mais povoado da capital. Nas restantes horas o movimento não enche de barulho os corredores, nem atrapalha o funcionamento dos vinte elevadores disponíveis.

Os 900 habitantes das duas torres e quatro bandas – que funcionam como um só edifício – são superiores à população do Vaticano e estão apenas 400 moradores aquém dos que habitam a cidade mais pequena do País, a madeirense Santana. Mas é de facto na garagem que se assiste ao movimento porque poucos são os que saem a pé, pelas duas entradas principais, e raros aqueles que utilizam os transportes públicos a caminho do trabalho. As empregadas começam a chegar à hora a que os patrões saem – entre as 09h00 e as 10h00 o fluxo é de entrada. "As pessoas daqui entram e saem pela garagem, vão directas ao elevador. Os que se conhecem, encontram-se nos cafés, nas galerias de lojas que pertencem às torres, mas são poucos. Cada um faz a sua vida", revela um comerciante da zona, habituado a medir o ambiente onde se move e bem conhece.

O morador João Gorjão, de 24 anos, concorda. "Só conheço duas casas além da minha e é porque já eram amigos da minha mãe antes de virmos para aqui. Não sei os nomes de ninguém: mas 80% das pessoas são bem-educadas". No segredo dos deuses deixamos o comportamento da percentagem que sobra – mas que não será exclusivo destas torres.

MORADORES FAMOSOS

Certo é que decorar quase um milhar de nomes próprios é tarefa inglória para quem pouco se cruza – fala-se em privacidade. Mas há nomes (e apelidos) que fogem à regra – e que a maioria sabe de cor: "Abel Xavier, Eládio Clímaco, Carlos Castro e muitas jovens actrizes dos ‘Morangos com Açúcar’ e manequins conceituadas moram aqui". Quem o diz sabe do que fala porque esteve na origem do projecto e vendeu "muitos dos apartamentos". Clô Dinis, uma empresária do ramo imobiliário, apaixonou-se pelo prédio "ainda estava em maqueta" e tamanho amor só podia dar num casamento: ficar ela própria a morar nas Twin Towers. "Foi um sucesso, tivemos centenas de pessoas interessadas logo na primeira semana. Quando abrimos, o stand estava sempre cheio".

A abarrotar, apesar dos preços: um T1 custa 210 mil euros e um T5 um milhão. O arrendamento de um T3 chega aos 2600 euros por mês. "A maioria dos moradores são médicos, empresários e artistas. Há apartamentos alugados a embaixadas e a clubes de futebol – que os emprestam a jogadores – e muitos homens divorciados". Na altura da tragédia que fez ruir as Torres Gémeas, em Nova Iorque, "ficámos em choque. Porque as nossas foram inspiradas nelas. Tivemos até pessoas que no dia 11 de Setembro cancelaram as reservas de apartamentos, estava-se nessa altura a finalizar a construção".

Domingos Oliveira, o autor da escultura de Amália ‘Guitarra na Proa’, também comprou um apartamento nas Twin Towers antes de elas se ergueram em direcção ao céu. "Como vinham para cá dois ou três amigos – entretanto vieram mais – vim também, para ficarmos todos juntos. Antes morava em Alcântara e de lá tenho saudades das árvores, do ‘está tudo bem, vizinho?’, da pequena mercearia. Aqui as pessoas andam mais apressadas, sem tempo, sempre a correr, mal vejo os vizinhos. Tirando os meus amigos, não tenho contacto com mais ninguém do prédio. Por outro lado, aqui há mais segurança e como tenho o ateliê nas galerias das Twin Towers é só descer as escadas e já estou no trabalho".

É no elevador que o cronista Carlos Castro costuma cumprimentar os vizinhos. "Sobretudo, mas se forem mal-educados nem olho". Deixou as Amoreiras, onde tinha "um apartamento pequeno e clássico" e apaixonou-se pelas torres em Campolide à vista da "sala grandiosa. Fiquei vidrado nela".

Carmen Diaz, que encontramos a passear a cadelinha Perla a meio da manhã, fez uma troca maior: "O meu marido veio trabalhar para Lisboa para uma firma e vim com ele, há 7 anos – mas passo algumas temporadas em Cáceres. Gosto muito de morar aqui mas não tenho muito contacto com os vizinhos, é só bom-dia, nada mais".

PORTEIRO ELO DE UNIÃO

O que mais intrigou Mário Silva, quando entrou ao serviço como porteiro no edifício B das Torres do Fonte Nova, em Benfica, "foi as pessoas não se conhecerem, não saberem nada umas das outras; morarem aqui há anos e serem como estranhos". Para este homem nem o facto de as torres estarem em 3º lugar no ranking dos prédios com mais apartamentos (e pessoas) em Lisboa explica tamanha impessoalidade. Ele nunca se baralha. "Nem pensar: sei quem mora onde, como se chamam, se são doutores, engenheiros ou professores. Quando aqui cheguei tentei perceber o feitio de um e de outro, a maneira certa para falar com cada morador". Mário e Helena, a mulher, têm direito a casa nas torres. Começaram a reunir "um grupo de cinco vizinhos para tomar café depois do jantar e assim melhorar a convivência".

Gabriela Pinheiro, 62 anos, faz parte do núcleo. "Antes do Mário e da Lena virem para cá eram poucas as pessoas que conhecia, apesar de muitas morarem aqui desde o início, tal como eu". Já António Saraiva, um reformado de 69 anos, divide as semanas entre a casa de Coruche e o apartamento nas torres. "Em Coruche moro numa vivenda, é um sítio mais pequeno, as pessoas conhecem-se mais; em Lisboa é mais vivência de apartamento".

Há seis casas por piso em cada torre, parece hotel – distribuídos por doze andares. "São mais de 300 moradores mas tudo corre bem; o mais complicado é nas sessões de condomínio, porque é muita gente a querer falar e as pessoas exaltam-se", explica o administrador, Mário Muchelas. "A maioria das pessoas que aqui mora está na faixa etária dos 50, 60 anos. Entre os 30 e os 40 não haverá aqui ninguém. É só velharia como eu", brinca Gabriela, em conversa com a mulher do porteiro à porta de casa. Tirando os risos das mulheres a meio da tarde, o silêncio é o rei nas torres. "Confusão é mais de manhãzinha e ao fim do dia. Há alturas em que os quatro elevadores estão a funcionar ao mesmo tempo. Mas de resto é tão deserto que parece que não mora aqui ninguém".

O parque infantil do condomínio não tem ninguém porque já não há crianças: cresceram faz tempo. No campo de ténis há muito que não se batem bolas. Só o carteiro continua a aparecer: "As cartas para as duas torres enchem um carro". Se não houvesse porteiro, precisava de horas para tocar a todas as campainhas.

QUER QUE O SEU PRÉDIO APRENDA A FALAR?

O projecto ‘Prédios que Falam’ não quer dar aos edifícios o dom da linguagem: quer, sim, pôr os vizinhos portugueses a falar uns com os outros, uma espécie de comunidades dentro dos prédios. Rodrigo Dias, um dos fundadores da empresa que presta apoio ao projecto, a Marar, confessa que "não é muito fácil pôr os prédios a falar. Mas se fosse fácil não precisávamos de uma iniciativa. Isto porque por um lado existe muita preocupação a que ninguém invada a privacidade uns dos outros, por outro ninguém tem tempo e andamos todos a correr".

No Dia Mundial dos Vizinhos, comemorado na semana que agora termina, "os dinamizadores de cada prédio lançaram iniciativas aos vizinhos. Como por exemplo, fazer um bolo e distribuir". Uma das coisas que Rodrigo mais ouve é que "a iniciativa é muito interessante mas no meu prédio não funciona. Esses são os prédios que mais precisam de um projecto assim". De aprender a falar.

NOTAS

335 FRACÇÕES

335 fracções e 900 pessoas nas Twin Towers. Começou a ser construído em 1997 e habitado em 2002.

144 APARTAMENTOS

144 apartamentos nas duas Torres do Fonte Nova: 72 em cada prédio. Mais de 300 moradores.

FREGUESIAS

Campolide, Benfica e Santa Maria dos Olivais são as freguesias onde existem os prédios com mais apartamentos de Lisboa.

MAIS ALTOS

A par das Twin Towers, as Torres de São Rafael e de São Gabriel, no Parque das Nações, são os edifícios mais altos.

GERADOR

Nas Torres do Fonte Nova, quando falha a luz um dos quatro elevadores continua a funcionar – "graças a um gerador".

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)