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Correio da Manhã

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CIDO MARQUES, O ARTISTA DEVOTO

Cantou para a Lady Di numa casa de fado em Londres, esculpiu uma imagem sacra que o Papa coroou. Milagres conseguidos com a fé, Cido Marques é artista devoto, com discos gravados
8 de Fevereiro de 2004 às 00:00
Um dia, atormentado por um sonho recorrente com Nossa Senhora das Dores, Dulcídio Marques construiu o seu primeiro oratório. Um acto de fé inabalável que fez da arte sacra a inspiração da sua vida. Autodidacta orgulhoso, aos 71 anos Dulcídio Marques – que assina 'Cido' – é um pequeno homem de mil ofícios, aspecto irrequieto e sorriso aberto, que fala das suas artes como um acto de fé. É esta crença que o impele, “de forma quase obsessiva”, a cantar, a pintar e a transformar tudo o que toca em peças únicas, não só pelos materiais utilizados mas também pelo reconhecimento que lhes é feito.
Nem todos se podem orgulhar de serem autores de um oratório coroado pelo Papa, uma escultura premiada como a melhor peça do concurso da Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde e três discos gravados. Ou do dia em que, numa casa de fado em Londres, mesmo junto do Buckingam Palace, foi aplaudido pela Lady Di. Para não falar da sua participação como figurante, quando tinha 10 anos, no filme ‘Ala-Arriba’, de Leitão de Barros – uma experiência de três meses paga com um 'cachet' de 25 tostões por dia, que mais do que notoriedade lhe deu um pouco de cor à vida.
TUDO O QUE O MAR DÁ
Graças a tantas actividades e interesses, o próprio Dulcídio Marques tem dificuldade em enumerar tudo o que fez na vida e encontrar-lhe um fio condutor. É fácil por isso de entender que quatro páginas são exíguas para contar os 71 anos de vida deste poveiro, sexto filho de um pai pescador e neto de Francisco Pinheiro, “autor das bússolas poveiras”. Um menino que nasceu no meio das algas e dos medos de um mar que hoje lhe dá a matéria-prima para muitas das suas obras.
O sargaço seco pelo vento e pelo sol – “porque em casa não é a mesma coisa” e assim são aproveitadas “as formas naturais das algas para fazer as vestes dos santos” –, bocas de ouriço, mexilhões, pernas de caranguejo e seixos são alguns dos materiais que nas mãos mágicas de Cido se transformam em presépios, nossas senhoras, santos (António é o preferido) e outras imagens sacras. Mas não é só do mar que vem a matéria-prima.
Basicamente, qualquer coisa pode servir para dar vida à arte deste artesão poveiro, entre esculturas, quadros, círios e oratórios: papel de embrulho, escaravelhos, penas, madrepérola, massa pão, pedras preciosas, ouro, sedas, veludos, pevides, lâminas de mica (um derivado do granito). Porque de facto “nada se perde; tudo se transforma”, lembra Cido.
A CAMINHO DO BRASIL
Olhando para trás, diz que a arte sacra é a “mola real” da sua arte e que criou por ela “o maior amor da vida”. Uma devoção que começou em terras brasileiras, no Rio de Janeiro, para onde foi em 1953 a fim de fugir de um destino atrás do balcão. Detestava o comércio e nem o facto de ter trabalhado dos 10 aos 19 anos no negócio de família de venda de tecidos e retrosaria o fez mudar de ideias.
Foi assim que, “no dia 19 de Agosto de 1952” – relembra com minúcia e orgulho – e depois de saber que estava livre da tropa, Dulcídio Marques decide livrar-se também das amarras que o prendiam à Póvoa de Varzim. Pede à mãe que lhe arranje a carta de chamada (uma carta de um avalista que o chamasse já com garantia do primeiro emprego) para ir para o Brasil tratar da vida.
Embarcou em 1953 e esteve lá três anos, os dois últimos passados a trabalhar na Casa Sucena, onde encontrou a paz e a vocação de uma vida inteira na pintura de paramentarias e caras de imagens de santos. É no Brasil que descobre também o canto, já que o piano, uma paixão de menino, nunca lhe havia sido permitido.
Em Janeiro de 1955 candidata-se, no âmbito do Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro, ao coro juvenil dirigido pelo tenor e actor mexicano José Mojica, acabando por integrar esta equipa num concerto no Teatro Municipal. Ainda no Brasil mas já em Niterói, Cido é convidado por uns amigos para fazer parte do coro da Igreja.
Um ano depois, apertado pela saudade e a vontade de tirar umas férias, Dulcídio Marques embarca no paquete Vera Cruz, onde os seus dotes vocais não passaram despercebidos ao director da que é hoje a Rádio Globo do Rio de Janeiro. Quando ouviu o português cantar com a orquestra do navio terá ficado rendido. Mas Dulcídio Marques não viria a aceitar o convite de trabalhar na estação emissora. Essa viagem, que ao contrário daquilo que tinha planeado, seria de regresso definitivo a Portugal.
A CANTAR, PELA PÁTRIA
Com a pátria vem o casamento com Teresa, uma enfermeira, e a mudança para Braga, onde integra o Grupo Folclórico Dr. Gonçalo Sampaio. Graças a ele viaja por vários países europeus e começa também a cantar o fado. O teatro musicado, a revista e outros programas de variedades tornar-se-iam ainda parte do seu currículo como encenador nos palcos do Ateneu Comercial do Porto, no Clube Fenianos Portuenses e na Associação Católica.
Como cantor viria também a animar jantares-concerto no Grande Hotel do Porto, a cantar a opereta 'Maria', no Carlos Alberto, a dirigir e encenar o festival de Canções Tradicionais do Mar e dos Marinheiros, e a integrar, durante 15 anos, o Círculo Portuense de Ópera, entre muitos outros projectos. O certo é que Dulcídio Marques chegou mesmo a gravar (ver caixa) e ainda hoje continua ser convidado para cantar aquém e além-fronteiras, seja no Brasil, em Inglaterra, em Itália ou em França.
Hoje Cido Marques acumula a sua carreira de cantor e encenador com a de artesão, não só de esculturas em algas e decoração de círios mas também de iluminuras.
Um trabalho que começou em 1963, quando foi contratado pela editora Âmbar para ilustrar os livros. Foi por essa razão que se mudou de Braga para o Porto, para esta casa onde hoje vive e onde “tudo o que existe” tem a mão de Dulcídio Marques. “Menos os móveis!”, graceja.
Na Âmbar começa a ilustrar livros infantis e a crescer num “ambiente altamente criativo”, relembra agora com entusiasmo. Aí passa sete anos, saindo depois para trabalhar até 1985 em duas litografias que não lhe deixaram saudades.
É então que aos 52 anos, já reformado, começa a trabalhar em casa, entre pinturas, esculturas e bordados. Sim, bordados, mais precisamente com ponto aberto e macramé. De “uma perfeição sem par”, assevera Teresa Marques, a sua mulher.
Com todo o tempo do mundo à sua disposição, Dulcídio Marques passou a trabalhar ainda com mais afinco e dedicação, nunca perdendo de vista a fé que o move. Hoje revela com indisfarçável
orgulho que o pergaminho da petição ao papa Paulo VI para a criação da Diocese de Viana do Castelo foi feita por si.
Mas o ponto alto da sua faceta de artesão de arte sacra aconteceria mais tarde, em 1989, e já com o Papa João Paulo II, que coroou a sua imagem da Imaculada Conceição, entronada num oratório decorado com panejamento, veludos, galões, placas de madre pérola, pedrarias e frontais. Afagando a imagem, Dulcídio revela com solenidade que nunca mais retirou a coroa abençoada, um marco tão importante na sua vida que até fez um diploma em iluminura para assinalar tamanha graça.
Hoje aquilo que mais o ocupa são os círios, a velas que decora com tanta paciência e dedicação que não consegue criar mais do que duas por mês. O resultado é um conjunto de complexas obras de arte e, garante, “muitas vezes sem preço”, dado o trabalho que elas requerem.
Agora que já experimentou quase tudo, Dulcídio Marques tem um desejo por realizar: bordar a ouro. Uma arte reservada a alguns e que “já quase ninguém ensina”, diz, resignado. Mas que tem pelo menos uma pessoa com vontade de aprender. Uma pessoa que mesmo aos 71 anos não perdeu a fé nem a esperança de realizar um sonho.
INSPIRAÇÃO DIVINA
Às vezes o sonho comanda mesmo a vida. Que o diga Dulcídio Marques, que um dia se viu a sonhar, dia após dia, com a Nossa Senhora das Dores: “Sonhava sempre que tentava entrar numa igreja para ‘roubar a imagem”, conta hoje, entre sorrisos. Apesar de ser um homem de fé, cedo o sonho passaria a tormento.
Sem perceber o porquê do devaneio, Cido começa a ficar incomodado. Pouco depois, a 15 de Setembro de 1964, o dia de Nossa Senhora das Dores, tudo se tornaria mais claro. É nessa data que lhe nasce a filha mais nova. E aí Dulcídio percebe a missão que terá de cumprir: “Construir um altar com a Senhora das Dores.”
Esta inspiração divina levá-lo-ia a Braga. Meteu pés a caminho em direcção à cidade dos Arcebispos, o único local onde talvez pudesse encontrar o que queria. No entanto, a busca de um corpo de Nossa Senhora das Dores que pudesse vestir e adornar viria a revelar-se difícil, não encontrava imagens.
“Quando tudo parecia perdido e eu já não tinha esperança, eis que o vendedor das imagens abre uma gaveta. E sai a rolar lá de dentro uma cabeça de madeira de uma escultura do século XIX”. Foi assim que, a partir de apenas um rosto, Dulcídio Marques criaria o oratório de Nossa Senhora das Dores que hoje ornamenta a entrada da sua casa.
Constituída por três nichos que figuram o calvário, a obra tem ao centro, no retábulo central, um Cristo crucificado, uma escultura de família datada do século XIX. Ladeada por S. João Evangelista e Maria Madalena – pinturas com arte aplicada – está a Nossa Senhora das Dores, ornamentada com veludos antigos, bordados a ouro e com mãos e pés feitos em massa pão.
Dulcídio Marques garante que, a partir do momento em que meteu mãos à obra, não voltou a ter o mesmo sonho. “Foi remédio santo!”, remata satisfeito.
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