CINEMA: FILMES SOFRIDOS

Manoel de Oliveira, Joaquim Leitão ou João Botelho recriaram para o cinema o universo da guerra colonial
30.03.03
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Rui Sequeira (Vítor Norte), ex-combatente da guerra do Ultramar, levava uma vida pacata, numa pequena aldeia do Alentejo, até ao dia em que decidiu viajar com a filha, Sara (Paula Neves) até Lisboa, para participar num almoço de antigos militares da Guerra Colonial. Sara aproveita a viagem para visitar a mãe, a residir na capital, enquanto o pai troca impressões com os ex-colegas de guerra. Este é o principal enredo do telefilme ‘Monsanto’ — realizado por Ruy Guerra e transmitido pela SIC em 2000 — que ganha contornos trágicos quando a personagem principal é confrontada com a decisão da filha, que se recusa voltar para casa. A notícia faz despoletar o stress pós-traumático, uma doença de que padecem muitos ex-combatentes da guerra de África. Rui acaba por ser vítima de alucinações, tremores e mania da perseguição, que o levam à destruição física e psíquica. Uma história ficcional que bem podia ser baseada na vida real...
‘Monsanto’ é um drama intenso, que toca num dos pontos mais sensíveis da recente história portuguesa: a Guerra Colonial. A crítica especializada não hesita em confirmar que o cinema português tem evitado abordar este tema, ainda ‘fresco’ na memória de todos os portugueses. Mas há casos de sucesso. ‘Non, ou a Vã Glória de Mandar’, realizado pelo mais famoso cineasta lusitano, Manoel de Oliveira, é um deles. Este foi o primeiro filme português a abordar ‘de frente’ a memória da guerra colonial, e além disso teve a habilidade de reflectir sobre o destino de um país (cujos os homens quiseram ir sempre mais além) mas que depois de 1974 se vê reconduzido às suas fronteiras originais.
“O 25 de Abril, consciente ou inconsciente, desfaz toda a história que estava para trás”, realçou o cineasta. E não foi só em Portugal que o filme, estreado em 1990, deu que falar. Em Cannes, recebeu o Prémio da Crítica Internacional.
Em ‘A Tempestade da Terra’, o realizador Fernando de Almeida e Silva (natural de Moçambique) recorda a guerra colonial através da amizade de Lena (Maria de Medeiros) uma rapariga branca, de carácter rebelde, que cresce nas ex-colónias portuguesas, e do seu criado negro, Ningo. Os dois desenvolvem uma relação que resiste aos horrores da guerra. O filme não recebeu nenhum prémio internacional mas isso não o impede de permanecer na memória dos portugueses.
A lista de longas-metragens que abordam o tema da guerra do Ultramar não é extensa, mas só ficaria completa com a referência a ‘Um Adeus Português’, de João Botelho, estreado em 1985, que “reporta mais às consequências e traumas que a revolução de Abril deixou no terreno, do que às possibilidades que este abriu” como referiu, na altura, um crítico de cinema português.
10 FILMES SOBRE A GUERRA
‘Non, ou a Vã Glória de Mandar’,
Manoel de Oliveira, 1990
‘Inferno’, Joaquim Leitão, 1999
‘Capitães de Abril’,
Maria de Medeiros, 2000
‘Um Adeus Português’, João Botelho, 1985
‘Monsanto’, Ruy Guerra, 2000
‘Brandos Costumes’, Alberto Seixas Santos, 1975
‘Bom Povo Português’, Rui Simões, 1981
‘Se a memória existe?’, (curta-metragem) João Botelho, 1999
‘A Tempestade da Terra’,
Fernando de Almeida e Silva, 1998
‘Era uma vez um Alferes’,
Luís Filipe Costa, 1987,

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