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‘Clássica’ dá aulas há cem anos

Na Universidade, como na vida, o passado encontra sempre o presente. Os professores e os alunos da Universidade de Lisboa
2 de Outubro de 2011 às 22:00
Cartões dos alunos da Universidade de Lisboa nos cursos de 1914
Cartões dos alunos da Universidade de Lisboa nos cursos de 1914 FOTO: Sérgio Lemos

Mil novecentos e setenta e um foi o ano da concretização de um sonho de criança: formar-se em Direito. Também o pai o sonhara, mas o padrasto impedira-o. Marcelo Rebelo de Sousa concluiu o curso com 19 valores, a melhor nota de sempre na Faculdade de Direito, da Universidade de Lisboa que celebra agora o seu centenário.

Por lá passaram o Nobel Egas Moniz, Marcelo Caetano, David Mourão-Ferreira como professores. E Francisco Sá Carneiro, Mário Soares, António Lobo Antunes, Leonor Beleza, no papel de alunos. Na sua primeira forma, a Universidade Portuguesa surgiu em Lisboa em 1288, com a criação do Estudo Geral. Em 1537 foi transferida para Coimbra. Todavia, a actual estrutura da Universidade de Lisboa (UL) seria apenas criada pelo regime republicano em 1911, reunindo os vários estudos superiores que reapareceram na capital no século XIX: a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, a de Farmácia, a Politécnica e o Curso Superior de Letras.

Nestes cem anos muita coisa mudou. Na Alameda das Universidades funcionam oito faculdades e quatro institutos - referências internacionais no campo da investigação, onde a mestria de uns se une à promessa de uma nova geração.

O MELHOR CURSO

Quando Marcelo Rebelo de Sousa chegou à Faculdade, em 1966, a primeira impressão foi a de que o curso iria ser "muito trabalhoso e mais difícil do que pensara". A segunda prendia-se com "a proporção de uma mulher para cinco homens, com professores a sugerirem a ida das colegas remanescentes para Letras!".

Os tempos de estudante - "inesquecíveis" - corresponderam ao final do Salazarismo, à chegada do Marcelismo, ao agravamento da sensação de não-solução política para as guerras, à emigração, às migrações, a novos ciclos de lutas estudantis, ao Maio de 1968. No fundo, ao fim de uma longa era e ao começo de outra. Com professores e assistentes de eleição e colegas que formaram "só o melhor curso de toda a história da Faculdade, com dois 19, três 18, vários 16 e 15".

Entre os momentos marcantes, o professor Marcelo destaca os "picos de agitação académica de 1968 a 1970, as eleições para a Associação Académica e delegados de turma, com maoistas a emergirem, as futeboladas no Estádio Universitário, as longas pesquisas na biblioteca ainda com o histórico sr. Gonçalves, a redacção impossível das lições de Cavaleiro de Ferreira e de Magalhães Collaço. Mas também uma referência triste: o assassinato de Ribeiro dos Santos pela PIDE em Económicas, cujo "militantismo pertinaz era admirado por correligionários e adversários".

Direito tinha a fama que ainda hoje mantém: selectivo, rigoroso e exigente. "As teóricas eram muito boas, como regra. As práticas, ao monte e com fé em Deus". Mas apesar do peso da ditadura autoritária, nunca sentiu que critérios de arregimentação política fossem decisivos para o apuramento do mérito dos alunos. A faculdade abriu caminho à realização da sua vocação, como professor, já lá vão 40 anos.

A emoção é comum a Mariana Melo Egídio. Tem 25 anos, mas a sua proeza já é extraordinária: licenciou-se em 2009 com 18 valores e começou logo a dar aulas de Direito Constitucional como assistente convidada. O mérito trouxe como prémio já ter sentido que fez "a diferença na vida de alguém" sentado à sua frente, no papel de aluno.

PARTILHAR SONHOS

O tempo apagou a memória do ano em que entrou para a Faculdade de Belas Artes (FBA). Aos 76 anos, a artista plástica Helena Almeida suspeita de que terá sido em 1952. Ou 53. Era preciso "coragem" para seguir artes - e os que o faziam queriam ser professores de desenho. "Era muito difícil trabalhar num ateliê; como é que se investia nos materiais?" - diz a filha do escultor Leopoldo de Almeida. "O ensino era mau, antiquado", critica. Até o seu pai, enquanto professor, se sentia "frustrado. Era mal pago. E as condições da Faculdade eram más. Chovia lá dentro".

Helena convivia com outros alunos, como João Cutileiro, Bartolomeu Cid, Lurdes Castro. Falavam de música, literatura, pintura. Trocavam impressões sobre as correntes artísticas que conheciam nas viagens ao estrangeiro. "Foi decisivo partilhar sonhos com pessoas da minha idade", diz Helena Almeida, para quem o que se aprendia no curso de Pintura "nem sequer dava para ensinar no liceu".

Foi atrás de um sonho que André Costa, 30 anos, chegou às Belas Artes. Aos 12 desenhava aviões. No Secundário desenhava carros com os amigos. E esperou até 2005 - o último ano do curso de Design de Equipamento - para vencer prémio internacional Peugeot Moovie. André desenhou o melhor de 3800 carros futuristas. Hoje, a viver na Galiza, Espanha, é freelancer. Não ficou imune à crise. Sobre a FBA, diz que "a diferença entre a Faculdade e o mercado de trabalho é, sem dúvida, a prática. O curso era teórico".

PROBLEMAS COM POLÍCIA

Quando Filipe Duarte Santos inscreveu-se, em 1959, nas aulas de Ciências Geofísicas, estas eram na antiga Escola Politécnica, "no centro da cidade, com um jardim botânico onde se podia namorar", atractivos vários para o rapaz de 17 anos que era. "Havia sempre problemas com a polícia, na fase quente em que houve reacção política ao regime fomentada pelos estudantes" - recorda o professor catedrático da Faculdade de Ciências.

Dos tempos de estudante recorda dois professores "excepcionais", o matemático Sebastião e Silva, "com aulas que faziam pensar", e José Pinto Peixoto, "que nos obrigava a ficar lá o sábado todo e se zangava se não levássemos o chapéu-de-chuva porque não tínhamos previsto o tempo que ia estar". Este último influenciou-o no caminho, tanto que o ex-director do Instituto de Meteorologia, a partir da década de 1980, passou a dedicar-se às mudanças globais e alterações climáticas.

Tiago Capela Lourenço é um doutorando, de 32 anos, que aprendeu a olhar para esta Universidade como a sua casa, apesar de se ter licenciado no Algarve, em Engenharia do Ambiente. "Cheguei em 2005 e hoje vejo esta Faculdade como minha. Além de trabalhar como investigador e de estar aqui a fazer o meu doutoramento, sou também gestor científico". Está nos dois lados da barricada: "Portugal não fica atrás dos outros países na parte científica e de investigação".

Foi na primária, no Colégio Moderno, com mapas em todas as salas, que nasceu o gosto pela Geografia, para não mais abandonar Jorge Gaspar, reputado académico e professor catedrático da Universidade de Lisboa, onde ingressou em 1960, numa altura em que o curso pertencia a Letras. Hoje é independente e responde pelo nome de IGOT - Instituto de Geografia e Ordenamento do Território. No primeiro ano, "uma visita de estudo com Orlando Ribeiro confirmou a escolha acertada" e justificou o ‘braço-de-ferro' com a família sobre o curso a escolher.

Miguel Geraldes formou-se em Direito, em Coimbra, antes de resgatar da infância o sonho da Geografia. Separam-nos três décadas. Mas une-os, além do gosto, o papel de Orlando Ribeiro na certeza do percurso. "Nenhuns livros me davam tanto gozo de ler como esses, nomeadamente a 2ª edição de ‘Portugal, Mediterrâneo e o Atlântico'" - recorda Miguel, 36 anos, a preparar o doutoramento em Geografia.

Jorge Gaspar, 69 anos, doutor honoris causa por várias universidades nacionais e estrangeiras, investigador, consultor e coordenador de um sem-fim de projectos, na realidade nunca abandonou a Faculdade, ao longo destes 51 anos, pois logo que acabou a licenciatura ficou a trabalhar como investigador no "Centro de Estudos Geográficos com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian", que se manteve até à obtenção do doutoramento, em 1972.

Em 1973 foi aprovado em concurso para prof. extraordinário de Geografia em Letras. De 1965 a 1973 foi docente no curso de Arquitectura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Facto marcante na sua vida de universitário foi "ter conhecido, no final do terceiro ano, a Maria José, assistente de História Medieval, que além de tudo o que me ensinou me trouxe ao conhecimento mais próximo duas personalidades geniais: Manuel Antunes e Vitorino Nemésio. Defendi a minha dissertação em Julho e casámos em Setembro de 1965".

Quando Miguel chegou ao IGOT, em 2006, já não encontrou Gaspar, entretanto aposentado, uma das suas grandes "referências" na área, mas não mais perdeu o seu nome de vista. Nem a capacidade de relacionar a Geografia com a sua vida. "Moro no Parque das Nações, Lisboa, e se soubesse o que depois aprendi no curso talvez tivesse preferido a área ocidental da cidade, cujas rochas ígneas fornecem maior estabilidade aos edifícios em caso de macrossismo".

Da primeira vez que atravessou o átrio da Faculdade de Letras, em 1964, a escritora Lídia Jorge sentiu-se "voar". Professores como o padre Manuel Antunes, Thomas Quim, Lindley Cintra, Jorge Dias, Maria Helena Mira Mateus, Jacinto do Prado Coelho ou Vitorino Nemésio marcaram-na para sempre, apesar de a distância entre professores e alunos ser, naquele tempo, "oceânica". Nemésio, fez-lhe exame extraordinário: "Eu levava uma pilha de livros de Literatura Brasileira que coloquei sobre a mesa. O professor pediu-me os livros, folheou-os, começou a ler as minhas notas de leitura em voz alta, e em dado momento disse-me que não precisava de me perguntar nada. Devolveu-me os livros. Deu-me uma nota alta".

O conhecimento - diz a escritora - circulava em torno de "personalidades, pequenos grupos e claques". "Discordar anunciava punição imediata nuns casos, adiada noutros". Dos períodos políticos mais conturbados recorda a visita da PIDE ao lar universitário: "Estávamos a dormir e acordámos com eles lá. Andaram a chafurdar nas gavetas. O Maio de 68 foi visto por nós com desconfiança. Líamos o ‘Paris-Match', mas a ideia que tínhamos é de que o alvoroço em Paris não passava de uma rebelião burguesa. Achávamos que o nosso caso era de outra natureza. Havia a Guerra Colonial e um país para sair da miséria".

Estudar naquele ou neste tempo são coisas que não têm comparação. "Nos anos 60 e início de 70, um curso universitário, mesmo mal amanhado, era um passaporte para o emprego".

E neste tempo, o de hoje, Nuno Amado, 30 anos, está a tirar o doutoramento no Programa em Teoria da Literatura na mesma mas diferente Faculdade de Letras. "Um engenheiro sabe que irá exercer Engenharia, assim como um médico Medicina. Mas Literatura não é uma coisa que se exerça", diz. Ambiciona a carreira académica e a investigação e tem "alguns problemas com a ideia de que a universidade serve exclusivamente para preparar as pessoas para ‘a vida a sério'". Prefere que seja "uma etapa de valorização pessoal".

Vem de família a ligação de António Costa Pinto à Universidade de Lisboa. Ali se licenciou o seu pai (em Direito) e o filho chegou a Letras nos anos 70. Agora é investigador e professor de Política e História Europeia Contemporânea no Instituto de Ciências Sociais (ICS). E no que toca à investigação nesta área, o professor considera que "o presente e o futuro passam por criar equipas internacionais de qualidade, publicar nas melhores revistas científicas e devolver à sociedade e às suas instituições políticas um retrato mais rigoroso sobre o seu processo de mudança".

Nuno Mendes, 30 anos, ainda está fresquinho no ICS. Chegou em 2010, para o doutoramento em Ciência Política. Atraiu-o "o compromisso com a excelência", mas para o doutorando o importante, contudo, é "formar pessoas para o exercício diário de cidadania".

Maria Eduarda Duarte, hoje com 56 anos, tinha as malas feitas para ir estudar Psicologia para Paris quando passou pela reitoria da Universidade de Lisboa e viu um cartaz a anunciar uma reunião para "finalmente se criarem cursos superiores" da matéria em universidades públicas. "Desfiz as malas. Fiquei e envolvi-me". Estava-se em 1975, em tempos de "participação cívica, activa. As pessoas a lutarem por uma causa que só o 25 de Abril permitiu que se concretizasse", recorda a directora do Instituto de Orientação Profissional e professora catedrática.

Naquela altura "ser estudante universitário era como se tivéssemos saído de um quarto escuro e olhássemos para o mundo". Tiago Cabaço, 21 anos, é de um outro tempo e está habituado a "ouvir coisas desanimadoras de quem acaba o curso e não consegue emprego". Neste momento, o jovem estudante - que escolheu Psicologia "ao perceber que podia ajudar outras pessoas" - encontra-se no 2º ciclo de estudos do Mestrado Integrado.

ESTUDANTES ‘MANDAVAM'

Era o ano de 1977. "Ser estudante universitário naqueles anos após a revolução significava estar na vida por sua conta e risco. Os serviços da Faculdade de Medicina não funcionavam, eram os alunos que organizavam os horários e o processo de inscrição em turmas. Faltar às aulas e só estudar para os exames era a norma" - recorda a cientista Maria Carmo-Fonseca, 52 anos. "As instalações da Faculdade estavam degradadas mas éramos livres".

Maria Carmo-Fonseca sentava-se na primeira fila do anfiteatro e "consumia avidamente" as aulas de Biologia Celular do professor David-Ferreira. "Eu sonhava, como será a sensação de fazer uma descoberta?". Decorridos 34 anos, Carmo-Fonseca dirige o Instituto de Medicina Molecular. Em 2010 foi a primeira mulher cientista a vencer o Prémio Pessoa. Distinção que atribui à UL, onde fez carreira. "A Faculdade mudou, acompanhando a mudança económica e social do País. Adoro ser professora".

Francisco Silva mudou-se do Porto. Chegou à capital para estudar na Faculdade de Medicina da UL. Quis ser pintor, escultor, escritor. Mas ser médico implicava salvar vidas. "Actualmente, o principal problema do curso em Portugal é fruto da obsessão política pela transformação das escolas médicas em fábricas de profissionais de Saúde", diz, aos 22 anos, o aluno do 5º ano e presidente da Associação de Estudantes.

João Filipe Matos, professor de mestrado no Instituto de Educação (IE), chegou à FCUL como trabalhador-estudante no final dos anos 70. Recorda o "imenso potencial e as oportunidades", mas também o cinzentismo pré-revolucionário e o triste episódio do grande incêndio que praticamente destruiu a Faculdade de Ciências (que então era na rua da Escola Politécnica).

Da nova geração do IE, destaca-se a investigadora e doutoranda Sofia Viseu, de 35 anos. Como estudiosa na área das políticas e administração educacional, fala por direito próprio: "Pese embora o crescimento nos últimos anos do número de estudantes no ensino superior, a taxa de jovens diplomados em Portugal permanece baixa em relação a outros países europeus. Devemos também reflectir sobre o desperdício de uma geração qualificada para o desemprego ou para a emigração".

Queria ser médica mas umas décimas arredaram-lhe a possibilidade do currículo em 1982. E mais tarde da vontade, quando Ana Paula Martins, 46 anos, se apaixonou por Farmácia. Dois professores marcaram-na: Maria Odette Santos Ferreira e Carlos da Silveira, "percursores do conceito de que a universidade forma homens e mulheres na sua dimensão humana." "Éramos felizes. Fizemos amigos para a vida" - recorda a investigadora do iMed, directora da área de acesso ao mercado e relações institucionais da MSD (uma das maiores farmacêuticas do Mundo) e que no passado foi, entre outros cargos, adjunta do gabinete do ministro da Educação Couto dos Santos.

João Conniot passou a infância, em Leiria, a afirmar a vontade de ser cientista. Na altura de escolher um curso optou por Ciências Farmacêuticas - está no 5º ano do Mestrado Integrado, tem "um gosto por tecnologia farmacêutica, nomeadamente os nanomedicamentos e a imunofarmacologia" e no futuro pensa doutorar-se no estrangeiro, antes de regressar à Faculdade onde foi aluno.

O curso de Medicina Dentária só tinha 16 alunos, em 1983. "Era considerado um curso modelo", garante João Caramês, que passou de aluno dessa época a professor catedrático. Foi a relevância da Faculdade que lhe abriu portas no estrangeiro. Foi o primeiro português a estudar Implantologia, Cirurgia e Reabilitação Oral na norte-americana New York University College of Dentistry, que hoje representa em Portugal.

Agora as turmas têm quase o triplo dos alunos e, reconhece o professor, muitos escolheram o curso por falta de média para Medicina.

Filipe Freitas pertence à nova geração. Nasceu no ano em que João Caramês entrou para a Faculdade. Filipe tem a experiência de quatro anos clínicos e colabora nas actividades docentes do departamento de Cirurgia e Medicina Oral. Foi o melhor aluno do seu ano. Exemplar: "A desejável democratização do acesso ao Ensino Superior não pode ser sinónimo de banalização e facilitismo", acrescenta o também aluno de doutoramento.

PERÍODOS MARCANTES NA HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE DE LISBOA

"Do ponto de vista político, os períodos mais agitados corresponderão às crises de 1947/49, de 1962 e ao período que se segue à exoneração do reitor e dos directores das faculdades em Abril de 1974", explica o pró--reitor José Pedro Sousa Dias. E houve dois períodos importantes de perseguição a docentes: "Em 1935/36 [pela demissão de opositores ao Estado Novo e pela não- -admissão na Função Pública de opositores] e 1947 [por razões políticas após a derrota do nazi--fascismo europeu na II Guerra Mundial]".

Apesar de todos momentos conturbados, "as instalações [da UL] nunca foram encerradas", garante o professor jubilado Aires do Nascimento. Na foto de 1961, o então reitor da UL, Marcelo Caetano, numa visita às obras de construção da reitoria da Universidade, acompanhado pelo ministro das Obras Públicas, Eduardo Arantes e Oliveira.

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