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Correio da Manhã

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Como engolir o sabor azedo da descida

O goleador da I Liga espelha a hecatombe que se abateu sob o Belenenses e Guimarães. Nascido numa família modesta, tem 25 irmãos, bebeu o primeiro copo de leite aos 14 anos, cresceu a pulso. E não quer amargar na Honra.
14 de Maio de 2006 às 00:00
A tinta branca escorre sob fundo azul, pinta mensagens de desagrado a José Couceiro, não engana: há um clima de tensão à volta do Restelo. Nem o Sol abrasador de uma tarde de quarta-feira a cheirar a Verão ou a anulação do treino marcado para as quatro da tarde afugentam alguns indefectíveis adeptos do Belenenses das imediações do estádio. Semblante carregado, cara de poucos amigos, trocam amiúde dois dedos de conversa sobre o tema que lhes tira o sono: o ainda recente pesadelo da descida à Liga de Honra.
Entre a procura dos culpados para tamanha hecatombe que se abateu naquela zona de Lisboa e os prognósticos em relação aos futebolistas que irão à procura de vida melhor com outras cores, há quem roa as unhas no desespero de poder disparar meia dúzia de apupos ao jogador mais desprevenido.
São poucos os que resistem, que fincam pé até conseguirem os seus intentos. Os suficientes para aumentar o clima de mal-estar na estrutura directiva comandada por Cabral Ferreira, a braços com a crise inesperada e o drama de ser obrigada em poucos dias a ver-se livre dos melhores atletas daquele relvado a olhar o Tejo.
Meyong é um dos principais alvos da ira daqueles que com a pontualidade um relógio suíço se sentarem durante a época, semana após semana, nas bancadas azuis, agora desertas, tristes. Que sofrerem nas derrotas, que nas vitórias encheram os pulmões para gritarem bem alto o nome do clube da Cruz de Cristo.
Bastou desapertar o nó na garganta e dizer que não jogaria na Honra para passar de ídolo a inimigo, de bestial a besta. Tudo numa fracção de segundos. Nem o facto de ter marcado por 17 vezes e arrecadado a Bola de Ouro – o almejado troféu que distingue o melhor goleador do campeonato – o salva dos impropérios. Mesmo sabendo que tão grande feito para as bandas da equipa azul remonta à longínqua época de 1954/55 e ao histórico Matateu, então com quase o dobro dos golos (32) no currículo.
Minutos após encostar o jipe a escassos metros da porta que dá acesso ao departamento de futebol, o avançado camaronês sente na pele o descontentamento dos torcedores. Quando uma minicaravana de três carros apinhados de gente nova passa em frente ao ponta-de-lança, ouve-se alto e bom som para quem queira escutar: “Olha que isto aqui ainda não é a II Divisão. Ai não queres jogar, vai lá para a tua terra”.
FINTA A PROVOCAÇÃO
Do alto dos seus 184 centímetros, o número 21 do Restelo mantém-se imóvel, finta a provocação, nem por um segundo roda o pescoço para olhar de soslaio quem dispara a maldade. Na terra dele, Yaoundé, capital dos Camarões, jamais tratariam assim uma estrela dos relvados. Muito menos quem tanto se esforçou para salvar o clube da despromoção.
Foi nessa cidade nas profundezas do continente africano que ele, Albert Meyong Ze, nasceu a 19 de Outubro de 1980. No seio de família grande, tão grande que dava para fazer duas equipas de futebol, cedo se percebeu que o petiz tinha jeito para os pontapés na bola. “Costumava fugir de casa para ir jogar na rua. O meu pai não gostava nada, achava que seria uma perda de tempo, que nunca sairia dali. Mas aquilo era mais forte do que eu.”
Os descampados de terra batida, alaranjada e seca, eram palco dos ‘clássicos’ da miudagem, artistas de palmo e meio a sonharem alto com a projecção internacional, a agitação das claques em dia de jogo grande europeu. Era ali, com quatro pedras a fazerem de balizas, que imitava as proezas mirabolantes dos avançados do Paris Saint-Germain, clube do seu coração, acompanhado semanalmente com sofreguidão graças às transmissões televisivas dos canais francófonos.
Dos 25 irmãos, só Meyong poderá um dia atingir tal meta. Alguns ainda chegaram a jogar no campeonato local, tentaram a sorte, mas o destino nunca lhes sorriu. Ficaram por lá, noutras labutas menos lucrativas e inebriantes. Hoje distantes, continuam a assaltar a memória do ponta-de-lança: “São muitos mas conheço-os um a um, vivíamos juntos, numa casa que era uma autêntica roda-viva. Os mais velhos, a maioria, até têm filhos da minha idade. Por um lado é bom, porque nunca estamos sozinhos”.
Com o pai a valer-se orgulhoso da poligamia permitida por lei para contabilizar três mulheres e filhos em barda, solidão seria sempre caso raro naquele lar humilde e numeroso, sustentado pelo ordenado do patriarca, director de uma escola da capital. O mesmo não aconteceria quando o estômago apertava e havia que sustentar tantas bocas em sofreguidão.
Meyong só sentiu um copo de leite fresco descer boca abaixo aos 14 anos. “O meu pai não tinha hipóteses de comprar leite para todos. Éramos tantos que se tal acontecesse tinha de aparecer todas a manhãs com um carregamento enorme. Não tínhamos muitas refeições. Só almoçávamos e jantávamos, mas nunca passei grandes privações.”
DRAMA NA CIDADE-BERÇO
Enquanto o avançado camaronês experimentava pela primeira vez o sabor meio adocicado do néctar branco, o Vitória de Guimarães aguentava-se estoicamente entre os gigantes do futebol lusitano, sem aflições.
Há uma década, no reinado de Pimenta Machado, poucos achariam tolice vê-lo descer sem apelo nem agravo à Liga de Honra. O drama aconteceu a semana passada, quando a cidade-berço se apercebeu de uma triste realidade: 51 anos de muitas alegrias na divisão principal não são bilhete vitalício para a tranquilidade. Afinal, a História repete-se, mesmo utilizando outros contornos.
Em Maio de 1955, a época fora desastrosa e os minhotos caíam ao lado do eterno rival: o Boavista. O declínio teve início com a contratação de um treinador campeão: Galloaway. O inglês aparecia bem rotulado, vinha do Sporting, mas foi ele quem iniciou a descida ao inferno.
Coube ao presidente Mota Prego reconstruir o clube. E fê-lo com pujança. Contratou um novo cabeça de cartaz: Fernando Vaz, antigo treinador do FC Porto e da Selecção Nacional. O ‘vice’ Alberto Pimenta Machado apelou ao primo António Pimenta Machado, presidente do Recife (Brasil), e dali chegou o primeiro contingente de jogadores brasileiros, entre eles Ernesto Paraíso, avançado feito terror dos defesas.
Hoje, mercê de tantos feitos, é recordado em Guimarães, a par de Saganowski, o atleta dos tempos modernos mais idolatrado dos vitorianos. “Que pena não ter o ‘Saga’ numa boa época, uma boa equipa ”, confessam.
A TRISTEZA DOS ADEPTOS
A Sul, Meyong compreende como poucos a tristeza dos adeptos de Guimarães. Em Portugal há quase seis anos, depois da breve passagem (ainda enquanto júnior) por uma equipa italiana do escalão secundário, o Ravenna, começou por mostrar talento no Vitória de Setúbal. E também ele sentiu o sabor amargo da descida. “É terrível, não há nada que explique. Agora, que tenho o prémio de melhor marcador, pior ainda”, adianta frustrado, antes de passar a mão pela testa, a fazer contas ao futuro.
A carreira toma novo revês com a Cruz de Cristo ao peito. É muito azar para o menino alto e franzino que certo dia chamou a atenção do presidente de um dos maiores clubes dos Camarões, o Canon Yaoundé, que adorou as suas fintas e decidiu convidá-lo a vestir respeitável camisola. “O campo ficava perto da minha casa e sempre fui muito bem tratado por lá. Tinha tudo o que queria, só tinha de jogar. Sou independente desde os 14 ou 15 anos, altura em que comecei a ganhar o meu dinheiro, a poder comprar as minhas coisas.”
O baixo ordenado esticava ao longo do mês, gasto nos almoços e pouco mais. Nada comparado às propostas milionárias surgidas a meio desta época, quando da Rússia e da Arábia Saudita surgiram ecos de que a Europa olha atenta para ele.
O coração acabou por falar mais alto que a razão. Estabilidade garantida à beira do Sado, onde vive, aliança no dedo e uma menina de dez meses, Luna, fizeram-no aguardar. “Às vezes as coisas não correm bem mas quando chego a casa olho para ela e passa tudo. É um espectáculo”, deixa escapar, embevecido.
Mas nem a dupla feminina que lhe dá esperança e alento terá forças para travar nova investida por parte das formações estrangeiras. “Cá tenho a certeza de que não vou jogar num clube da mesma dimensão que o Belenenses”, deixa escapar antes de negar qualquer possibilidade de vestir o vermelho do Braga, o ‘verde-e-branco’ do Vitória de Setúbal ou o ‘xadrez’ do Boavista. “Ou jogo num grande português ou então só no estrangeiro.” Palavra de goleador.
CRONOLOGIA
A VIDA DE UM HISTÓRICO
1918 - Primeiro grupo com o nome Vitória Sport Clube
1922 - Fundação oficial do Vitória Sport Clube
1942 - O Vitória Sobe à I Divisão e bate o Olhanense na estreia (4-0)
1946 - Inauguração do campo da Amorosa
1955 - O Vitória desce de divisão
1958 - O Vitória sobe à I Divisão
1988 - Vitória conquista Supertaça (único troféu na vitrina)
2006 - Vitória desce à Divisão de Honra
CUSTOS INDECIFRÁVEIS
O passado longínquo não é quantificado e os custos da descida do Vitória de Guimarães em 2005/06 são indecifráveis para alguns notáveis do condado. O edil local é lapidar: “Quando os ânimos serenarem, as pessoas vão dar as mãos para conseguir o salto em frente e reagir a esta adversidade. Os prejuízos são muitos e de ordem vária. O Vitória é uma bandeira da cidade, é importante e deixa-nos fragilizados.
Não se pode avaliar bem, porque no último meio século isto nunca aconteceu, mas haverá prejuízos efectivos”, diz António Magalhães. Raul Rocha, ex-presidente da Assembleia Geral e vice-presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol sente reserva pelo futuro: “A descida de divisão provocou impacto na auto-estima dos vimaranenses. O Vitória era o clube mais antigo da I Liga, depois dos três campeões. E isso terminou. Esta descida é um ponto negro na nossa estima e terá custos sociais.
O comércio vimaranense, por exemplo, será afectado, entre várias repercussões. Voltarmos mais fortes é o objectivo, a crença do momento. Não será fácil e vamos sofrer. Precisamos de encontrar o caminho certo, o que não é garantido”, conclui, apreensivo e expectante. No passado, o clube investiu forte mas precisou de três anos para voltar à divisão maior. E agora?
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