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Correio da Manhã

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Como eram os bordéis de Lisboa antiga

O lápis azul da censura tinha um vizinho que lhe fazia a vida negra. Luiz Pacheco. Um dos seus autores, Mário Cesariny, entregara-lhe o poema, ‘A Pastelaria’, que ainda chegava a horas para ser incluído num livro.
26 de Agosto de 2007 às 00:00
Edifícios de antigos bordéis desasaperem ou degradam-se
Edifícios de antigos bordéis desasaperem ou degradam-se FOTO: Sérgio Lemos
Uma palavra adivinhava a praxe de descer as escadas. “Veja lá! disse-me o gajo”. Para que constasse ‘Madame Blanche’ o artista teria de mudar o sentido da frase. “Ele não ligava a bordéis de matulonas”; Cesariny fez de conta que a tal madame era um cinema.
Os bordéis de outrora merecem um filme. João, fotógrafo aposentado, adianta que, talvez, tenha sido “ali” – no prédio vizinho do cabaré Ritz Club, traseiras com a Praça da Alegria – que nos anos 60 alegrou o ego a muita alma. Ali. No primeiro andar do número 63 da rua da Glória onde moram criaturas que não imaginam a reminiscência do local. Com a garantia da Cannon não disparar, afinal, por duas, ou quatro tardes foi cliente da ‘Madame Blanche’ – bordel perito em prazeres capazes de ressuscitar impotentes.
Em dias de frágil imunidade, também punha homens a caminho da farmácia para comprar frascos da descoberta de Alexander Fleming. Salazar, que não entendia de penicilina, obrigava as prostitutas a irem ao Governo Civil para testar a saúde. Em vão. Os antibióticos só matam os micróbios.
Pressionado pela Igreja, a 19 de Setembro de 1962, o decreto-lei 44579 proíbe a prostituição. “Nunca saiu do papel”. Teve efeito contrário: o fruto proibido ainda se tornou mais cobiçado. No fundo, o Antigo Regime considerava a depravação útil para escudar a moral. A bem da nação, um homem que ia às meninas não andava a desonrar donzelas e não desviava casadas para o travesseiro do alheio.
António Variações, muito superior à visão do beirão, simplifica as consequências dos banquetes carnais: quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga. “Esquentamentos”. Cancros moles. Pediculose púbica. “Mas isso nunca matou ninguém!” Nem o conde de Vimioso morreu, em vez da coitada da Severa que, em 1846, partiu aos 26 anos de tuberculose, num prostíbulo na rua do Capelão.
Os olhos do João contemplaram algumas rameiras de peito avantajado e traseiro considerável. Contudo, sempre que queria ir às nuvens, na horizontal, vertical, dependia do ânimo, pagava cinquenta escudos. Esteve com uma muda, outra que falava pelos cotovelos, gordas, magras, coxas, menos com Madame Blanche. Nem sabe se ela existiu. “Quem deve saber é o Fernando” – um garanhão para quem, durante largos anos, a noite acabava às oito da manhã. Mas a andropausa mudou-lhe o horário. Além da próstata insuficiente, a companheira de bodas de platina bebe uma gasosa ao seu lado. “Volte outro dia”. Volto? Sem promessa.
FELICIDADE NO BAIRRO ALTO
Subindo a rua, duas viradas à direita, a rota prometida é o Bairro Alto, aliás, o “Bairro do Bife”, antigo epicentro do milho. O número 142 da Rua do Diário de Notícias, o 5 da Rua da Barroca ou o 8 da Travessa da Água da Flor, entre a década de 50 e finais dos anos 70, metamorfosearam tansos em potentes felizes. Dessa felicidade nem sobrou um tijolo.
O mesmo não se diz do famoso 100 da vetusta rua do Mundo, actual rua da Misericórdia. Um edifício em obras garante um empreendimento de luxo. No tempo do Sr. Manuel, dono de uma leitaria que, por ter vendido vinho, conseguiu comprar um terreno em Tomar, a fama do algarismo da centena até provocava água nas beiças dos moribundos. “Eu também lá fui”. Ao terceiro andar – a repartição mais barata, vinte e cinco escudos. O preço no segundo piso subia para o dobro. Quem pudesse despender cem paus só precisava de galgar um par de escadas.
“Tive que juntar dinheiro”, graceja Jorge, reformado do comércio. Perdeu a virgindade em 1961 com um “Monumento”. No cardápio, que era um molho de fotografias, elegeu uma sardenta fértil de peitos e de ancas. Exisir um engano entre a foto e o original estava fora de questão.
A mínima tentativa de impingir gato por lebre significava perder o cliente. Nos meses em que não conseguia amealhar, dobrava a esquina, e recorria ao prédio adjacente da Igreja de São Roque. Não ia rezar. “Ia à Eva”, um bordel baratucho que, apesar de não ter salamaleques, tinha o essencial: raparigas disponíveis. Mal o patrão o promoveu, “Fui à Madame Calado” – casa fina e cara onde iam ministros e directores gerais.
Situada numa rampa de feição da estação do Rossio, um primeiro andar de um prédio, já demolido, era propriedade da Calado, madama do Norte, que após ter amealhado um pé-de-meia na prostituição, montou um bordel no Porto e outro em Lisboa. “Ela vivia na casa do Rossio”, mas nunca abria a porta. A criada dava as honras ao cliente, e se ele fosse visita rotineira, “Ui, ui!” parecia que tinha chegado o rei. Embora amplo de inovações, o menu não variava: “Tudo o que eu não fazia com a minha mulher, fazia com elas”.
TRUQUES PARA ENTRAR NUM BORDEL
Alfredo, 67 anos, que trabalhou meio século num cabaré perito no forrobodó, fazia com elas e com todas. Conheceu quilos de fruta madura e verde feminina, embora fosse um frequentador pontual do sexo a pagantes.
“Uma coisa era certinha”: A porta do prédio de um bordel só tinha uma disposição. Aberta. A da entrada só abria após o check feito, através do ralo, pequeno, mas de tamanho perfeito para tirar a prova dos nove. Se fosse persona nunca vista no sítio, havia o risco do sexo ficar com o regozijo adiado.
A melhor artimanha para passar a fronteira consistia em carregar no corpo o mostruário do saldo bancário: Anéis, pulseiras, qualquer objecto que brilhasse servia para enfatizar a credibilidade. “Nas primeiras vezes, coloquei tudo o que tinha”, no dedo anelar levava um cachucho, no mindinho outro, e os quatro botões desapertados da camisa favoreciam a vista de um fio de ouro.
Quando o cliente era habitual, a tranca do ádito corria depressa. A responsável recebia-o de sorriso na face. Dava-lhe as boas tardes, as boas noites, ou, em horas de maior optimismo orgânico, os bons dias. Depois, encaminhavam-no para uma sala de tons acastanhados, de ar asseado. As cadeiras serviam para esperar. Às vezes, calhava estarem outros espertos. Entretinham a espera a mastigar pastilhas elásticas, a limar unhas, a puxar a franja do cabelo para trás. O que importava era o baque que vinha das mãos e da voz da patroa.
O bater das palmas e a frase “Meninas à sala” anunciava o momento imperial: O desfile. E lá vinham elas. Coxas livres de celulite, peles cuidadas com óleo de amêndoas, seios firmes de vários tamanhos, lábios com bâton candente. Enquanto as fêmeas faziam poses para empolgar a freguesia, a matrona das palmas elogiava os dotes das afilhadas. Finda a passarela, o mulherio recolhia em fila indiana e aguardava pela opção. “Escolhi-as pelas pernas e pela roupa”. No quarto, as pernas faziam mais falta do que a roupa, “Mas havia respeito”.
Nunca lá foi, mas ouviu falar da mansão da madame Azacovt, na rua Carlos Mardel, numa porta que nunca descobriu. O preço único de 500 escudos afastava muitos e atraía outros. “Era assim”.
JOSÉ VILHENA E AS MADAMES
Chama à prostituição “exploração do amor”. José Vilhena, autor da revista ‘Gaiola Aberta’, antigo dono da boîte Nigth and Day foi frequentador de bordéis. “Com gosto”. Bastante.
Na altura em que estudou na Escola de Belas Artes do Porto, à noite edificava outra arte. Sexo. É na cidade Invicta que conhece a Madame Calado, que ao contrário do nome, adorava falar. Quando vem para Lisboa, a coincidência persegue-o: “O meu atelier no Bairro Alto já tinha sido um bordel”.
A avidez pelo sexo tinha pressa, mas não tanta. Passou tardes a ler o jornal à espera que aparecesse a rapariga que queria.
“Passaram dez anos, desde a última vez que a vi”. Madame Blanche, francesa que, nos anos 30 trocou Paris pelo Fundão. Até ser quarentona exercia a profissão. De uma pousada fez uma pensão de águas correntes. Faz sucesso.
“Abre uma sucursal na capital. Ela escolhia muito bem o material”. Miúdas que vinham da província servir mas que às vezes serviam os patrões de outra maneira.
Outras, entravam na senda pelas mãos de um padrinho rico ou do namorado teso. A proibição de 1962 em nada alterou na borga libidinosa. A Polícia sabia que em bordéis não se rezava. Mesmo se estivessem fardados, a autoridade não tinha autoridade. O séquito salazarista adorava a corte prostituta.
Ministros, secretários, conselheiros, eram senhores de comer sopa ao pequeno-almoço para irem fazer a digestão à Madame Calado. “Vi muitas vezes o Dr. Correio de Oliveira, secretário de Estado das Finanças”.
O regabofe finda com o 25 de Abril de 1974. As casas fecham. Muitas transformaram-se em pensões de sexo rápido, onde as meninas já não vão à sala e ninguém bate palmas por elas.
MEMÓRIA PERDIDA OU PRATICAMENTE DEGRADADA
Os bordéis do antigamente fecharam as portas em finais dos anos setenta. À parte da memória daqueles que eram frequentadores dessas casas de sexo pago, pouco ou nada sobrou para contar a história. Alguns edifícios foram demolidos, outros encontram-se em franco estado de degradação, a esmagadora maioria dos prédios na capital, que fizeram muito homem feliz da vida, tornou-se ruína.
Rua da Glória, rua do Mundo, Travessa da Água da Flor, rua da Barroca, todas tinham uma segunda vida, para lá da noite.
ESCALÕES SOCIAIS REUNIDOS
Doutores, operários, ministros, mangas de alpaca, todos se cruzavam na mesma noite. Entravam nos mesmos prédios. Deleitavam-se com as mesmas mulheres. Desde 25 escudos a 500, os prazeres do sexo tinham sempre um custo.
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