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Como todos nós

‘Nos Sonhos Começam as Responsabilidades - E Outras Histórias’, de Delmore Schwartz, é uma extraordinária descoberta literária
João Pereira Coutinho 7 de Outubro de 2012 às 15:00
Predador perfeito
Predador perfeito

Quando me perguntam se gostava de viajar no tempo, digo que sim. Não para o futuro. Para o passado. E não para um passado distante. Gostava de visitar os meus pais antes de ter nascido. Gostava de os ver jovens, talvez estudantes, seguramente apaixonados. Gostava de me sentar numa mesa de café, ao lado deles, e observar tudo como um vulgar anónimo. Gostava de contemplar os seus rostos, ouvir as conversas de dois miúdos com vinte e tal, trinta e poucos anos.

Não sei o que diria um psicanalista desta estranha apetência. É--me indiferente. Sei apenas que trocava Idades Médias, Renascimentos ou Belles Époques por uma hora de juventude na juventude dos meus progenitores.

AUTOR ESQUECIDO

Delmore Schwartz (1913 – 1966), um dos mais brilhantes e esquecidos nomes da literatura americana, oferece uma visão semelhante. Digo semelhante, e não idêntica, porque em Schwartz essa possibilidade adquire contornos aterradores.

O conto intitula-se "Nos Sonhos Começam as Responsabilidades". É o primeiro desta colectânea que a Guerra e Paz, abençoada seja, editou entre nós. Então encontramos o narrador – Schwartz "lui même" – sentado na escuridão de uma sala de cinema. Na tela, vê o pai a caminhar pelas ruas de Brooklyn, ansioso e meditabundo com o passo que vai dar. E o passo é pedir a namorada, mãe de Schwartz, em casamento.

Assim acontece: o par viaja até Coney Island, estamos em 1909, um domingo quente de Julho. E, no momento sacramental, quando ela diz ‘sim’ e o futuro é uma promessa para os jovens noivos, o filho levanta-se na plateia e implora para que parem o filme. Daquele casamento só resultarão tristezas e ressentimentos, grita ele.

Mas o filme continua, indiferente aos seus clamores, indiferente ao seu presente. Como lembrou Irving Howe sobre este magistral conto, a vida não é um filme que possamos rebobinar ou editar.

"Nos Sonhos Começam as Responsabilidades" foi escrito em 1937, tinha Schwartz 21 anos. Mas nele encontramos o essencial do que estava para vir: uma escrita poderosamente inteligente e poética, por vezes dilacerante, sobre a condição judaica nas décadas de 30 e 40.

Só que Schwartz não se limita a esse microcosmos civilizacional. Sim, encontramos nestes contos, sobretudo em ‘América! América’ ou ‘A criança é o significado da vida’, as inevitáveis meditações sobre a identidade dos judeus entre os gentios, como sucede igualmente em Saul Bellow ou Philip Roth.

Mas o que impressiona em Schwartz é o sentimento de proximidade – afectiva, existencial, intelectual – que se estabelece entre os seus personagens e nós, seus leitores. Como se em cada um deles – nos seus medos, nas suas angústias, nas suas patéticas ambições – estivesse o reflexo do que somos ou desejamos ser.

Se o leitor não conhece Delmore Schwartz, garanto-lhe: ele será a sua grande descoberta literária de 2012.

Prefácio: Lou Reed

Tradução: Maria Dulce Guimarães da Costa e Vasco Teles de Menezes

Editora: Guerra e Paz

FILME: ‘PARA ROMA COM AMOR’

Mesmo um Woody Allen fraquinho compensa o tempo e o esforço. Este "Para Roma…" apresenta quatro histórias na capital italiana – e oferece, como momento de génio, a história surreal de um tenor glorioso que só funciona no chuveiro. Quando o vemos, a cantar uma ária ao ritmo da esponja e do sabão, absolvemos Woody pela fraca colheita do ano e esperamos pelo próximo.

Em exibição nos cinemas

LIVRO: ‘MACBETH’

Reli ‘Macbeth’, talvez a minha peça favorita do bardo. Como diria Soljenitsin, é sempre interessante ler histórias pré-ideológicas, ou seja, histórias em que a ideologia não destrói a consciência individual. Pelo contrário: a consciência tem sempre a palavra final – e fatal: matar por pura ambição de poder não poupa o casal Macbeth a esse tribunal último e interior que os condena sem perdão.

Autor: William Shakespeare

Editora: Relógio d’água

Tradução: José Miguel Silva

LIVRO: ‘GUIA POLITICAMENTE INCORRECTO DA FILOSOFIA’

O filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé chegou a Portugal. Já não era sem tempo. Este ‘Guia’ pretende demolir as piedades politicamente correctas que infectam a cultura, a universidade, as relações pessoais e até a imagem que construímos de nós próprios. Uma visão elitista e sem concessões à mediocridade das massas? Sem dúvida. E eu brindo a isso.

Autor: Luiz Felipe Pondé

Editora: Texto Editora

FUGIR DE...

‘CAVALO DE GUERRA’

Steven Spielberg é como os maus vinhos: os anos passam e ele fica cada vez pior. Este ‘Cavalo de Guerra’ pretende adaptar uma peça de sucesso sobre um cavalo que sobrevive às trincheiras da Primeira Guerra e regressa, são e salvo, às mãos do seu dono. Dizem-me que a ideia era oferecer, pela perspectiva equina, uma meditação sobre o sofrimento e a brutalidade da guerra. Agradeço. Mas não é preciso um cavalo para isso.

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