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Contra a barbárie

George Steiner vive o dilema de uma vida: como é possível ter uma fé nas “humanidades” quando elas não foram uma barreira contra a barbárie?
João Pereira Coutinho 20 de Maio de 2012 às 15:00
Cinema de facto

Em ‘No Castelo do Barba Azul – Algumas Notas para a Redefinição da Cultura’, conjunto de conferências proferidas por Steiner em 1971, o autor regressa à sua inquietação predilecta: Hans Frank, o homem da "solução final" na Europa de Leste, era um exímio intérprete de Bach e Mozart.

Outros torcionários de igual quilate comportavam-se da mesma forma: liam Goethe e Rilke ao serão – e depois, quando a manhã chegava, iam burocraticamente gasear judeus. Se não existe uma ligação consequente entre "humanidades" e "humanismo", valerá ainda a pena continuar a abrir as portas do Castelo do Barba Azul?

A resposta de Steiner, apesar de tudo, continua a ser afirmativa. Se a cultura não é garantia de nada, muito menos o será a ignorância e o esquecimento.

O AVISO DO AUTOR

Mas o interesse dos ensaios de Steiner está na forma erudita e imaginativa como o autor reconstrói a história intelectual da modernidade – para denunciar a sensação de esgotamento e desencanto em que nos encontramos hoje.

Cuidado, avisa Steiner: foi precisamente esse "cansaço desanimado", esse tédio da civilização europeia, que lançou a Europa na longa "guerra civil" de 1914 – 1945. Um tédio que é herdeiro da civilização burguesa do século XIX, esse mundo de ordem e conforto que os órfãos revolucionários encaravam como o grande cemitério dos ideais perdidos ou atraiçoados. "Antes a barbárie do que o tédio!", terá dito Théophile Gautier, em frase profética. A Europa optou pela barbárie.

E, nessa história de infâmia, os judeus ocuparam o palco principal como vítimas da mais desumana máquina de morte inventada pelos homens. Existem várias explicações para o anti-semitismo do Terceiro Reich: razões económicas, rácicas, ideológicas. Steiner prefere ir directamente à fonte e cita o próprio Hitler: "A consciência é um invenção judaica", dizia o ‘Führer’, como se o grande crime dos judeus tivesse sido o de inventarem um único Deus, castigador e vigilante, que coloca limites éticos à acção dos homens.

Ler Steiner é viajar por dois séculos de história europeia. Mas é também encontrar, em cada página, uma sabedoria feita de leitura e meditação. O que permite concluir que Steiner, ironicamente, é a melhor resposta para a sua própria pergunta: foram as "humanidades" que fizeram deste autor um dos principais defensores e intérpretes do "humanismo" europeu. Nem tudo está perdido.

RESUMO

O livro fundamental na obra deste professor de Cambridge, crítico literário, filósofo, ensaísta e pedagogo, sobre o qual a ‘The New Yorker’ disse: "[Steiner] escreve como um homem que partilha ideias, e as suas noções originais, ainda que dificilmente animadoras, têm o estimulante efeito que os pensamentos de primeira grandeza sempre possuem."

Título Original: 'In Bluebeard’s Castle – Some Notes Towards the Redefinition of Culture’

Autor: George Steiner

Editora: Relógio D’Água

Tradução: Miguel Serras Pereira

DVD: ‘O DEUS DA CARNIFICINA’

O tema é um cliché, admito: por baixo da respeitabilidade burguesa espreitam tensões selváticas que esperam pelo seu momento de libertação? Tudo visto, tudo dito. Mas Polanski é Polanski e o encontro de dois casais para discutirem um desaguisado entre os filhos pré-adolescentes rapidamente ganha contornos de farsa grotesca.

Realizador: Roman Polaski

LIVRO: ‘MIL NOVECENTOS E OITENTA E QUATRO’

Orwell foi um dos grandes pensadores anti-autoritários e o seu ‘Mil Novecentos e Oitenta e Quatro’ é um clássico distópico sobre um regime totalitário e a oposição de um homem a ele. E só um génio, como Orwell, seria capaz de, através de um romance, legar à posterioridade certos termos ou conceitos – ‘Big Brother’, ‘novilíngua’, etc.

Editora: Antígona

CINEMA: ‘TEMOS DE FALAR SOBRE KEVIN’

O melhor do mundo são as crianças, dizia o poeta. O poeta não conheceu Kevin, um monstrinho que tortura (psicologicamente) a mãe e massacra (literalmente) os colegas. O filme de Lynne Ramsay vale pelo retrato cirúrgico de uma família sitiada por dentro – e Tilda Swinton, no papel da mãe, é um prodígio de representação.

Realizador: Lynne Ramsay

Em exibição nos cinemas

FUGIR DE...

‘A MINHA SEMANA COM MARILYN’

É o problema dos ‘filmes inspirados em acontecimentos reais’: virarem caricaturas irreais. No caso, uma caricatura da relação entre Marilyn e Laurence Olivier em ‘O Príncipe e a Corista’. Um museu de cera pueril e nulo que nada nos diz sobre Marilyn ou Olivier. Muito menos sobre a oposição teoricamente interessante entre o método Stanislavski e a escola teatral inglesa.

De Simon Curtis (DVD)

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