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Correio da Manhã

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CONTRA O SANGUE NA ESTRADA

Era um programa sem papas na língua contra o flagelo dos acidentes de viação. Na altura, como hoje, já eramos um perigo ao volante.
18 de Maio de 2003 às 14:21
Desportista, piloto de automóveis, jornalista, director de publicações, escritor, perito em assuntos rodoviários, director desportivo, produtor e apresentador de rádio e televisão e industrial. Tudo isto foi Joaquim Filipe Nogueira, nascido em Algés corria o ano de 1929.
Grande aficionado do automóvel e do desporto motorizado, iniciou-se em provas de perícia em 1947. Dotado e talentoso, venceu as mais cotadas provas de velocidade e ralis e o seu palmarés colocou--o na galeria dos volantes de excepção – com prestígio além-fronteiras e como um dos grandes pilotos nacionais.
Fascinado pela competição mas ciente do seu risco, entrou em pista com a atitude de quem domina a mente e o corpo antes de dominar a máquina. Condição essencial ao são desempenho em pista, como na estrada, essa forma de estar traduzia a nobreza de ser piloto: um cavalheiro, elevado pela conduta e não pelo brilho dos louros.
Didáctico, Joaquim Filipe Nogueira quis ensinar a viver com o automóvel para assim se poder conviver na estrada. Contundente, remou – e rema - contra a maré de marasmo e hipocrisia colectiva que mancha o País de sangue...
O PAÍS ACIDENTADO (PARTE I)
‘ Sangue na Estrada’ (transmitido entre 1965 e 1974) era colorido a preto e branco, já que televisão a cores era miragem nos anos 60. Mas se a ‘caixinha’ ganhou cor, perdeu programas assim. Implacável, Joaquim Filipe Nogueira punha o dedo na ferida e na causa das coisas. Orgulhosamente só, Portugal seguia na cauda da Europa em acidentes de viação. O programa abria com números de dor: mais acidentes, mortos e feridos. Invariavelmente. A crueza das fotos reforçava o drama e a mensagem passava (sem ‘show’, que o assunto era sério e o poder não aprovava, a bem da nação) com vigorosos comentários. Não eram apenas criticados, duramente, os acidentes causados pela inconsciência de condutores ou peões. Os desastres provocados pela deficiente construção, configuração ou estado de conservação das estradas, ou devido a uma errónea ou inexistente sinalização e escassa iluminação eram ‘arrasados’.
Filipe Nogueira acusava ‘quem de direito’. Nas entrelinhas, sabia-se quem era ‘quem de direito’. Se acusavam o ‘toque’, não se sabia... Abordando a iluminação da marginal Lisboa – Cascais, Filipe Nogueira insurgia-se contra os maciços candeeiros em pedra colocados junto à estrada. Ou matavam (mataram) em caso de colisão ou desmoronavam-se na via! Por estas e por outras, ‘Sangue na Estrada’ era fundamental. Apesar da circulação rodoviária ser muito inferior à de hoje, acidentes já eram coisa que não faltava. Basta recordar números do parque automóvel e acidentes registados nos distantes anos de 1968 e 1969, quando a rede viária tinha uns meros 50 quilómetros de auto-
-estrada (ver caixa).
E hoje? Diminuem, com uma rede viária moderna, melhor asfaltada, mais segura e sinalizada? Ou com inspecções obrigatórias de veículos que garantem mais segurança e que eram impensáveis nas décadas de 60 e 70?
O PAÍS ACIDENTADO (PARTE II)
Continuam a viver-se cenas lamentáveis nas estradas portuguesas. Tão lamentáveis que é difícil reagir ou assumir a inconsciência e o morticínio. Mas que reacção provoca este drama nacional que é quotidianamente vivido? Muitas vezes, um mero pensamento: “Mais um, mas antes ele que eu”. E quando é tão abundante o sangue na estrada como a amálgama dos destroços, porque se abranda a marcha para espiar a desgraça alheia (que é a de todos, afinal)? E quanta satisfação dizer que na recente ‘Operação Páscoa’ morreram ‘apenas’ 26 almas, menos duas que na Páscoa de 2002! Assim se fazem os dias. Brincando com a vida num estúpido e mórbido jogo que mata e vai matando o automóvel. Que dele não é a culpa nem da estrada, como se sabe. Será esta a sociedade dita evoluída, civilizada, que mata mais com um volante em (más) mãos que certas epidemias ou guerras? Fosse Filipe Nogueira vivo e com ‘Sangue na Estrada’ em antena, disto não deixaria de falar. E já agora: a RTP não devia repor – ou refazer – um programa desta natureza?
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