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Coração de mãe nunca se engana

Mãe, posso ir comprar uma flor para dar à A.?", perguntou-me o José, um dia destes. Pensei: ponho uma cara de "então e a mim não me dás um cravo?" ou uma cara de "sim, vai lá"? Optei pela última.
27 de Outubro de 2013 às 15:00
Maria Inês Almeida, crónica, Anda uma mãe a criar um filho
Maria Inês Almeida, crónica, Anda uma mãe a criar um filho FOTO: Ricardo Cabral

Ele tirou dinheiro do mealheiro e, já na rua, avisou-me: "Podes ficar no carro, que eu vou sozinho." Veio da florista com uma rosa branca e a expressão de felicidade que o Paulo Bento há-de ter se para o ano ganhar o Mundial do Brasil. "Já estou a imaginar a cara da A.", confessou, derretido.

Quando a A. veio brincar a nossa casa, trouxe-lhe ovinhos de chocolate e ele ficou com o ego de rapazinho em êxtase. Eu própria tive direito ao prémio de consolação: um desenho, que, explicou ela, era suposto ser o meu retrato.

Será paixão? Nesse dia, quando fui buscar o José à escola, vira-se ele para mim: "Ó mãe, a B. e a C. perguntaram-me se eu também lhes podia oferecer uma flor. Posso comprar uma para elas?" Eu, toda mãe moderna: "Claro que sim, filho". Mas logo a pensar que, por este andar, o melhor é abrir uma loja de florista.

Por outro lado, tranquilizou-se o meu coração de mãe: isto são coisas de criança, gestos de amizade do meu filho pela turma toda. É assim, oferecem flores e ovinhos de chocolate uns aos outros.

Só que o coração de mãe, ui, é muito sobressaltado. E o meu coração de mãe pôs-se a dizer ao meu cérebro: "Então, se é amizade, por que é que o José não oferece flores a rapazes nem estes lhe retribuem com chocolates?"

Um sobressaltado coração de mãe nunca se engana. Nos dias seguintes, chegavam aos meus ouvidos novos pedidos, desejos ardentes: "Mãe, podemos comprar uns lápis de cor para eu oferecer à A.? E esta mochila, também pode ser?"

O pinga-amor queria embrulhar a A. em presentes, em celofane. Pronto, agora já tenho a certeza: começou a carreira amorosa do José. Tem a A. no ponto de mira, mas com a B. e a C. também na linha de tiro. Ou seja, o meu filho é um Don Juan das flores e dos ovinhos de chocolate. Estou feliz: mais humano do que o meu José não se arranjava.

Maria Inês Almeida crónica Anda uma mãe a criar um filho
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