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Coreia do Norte: "As ameaças são para levar a sério"

Antigo embaixador no Iraque Francisco Falcão Machado analisa a crise provocada por Pyongyang
Fernanda Cachão 10 de Setembro de 2017 às 15:00
O líder norte-coreano Kim Jong-un numa fotografia divulgada em junho durante o lançamento de um míssil balístico de médio alcance, um dos vários que lançou este verão
O líder norte-coreano Kim Jong-un numa fotografia divulgada em junho durante o lançamento de um míssil balístico de médio alcance, um dos vários que lançou este verão FOTO: Reuters

O embaixador Francisco Falcão Machado, colocado em Bagdad em 2005, dois anos depois do início da intervenção militar americana que levou à queda do regime de Saddam Hussein, acredita que não serão os EUA a dar o primeiro passo. Mas o clima de pré-guerra teve novo desenvolvimento com o lançamento do Hwasong-14O feito, segundo o Pentágono, desde uma fábrica de armas em Mupyong-ni. Na antena de televisão, foi Ri Chun-Hee que celebrou a notícia, depois de ter sido ela a chorar, em 1994, a morte do fundador da dinastia Kim Il-Sung e depois, em 2011, a de Kim Jong-il.

Quanto devemos levar em linha de conta as ameaças da Coreia do Norte?
As ameaças de Kim Jong-un são para levar a sério. Dito isto, há que reconhecer que, neste momento, as probabilidades de essas ameaças se concretizarem são limitadas, pois qualquer passo nesse sentido nunca dependerá só dele. A Coreia do Norte tem vizinhos poderosos que devem estar bem informados de tudo quanto por lá se passa e pouco dispostos a que as coisas ultrapassem certos limites. De qualquer maneira, ao examinarmos esse tipo de ameaças é importante definir desde logo se correspondem a iniciativas bélicas ofensivas ou defensivas.

Onde se joga a diplomacia neste xadrez? Quais os principais 'jogadores'?
As ameaças proferidas por Kim Jong-un não são um fim em si mesmo, constituem um meio de pressão para forçar concessões no xadrez diplomático. Cabe à diplomacia descobrir o que é que o regime de Pyongyang verdadeiramente pretende e esse será o ponto de partida de qualquer negociação. O que significa também que Kim Jong-un nunca irá obter tudo quanto quer e que, segundo alguns, é aceitação na Comunidade das Nações e, obviamente, ajuda económica. Para chegar a esse estádio deverá haver ajustes prévios entre ao principais interessados, os quais se incluem naturalmente a China, a Rússia e os Estados Unidos.

Não há qualquer semelhança entre EUA/Coreia do Norte e os EUA/ /URSS do tempo da Guerra Fria?
Há semelhanças, mas as diferenças são maiores do que as semelhanças. Simplificando, a Guerra Fria foi um confronto ideológico entre dois blocos mundiais que se converteu no equilíbrio pelo terror de uma guerra nuclear na qual nenhum dos adversários se atrevia a dar o primeiro passo. A Coreia do Norte dispõe de alguns apoios, mas estão longe de constituir um bloco ideologicamente coordenado. A sua retórica política só teria sentido se os Estados Unidos tomassem a iniciativa de agredir militarmente a Coreia do Norte, o que é pouco provável que suceda. A posição final de Pequim tão pouco deixa de ser uma incógnita.

Segundo fontes internacionais, a China tem financiado a Coreia do Norte. Porque é que Pequim deixou aparentemente de estar interessado nessa aliança, podendo colaborar nas sanções impostas pelos EUA?
É errado pensar que a China vai deixar ‘cair’ a Coreia do Norte. Isso não quer dizer que não possa forçar algumas mudanças, o que acontecerá se os seus interesses estratégicos forem ameaçados. A questão do financiamento é mais complexa. Pequim tem garantido que o seu apoio à Coreia do Norte é essencialmente humanitário. O que não se sabe é até que ponto a China tem estado dentro do programa de mísseis de Pyongyang. É de lembrar que a tecnologia do programa nuclear da Coreia do Norte foi fornecida por elementos do Paquistão, país que agora parece ter deixado de estar nas boas graças de Washington.

Como é que acha que poderia ser uma intervenção militar e quem seriam os parceiros?
É difícil que a doutrina da guerra preventiva venha a ser aplicada neste caso. Creio que só haveria uma guerra se Kim Jong-un fosse o primeiro a atacar, mas aí teria praticamente todo o Mundo contra. Risco maior seria surgirem convulsões internas na Coreia do Sul que abalassem o atual equilíbrio regional. Um dos objetivos do regime norte-coreano é ‘libertar’ a Coreia do Sul do ‘jugo’ americano e unificar os dois países. A situação agravar-se-ia se Pequim consentisse tal projeto.

Há alguma hipótese de a Coreia do Norte e do seu poderio militar ser uma espécie de grande peça de teatro criada pelo regime ou a diplomacia já afastou essa hipótese?
A diplomacia nunca afasta hipóteses. Analisa, sim, as probabilidades e há quem entenda que a escalada de agressividade de Kim Jong-un resulta do temor que ele tem de não ser levado a sério, o que acaba por ser uma fraqueza pessoal que outras potencias têm sabido manipular. O problema é que, até aqui, ele não deu mostras de querer utilizar outros meios para granjear o respeito da comunidade internacional, o qual desapareceu quando ele deixou de respeitar os compromissos assumidos pelo seu país no Tratado de Não Proliferação Nuclear de 1985.  

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