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“Corri para o avião que tinha caído numa zona de minas”

Fui medalhado pela moral, coragem e altruísmo. Eu era cozinheiro e então, e até hoje, conhecido por ‘Malagueta’
Por Fernanda Cachão|11.03.18
“Corri para o avião que tinha caído numa zona de minas”

Fui a Lourenço Marques para a cerimónia, onde subi a um palco e ouvi relatarem em voz alta o que tinha feito a 11 de março de 1968. Um almirante da Marinha colocou-me a Medalha de Cobre de Valor Militar, abraçou-me e fez-me a continência. Na portaria de 28 de janeiro de 1969 ficou escrito que - faz hoje 50 anos - demonstrei "possuir grande coragem física e moral, altruísmo consciente, abnegação de decisão, empolgando com a sua ação alguns seus camaradas, correndo assim para apressar os socorros que se impunham às vítimas de um grave acidente".

Eu, Manuel José Marreiros, natural de Bensafrim, em Lagos, era para todos o ‘Malagueta’, alcunha por usar esse tempero nas minhas funções de cozinheiro na região de Mueda, em Moçambique. Nesse 11 de março de 1968, um avião de reconhecimento despenhou--se. No quartel, ouviu-se um enorme estrondo. Tinha caído numa ribanceira junto ao nosso aeródromo. Fomos todos a correr. Uma vedação de arame farpado separava o vale de Miteda e estávamos todos a ver o avião no fundo, despedaçado e a deitar fumo, sem nada podermos fazer porque a zona tinha sido armadilhada pelo Exército.

Tínhamos especialistas em minas e armadilhas e o comandante mandou chamá-los, mas eles estavam a dois quilómetros do nosso quartel e levariam tempo a organizar a saída e a chegar onde estava o avião. Antecipando já o que se passaria, se não fossem depressa socorridos, saltei o arame farpado e disse em voz alta:

- Eu vou prestar socorro àquela gente e se por acaso não conseguir chegar por ter explodido alguma mina, pelo menos abro o corredor de socorro para que consigam passar em segurança.

O comandante Galhardas e outros começaram a gritar:

- Oh ‘Malagueta’, onde tu vais? Tu vais morrer ‘Malagueta’!!!

Mas lá fui e com sorte ou a graça de Deus passei e estava já a tirar do avião os feridos quando começaram a chegar os outros, no meu encalço desde a vedação.

Uns dias depois recebemos a visita de um general já idoso, apoiado numa bengala, que se dirigiu à cozinha onde eu, como sempre, exercia a minha função de cozinheiro das refeições de todos os meus camaradas, de oficiais a praças, num total de 60 pessoas. O general aproximou-se e eu fiquei envergonhado, pois trabalhava descontraído e tinha até a cabeça descoberta, sem boné.

- É você o soldado ‘Malagueta’?

Respondendo afirmativo, recebo dele um forte abraço de agradecimento. Com modéstia disse--lhe que tinha feito apenas o que o meu coração tinha pedido.

Desde há muitos anos, quando se aproxima a data, começo a rever aquele dia: vejo outra vez o soldado Morgado sentado no chão com uma perna partida e o osso a romper-lhe as calças, a sangrar muito. Oiço-o dizer-me, numa atitude muito nobre:

-Vai-te embora ‘Malagueta’, que o avião vai explodir!

Oiço os gritos do cabo especialista que, ao ser projetado, ficou a queixar-se das dores que sentia.

Vi a morte em Moçambique, por mais duas vezes. A primeira ainda durante a comissão, a bordo do ‘D. Leonor’, um barquinho a remos que tinha feito e que num dia de pescaria com o Gamito (alcunhado de ‘Sacristão’) se voltou. Graças a Deus, aguentei a corrente, dei a volta ao barquito e puxei o Gamito, que perdia as forças e me dizia para o deixar e me salvar. Já em terra, sentados a recuperar, demos um forte abraço - há uns anos, fui à procura dele e pude repeti-lo perto de Palmela.

A última vez foi em 1970, quando ia ter com a minha mulher, grávida, a Nampula, trabalhava eu na fábrica Socaju, em Nacala. Ia de mota, quando vejo um leão sentado na estrada. Assobiei, apitei, acendi as luzes e nada. Acelerei e só depois olhei para trás para ver que ele tinha atravessado a estrada - "Ai, ‘Malagueta’, mais uma vez escapaste da morte."

Nome Manuel José Marreiros

Comissão1966-1968

Força Polícia da Força Aérea

* Info Esteve 33 anos em França, 28 dos quais como empresário. Tem quatro filhos e sete netos  

 

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