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Crime Disse Ele: A escravidão do soldador romeno

Veio para Portugal atraído por melhores condições de vida, mas acabou arrumador de carros, espancado pelos captores.
Carlos Anjos 20 de Novembro de 2015 às 15:07
Arsen F., soldador romeno de 26 anos, foi apanhado numa rede de tráfico
Arsen F., soldador romeno de 26 anos, foi apanhado numa rede de tráfico FOTO: João Miguel Rodrigues

O tráfico de pessoas é hoje um dos crimes mais lucrativos, sendo que as penas de prisão que se lhe aplicam são muito mais baixas do que as fixadas para o tráfico de armas ou de droga e para o terrorismo. Tais factos fizeram crescer o tráfico de pessoas, nomeadamente nas áreas da prostituição ou lenocínio e da escravidão laboral. É deste âmbito o caso de que falamos a seguir: o de uma organização criminosa que operava entre a Roménia e Portugal, entre 2012 e 2013.

O INFERNO DE ARSEN

Arsen F., 26 anos, vivia no seu país em crise económica, a Roménia, onde trabalhava como soldador. Corria o mês de julho de 2012, quando foi contratado por um compatriota seu, chamado Zarzarica, para fazer um serviço em casa deste. Satisfeito com o trabalho, Zarzarica disse-lhe que tinha negócios num país onde o rendimento do trabalho era superior ao praticado na Roménia e convidou-o para trabalhar para ele, em Portugal. Arsen F. aceitou de bom grado a oferta.


No dia 7 de agosto de 2012, os dois homens saíram de Tulcea, na Roménia, com destino a Portugal, mais concretamente a Aveiro, onde chegaram no dia seguinte. Logo que saíram da Roménia, Zarzarica pediu-lhe os documentos de identificação a pretexto de poder tratar da licença de trabalho. Em Aveiro, foram para um apartamento onde já estavam outros romenos. Todos com a mesma promessa de trabalho. A primeira surpresa desagradável aconteceu no dia seguinte, quando Zarzarica o levou aos parques de estacionamento da Universidade de Aveiro e lhe disse que era ali que ele iria trabalhar, a arrumar carros. Zarzarica deixou-lhe uma sandes e um sumo e ordenou-lhe que ali permanecesse até às 19 horas, quando o iriam buscar, altura em que deveria entregar todo o dinheiro recebido. Arsen, porém, resolveu ir para casa. Queria descansar da viagem feita desde a Roménia e foi ali que Zarzarica e outro indivíduo o encontraram. O par maniatou-o e agrediu-o, nomeadamente com uma chave de fendas. Arsen F. conseguiu fugir mas foi perseguido e apanhado no exterior da casa. Levaram-no de volta e continuaram a agredi-lo, ameaçando-o de morte caso não se portasse bem e nos quinze dias seguintes não continuasse a arrumar carros. Arsen, bem como os outros romenos da casa, trabalharam nos parques de estacionamento todos os dias, controlados por Zarzarica, mas principalmente pelos irmãos Doru e Dandu Amet.


No final da quinzena, Arsen questionou Zarzarica acerca do prometido emprego, mas foi informado de que não estavam previstas quaisquer alterações à sua situação. Arsen exigiu de volta os seus documentos e Zarzarica, com a ajuda dos irmãos Amet, agrediu-o barbaramente, ameaçando-o de morte. Arsen foi fechado num quarto durante dois dias, a água. No fim do cativeiro perguntaram-lhe se tinha ganhado juízo.


Arsen F. trabalhou a arrumar carros durante 45 dias. Falava com a família por telefone, mas era obrigado a dizer que era feliz em Portugal. No início de outubro de 2012, voltou a pedir a Zarzarica para regressar à Roménia. A resposta foi negativa e o homem tentou a fuga. Foi capturado e agredido, esteve uma semana fechado num quarto e voltou a arrumar carros.


No dia 4 de junho de 2013, quase um ano depois de ter chegado a Portugal, cerca das pelas 23h00, quando Zarzarica, os irmãos Doru e Dandu Amet e um outro elemento da organização, de nome Murat, festejavam o aniversário de Dandu, Arsen F. informou os carcereiros que não iria continuar a trabalhar para eles, garantindo-lhes, porém, que nunca os iria denunciar.


Foi espancando pelos Amet, perdeu os sentidos e teve de ser levado para o serviço de Urgência dos Hospitais Universitários de Coimbra, onde um dos irmãos serviu de intermediário com os médicos (Arsen não falava português) e mentiu acerca da origem do espancamento.


No dia seguinte, quando estava novamente a arrumar carros no parque de estacionamento da Universidade de Aveiro, Arsen F. pôde denunciar o inferno que vivia ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), que ali efetuava uma operação. Os serviços portugueses confirmaram a história do soldador, que envolvia ainda mais dez pessoas de origem romena em situação de escravidão. Os irmãos Amet foram detidos, mas apesar das diligências efetuadas, nunca foi possível encontrar e deter Zarzarica. Os Amet foram condenados a penas de sete anos de prisão pelos crimes de tráfico de pessoas, sequestro, extorsão e ofensas à integridade física, mas se estes indivíduos tivessem sido apanhados com um quilo de cocaína, seriam considerados traficantes de droga e dificilmente escapariam a uma pena inferior a 12 ou 14 anos de prisão.
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