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Crise do euro: A moeda maltratada

A crise de 2008 pôs a nu as fragilidades do euro. Exposta aos mercados financeiros, a moeda deixou de ser comum – cada estado passou a ter um euro de valor diferenciado pelas taxas de juro praticadas. A resposta da Europa foi dissonante. Alemanha e França excluíram o Reino Unido e a Itália para decidir o rumo a seguir sem atender às instituições da UE. Mas sem resultados.
18 de Dezembro de 2011 às 00:00
Crise do euro: A moeda maltratada
Crise do euro: A moeda maltratada FOTO: Alex Domanski, Reuters

Uma década depois, o euro deu de si. Concebido como o corolário do mercado único, e como objectivo da União Económica e Monetária, o euro nasceu torto, mesmo tendo em conta que era uma moeda virada essencialmente para as trocas internas da Comunidade Europeia. Ou seja, nunca foi uma moeda orientada para os mercados globais, muito embora alguns espíritos mais voluntariosos pretendessem ver nela uma moeda de reserva internacional.

Enquanto o euro, como moeda para as trocas intracontinentais, esteve abrigado do mundo extra-europeu cumpriu razoavelmente o seu papel adicional no mercado comum. Porém, a crise financeira internacional de 2008 veio pôr tudo em causa e obrigar a zona monetária europeia a medir-se com o mercado financeiro global. Este processo também foi o processo do desfalecimento dos poderes públicos comunitários.

Explico-me:

Em 2009, a Comissão Europeia e o ECOFIN decidiram apontar uma nova meta temporal para o respeito estrito do Pacto de Estabilidade, nomeadamente a meta dos 3% para os défices orçamentais, mas tendo em conta o esforço que os Tesouros de alguns estados-membros, entre os quais Portugal, haviam feito para socorrer o sistema bancário nos respectivos países, esse objectivo seria modulado e o esforço decisivo adiado para 2012. Foi então que essa medida comunitária foi estilhaçada pela entrada em cena das agências de rating, ou seja, por instrumentos privados do mercado financeiro global, até ali complacentes com a notação das dívidas soberanas, para dizer o mínimo.

CATIVOS DO MERCADO

A degradação da credibilidade dos estados periféricos com dívidas foi imparável e operou-se uma grande modificação na Zona Euro: cada estado passou a ter um euro de valor diferenciado pelas taxas de juro praticadas. Como os países estavam cativos do mercado financeiro externo para os empréstimos que necessitavam de contrair, esse ‘ágio das taxas de juro’ sucedeu às antigas desvalorizações cambiais de que todos guardamos memória, e que suscitou muitos estudos entre nós. Assim passámos a ter euros nacionais cotados para aceder aos mercados pelas agências de rating e medidos pelo diferencial das taxas de juro praticadas no mercado internacional da dívida. O euro, exposto ao mercado da dívida externa, fragmentou-se.

CASTIGO DOS ‘PECADORES’

A princípio os nórdicos pensaram tratar-se apenas de uma actualização das teses de Max Weber sobre o capitalismo e a ética protestante da poupança e da austeridade, e da sua presumida ausência nos povos da periferia. Este preconceito moral deu prioridade ao castigo dos ‘pecadores’ e impediu a tomada de medidas activas para dominar os mercados vorazes. O euro mostrava o seu defeito de concepção ao Mundo. Deste modo, a persistente recusa em permitir ao BCE um papel mais activo na defesa da moeda enfraqueceu toda a Zona Euro e inquietou o Mundo, como se verificou na reunião do G-20, em França, em Novembro último.

A crise do euro obrigou o próprio FMI a concentrar os seus cabedais na defesa da moeda europeia, revelando as fragilidades internacionais desta. Ainda não se procedeu ao balanço do papel do FMI na salvaguarda da Zona Euro dada a sua associação à Comissão Europeia e ao BCE na chamada troika nas operações de resgate à Grécia, Irlanda e Portugal.

EUROPA DAS CHANCELARIAS

Enquanto isto acontecia, o eixo franco-alemão multiplicava-se em cimeiras, ultrapassando as instituições da UE, e reduzindo a quase nada o papel da Comissão de Bruxelas. Acentuou-se a dimensão intergovernamental da União, e o continente voltou à sua antiga condição de Europa das Chancelarias, anunciada pelo modo de ratificação do Tratado de Lisboa.

A Europa das Chancelarias promove o protagonismo das maiores potências internas da UE, como a Alemanha e a França. O eixo franco-alemão conseguiu mesmo, em plena crise da moeda, afastar o Reino Unido e a Itália de desempenharem o papel que lhes estaria destinado no clássico formato do ‘directório europeu’: o Reino Unido por estar fora da Zona Euro, a Itália por se ter visto sob suspeita de más contas. Desta maneira, o eixo Berlim-Paris ficou com a iniciativa das propostas para responder à crise. O pior foi ainda não ter conseguido acertar com as medidas necessárias.

MERCANTILISMO

As medidas propostas pela dupla Merkel-Sarkozy são feitas num tom estridente e despropositado que acabarão por gerar um perigoso mal-estar no interior da UE, tanto mais que a nível internacional a sua influência é escassa. Basta ver a falta de entusiasmo com que a ideia de reforçar os montantes do FEEF com capitais de outras potências, como o Brasil e a China, foi recebida durante a reunião do G-20.

A crise da Zona Euro está, aliás, a fomentar uma espécie de ‘mercantilismo financeiro’, traduzido no entesouramento de reservas pelos países com excedentes nas suas balanças comerciais, que assim não permite um maior equilíbrio entre a riqueza das nações.

2012 EM ANTEVISÃO

NOVO TRATADO NA UE

Acordo pronto durante o próximo mês de Março e ratificação antes do final de 2012 é o calendário desenhado para concretizar o projecto de tratado sobre controlo orçamental, saído do Conselho Europeu de 8 e 9 de Dezembro. Será só obrigatório para os 17 países da moeda única.

RESISTÊNCIAS E DÚVIDAS

O projecto de Bruxelas foi mal recebido pelos mercados. Há dúvidas sobre o que dará um referendo na Irlanda e a oposição do candidato PS francês às presidenciais, François Hollande, que quer instituir os ‘eurobonds’ e a intervenção do BCE.

EUROPA EM RECESSÃO

As projecções dos PIB de 2012 colocam a Europa Ocidental, ou seja a UE, como única sem crescimento: Os seus -0,2% contrastam com os 3,7% da Rússia, 3,5% da América Latina e 6,5% da Ásia sem Japão.

EXCEPÇÃO POLACA

O marasmo económico na Europa segue o ritmo da última década. Alemanha e França crescem zero. A excepção destaca a Polónia, que cresce 3,2% e tira partido da 2.ª vitória eleitoral do democrata-cristão Donald Tusk.

DINAMIZAR EMPREGO

As taxas de desemprego são astronómicas na UE. Há ideia de criar estímulos, mas tudo deve parecer pouco. Diante de milhões de desempregados, só a indústria aeronáutica promete contratar. Mas apenas 4 mil. 

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