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Cúmplices do invasor americano

Equipa portuguesa ajudou a fazer ‘E Agora Invadimos o Quê?’, novo filme de Michael Moore, que quase entrevistou Marcelo e Portas
Leonardo Ralha 19 de Junho de 2016 às 11:11

Dois   séculos   depois   de   Junot,   o general   a    quem Napoleão mandou conquistar Portugal, o invasor americano chegou a Lisboa de avião, nos últimos dias de abril de 2015.    Trouxe    nove    pessoas, mais    uma    que    chegara    uma semana antes, para desbravar caminho, mas teve ajuda de seis portugueses para cumprir o objetivo de levar algo de volta para os EUA.

Felizmente tratava-se da rodagem do documentário ‘E Agora Invadimos o Quê?’, em que Michael Moore, o autor de ‘Bowling for Columbine’ e ‘Fahrenheit 9/11’, percorreu vários   países    em    busca    de ideias que valesse a pena roubar. Como pode ver quem assistir ao filme, estreado em Portugal nesta quinta-feira, o que  mais    impressionou    o realizador    de    61    anos    foi    a despenalização do consumo de droga, embora mais mediático tenha sido outro momento da estadia de três dias e três noites em Lisboa.

"As palavras dele quando estacionámos   na    Alameda, no Primeiro de Maio, foram ‘Communist heaven, baby’", recorda Leonardo António, de 34 anos, diretor de produção em Portugal. O "paraíso comunista"    capaz    de    impressionar Michael Moore, que aparece entre jovens que cantam ‘A Internacional’ de punho erguido, foi a manifestação da CGTP em que cumprimentou Arménio Carlos, o líder dessa central sindical.

A presença de Moore em Lisboa fez-se então notar, e até demasiado, pois houve um incidente com "empurrões de parte a parte" entre repórteres   fotográficos    e    a sua    equipa.    Mas    o    inimigo nº 1 da direita norte-americana primou pela discrição, que combinava com o secretismo do projeto, sendo raras as referências ao país de onde vinha e àquele para onde iria.

Poucas confusões

Certo é que o ‘invasor’ deixou boas recordações nos portugueses que trabalharam consigo.   Assim   foi   com   Susana Realista, de 33 anos, convidada para a equipa por Leonardo António, embora a experiência tenha começado com um susto. "No primeiro dia, logo que chegou a Portugal, estávamos no lobby do hotel e ele perguntou: ‘Quem é que aqui se chama Realista?’ Um bocado a medo, a pensar ‘o que é que eu fiz?’, disse que era eu. E respondeu ele: ‘O teu nome   é   espetacular.   Tem tudo a ver com documentários. A partir de hoje, toda a gente se chama Realista. Eu sou Michael Realista!’"

Não ficaram por aí as surpresas. "Teve uma namorada portuguesa e percebe algumas coisas. Muitas vezes nem pedia para traduzir porque já percebia o que estava a ser dito", explica Susana Realista, que ajudou a satisfazer a curiosidade gastronómica de Moore e de uma comitiva que incluía a irmã, a sobrinha e um amigo. "Queriam comida portuguesa típica, mas fomos a restaurantes ‘não muito tasca’", diz, realçando que a única incursão que fizeram a um espaço "mais gourmet" da capital portuguesa desagradou ao americano.

"Reconheciam-no bastante na rua, embora não tenhamos andado muito. Tínhamos de estacionar junto ao local das entrevistas, pois ele tem muita dificuldade em caminhar e subir escadas. Só tem 61 anos, mas está muito debilitado fisicamente", explica a licenciada em Cinema pela Escola Superior de Teatro e Cinema.

Pouco dado à vida noturna, Moore abriu uma exceção na última   noite.   Apetecia-lhe ver o filme de ficção científica ‘Ex Machina’, e coube a Leonardo António acompanhá- -lo à sessão da meia-noite. Duas horas antes, o diretor de produção foi ao El   Corte Inglés, avisou que voltaria com um VIP, e sem guarda-costas,   e   quis   saber   a   saída   de emergência   mais   próxima caso algo corresse mal. Mas não   houve   incidentes.   "Por incrível que pareça, só o staff do cinema é que o reconheceu. Quando tira o boné e os óculos fica igual a qualquer um. Disse-me que usa esta técnica na rua, precisamente para não ser reconhecido."

Ilustres recusas

Recebido noutros países por presidentes (Eslovénia) e ex- -presidentes (Islândia), Moore esteve quase a entrevistar um futuro Presidente da República   de   Portugal.   Mas   a conversa com Marcelo Rebelo de Sousa foi cancelada depois   de   um   colaborador   ter feito notar as posições do professor universitário quanto ao aborto. "Ele não gosta de dar tempo de antena a pessoas de direita", diz Leonardo António, que falou ao telefone com o atual Chefe de Estado a altas horas da madrugada após este ter   revelado   o   sigiloso (des)convite na TVI. Já Paulo Portas   ficou   pelo   contacto inicial. "Obviamente recusou. É muito inteligente."

Ficaram no filme entrevistas a Nuno Capaz, da Comissão para a Dissuasão da Toxicodependência (Moore disse-lhe que "parece drogado") e a três polícias da PSP que no final fizeram uma declaração contra a pena de morte.

Michael Moore ‘E Agora Invadimos o Quê?' filme
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