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Curtir festivais bem mal

Os festivais de Verão têm a música, o calor, a curte e... também alguns problemas. Nestes, seguranças e festivaleiros nem sempre estão na mesma barricada.
13 de Agosto de 2006 às 00:00
Curtir festivais bem mal
Curtir festivais bem mal FOTO: Ilustração de Ricardo Cabral
Não somos bailarinas nem meninos do coro. Repetimos a mesma história todos os festivais e isso é saturante. Por vezes, uma palavra puxa outra e as coisas chegam ao confronto. Sou contra a violência mas, ao longo destes anos, já fui violento”, assume, sereno, Eduardo Ferreira, coordenador de apoio aos recintos de espectáculos, olhar claro, apaziguador, músculos salientes.
“Confronto físico tive uma ou duas vezes. Num Festival da Zambujeira recebemos um alerta de que estavam a partir os chuveiros. Fui lá e não vi nada. Pedi às pessoas para abandonaram o campismo. Um sujeito disse-me que estava a cagar para o que eu estava a dizer. O cansaço já era tanto que lhe dei um estalo”. E ele? “Pediu-me desculpa pela atitude”.
A maioria das pessoas vai a um festival para se divertir. Nem sempre tal se verifica. Durante o Sudoeste 2001 houve uma onda de assaltos – nos três dias foram registados 150 furtos – o que levou a organização a vedar o parque de campismo, proibindo-o a quem não fosse portador de ingresso global. Nas horas de maior fluxo há pessoas que tentam saltar a vedação. A segurança é reforçada, com cerca de 120 profissionais, apoiados pela GNR e pelos bombeiros.
TENTO SER AGRADÁVEL
Eduardo Ferreira evita utilizar o termo “segurança”: “Não gosto dessa palavra. Nós nem somos seguranças nem porteiros. Procuramos ser agradáveis e deixar as pessoas à vontade. É por isso que temos mulheres à entrada. São menos agressivas do que os homens.”
No Sudoeste de 2003 houve uma cena que, para alguns, é sintomática. Eduardo Ferreira puxou, com alguma agressividade, um saco com ‘t-shirts’ que um espanhol vendia. “Isso deriva do excesso de cansaço. Com as más condições que temos, por vezes partimos para o confronto. As pessoas são provocadoras.”
Eduardo Ferreira afirma que já foi agredido “sem fazer mal a ninguém” e que já engoliu “sapos muito grandes”. Curiosamente, das menos de 900 pessoas que foram assistidas na Cruz Vermelha durante o último Festival do Sudoeste, apenas uma minoria foi vítima de excesso de drogas ou álcool, não tendo sido registadas agressões de vulto.
No Paredes de Coura 2004, Eduardo Ferreira recomendou aos seus profissionais que se adaptassem a todas as situações, aconselhando-os a terem um comportamento digno. Também ali, pese embora o facto de, durante o concerto dos Da Weasel, alguns seguranças terem sido hostis para com os jovens que se atiravam para o fosso do palco.
“Certa vez, no campismo, um rapaz adormeceu na tenda com os pés de fora e alguém os atou com uma corrente. Quando acordou, sentiu-se preso e pediu-nos ajuda. Tirámos-lhe a agulheta e ficámos com a bola de recordação”, conta Eduardo Ferreira. “Outra vez, dois adolescentes foram assaltados, tendo-lhes sido roubado tudo, até o telemóvel. A mãe, quando ligou para a filha, ouviu a voz de uma outra pessoa, presumivelmente a do ladrão, que simulou uma violação.” A mãe deslocou-se à Zambujeira e com a ajuda da equipa de Eduardo Ferreira encontrou os filhos.
ACUSADOS DE AGRESSÃO
Natural de Braga, Carlos Teixeira, de 23 anos, é um dos jovens que se diz vitimado por um segurança: “Só porque lhe mandei tirar a mão de cima, partiu logo para a violência. Deu-me um empurrão que me fez cair no chão. Fiquei com tanta raiva que me apeteceu matá-lo. Essa gente, em vez de cuidar para que os festivais sejam lugares seguros, são os primeiros a dar porrada!”
Por juntarem uma multidão, os festivais são locais propícios a excessos. Um jovem franzino, Joãozinho Cabral, sobrinho de um conhecido actor de Lisboa, no Festival do Sudoeste de 2003, acusou um segurança de o ter agredido: “Pedi-lhe para entrar com uma garrafa de plástico com vodka e sumo de laranja e fui logo agarrado, apanhei uma cabeçada no nariz."
Episódios como este não são actos isolados. Todavia, nem sempre os seguranças são culpados de todas as acusações que lhes fazem. “Tenho feito bem a muita gente. Há uns anos, uma menina tomou algo – não vi o quê – agarrou-me na mão e, durante quatro horas, fui obrigado a ficar de mão dada com ela”, conta Eduardo Ferreira.
EXCESSO DE ZELO
No universo dos festivais acontecem “coisas giras e menos giras”, normais num evento que reúne milhares de pessoas. Eduardo Ferreira lembra que ele e a sua equipa são os primeiros a chegar e os últimos a partir. E nem sempre as acusações são merecidas: “Em Vilar de Mouros, em 1996, cedi dinheiro a um rapaz do Porto que tinha gasto tudo e não sabia como voltar a casa. Emprestei-lhe cinco contos e dei-lhe um cartão pensando que nunca mais veria a cor do dinheiro. Dois dias depois recebi uma carta com uma nota igual lá dentro”.
Mas nem todas as histórias têm essa conotação com a ideia de bem. “O menos aliciante são as chatices, o cansaço, os aborrecimentos. Dormir durante 10 dias no chão, dentro de tendas, tomar banho ao ar livre, sem descanso, trabalhar praticamente 24 horas por dia”.
A parte relacionada com o parque de campismo é sempre a mais delicada “devido a estarmos sujeitos a um fogo”. Diogo Duarte, 18 anos, diz que os seguranças sofrem da síndroma do excesso de zelo. “Para entrar no recinto, revistaram-me a mochila e obrigaram-me a voltar para trás para deixar um CD na tenda. Disseram-me que o disco era um objecto cortante e que, por isso, não podia entrar.”
O jovem indigna-se: “Ao contrário deles, não cometo actos de violência. Acho, inclusivamente, que há um culto generalizado de agressividade da parte dos responsáveis pela segurança. Aliás, à entrada, constatei que um deles tinha tatuado no braço o símbolo do Grupo 1143, a claque nazi do Sporting, e uma outra representando uma runa que expressa fé na religião do odinismo que, originalmente, era um símbolo viking. Ou seja, parece-me flagrante que ele fazia parte de um grupo extremista. ” A questão, considera o jovem estudante, é que “essas pessoas têm pouca ou nenhuma formação e não conhecem a política do diálogo”.
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