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“Da aldeia atacada só restou cinza e lama”

Naquele dia 22 de Junho de 1968, a aldeia de Contabane, onde vivíamos, foi atacada durante três longas horas. Nada ficou de pé.
13 de Maio de 2012 às 15:00
A bordo de uma LDG, uma embarcação de transporte de materiais, em Bissau
A bordo de uma LDG, uma embarcação de transporte de materiais, em Bissau FOTO: Direitos reservados

Depois de passar pelos aquartelamentos de Caldas da Rainha, Sacavém, Elvas, Beirolas e Abrantes, embarquei no ‘Niassa' a 1 de Maio de 1968. Desembarquei em Bissau a 6 do mesmo mês. Depois de uma passagem por Bissau e Bula, a companhia (Caçadores 2382) embarcou para a Aldeia Formosa. Passámos por Bolama, subimos o rio Grande de Buba e desembarcámos em Buba, a vila que deu o nome àquele rio.

‘PERIQUITOS' EM COMBATE

A companhia fragmentou-se em três grupos: um seguiu para Chamarra, outro para Contabane e outro ficou em Mampatá. Segui com o comando para Contabane, aldeia próximo da Guiné-Conacri.

Não havia instalações militares e passámos a viver nalgumas tabancas cedidas pela população. Com pouco mais de um mês de Guiné, éramos designados por ‘periquitos' (a alcunha dada aos mais novos). Pouco percebíamos de guerra e muito menos do sarilho em que estávamos metidos. Na companhia só havia dois sargentos militares de carreira e até o comandante, o capitão Araújo, era miliciano.

Em Contabane vivemos um dos piores ataques de toda a comissão. Valeu-nos o sargento Boiça, que teve a iniciativa de mandar abrir valas à volta da aldeia.

De início, a ordem não foi bem aceite, porque a pá e a picareta eram uma contradição com a sombra das mangueiras e os sorrisos das ‘bajudas'. Mas não restaram dúvidas de que aqueles abrigos improvisados salvaram vidas. Cerca das 20 horas de dia 22 de Junho de 1968, no escuro da noite, irrompeu o fogo inimigo, que se prolongou por três longas horas. O ataque foi comandado pelo lendário Nino (João Bernardino Vieira, mais tarde Presidente da República da Guiné-Bissau).

As balas tracejantes cruzavam o céu em todas as direcções e as granadas de morteiro semeavam a destruição. No final do ataque, a aldeia estava em chamas. Quatro militares e três civis ficaram feridos, dois dos quais com gravidade.


Logo que a manhã seguinte começou a clarear, dois helicópteros surgiram no ar. Lá estava a enfermeira pára-quedista Ivone - um anjo vindo do céu, para prestar os primeiros socorros. Perante aquele quadro desolador, a primeira pergunta de Ivone foi "quantos mortos?". Não havia uma tabanca de pé e, a seguir ao ataque, uma trovoada transformou a cinza em lama. A população foi evacuada para a Aldeia Formosa, e a Companhia de Caçadores 2382 viria a fixar-se em Buba até quase ao final da comissão.

Buba era uma pequena vila junto ao rio, de onde partiam os abastecimentos para as unidades da região. Muitos foram os ataques que tivemos de enfrentar. Um deles vitimou o soldado Elídio Fidalgo Rodrigues, que fazia limpeza ao refeitório.

Como furriel mecânico auto, participei nas colunas Buba-Aldeia Formosa, onde as minas e as emboscadas eram certas. Neste trajecto de cerca de 40 km, muitos foram os mortos e feridos. Quem esteve ali guarda memórias terríveis.

A nossa comissão acabou em 1970. Partimos no ‘Niassa' a 3 de Abril e chegámos a Lisboa a 9. Tinha à minha espera a minha mãe, irmão e namorada, que levaram um pano com o meu nome. Ainda o guardo. Diz ‘Traquina, Souto', a minha aldeia natal. No meu livro "Os Tempos de Guerra - De Abrantes à Guiné" é narrada grande parte desta aventura.

PERFIL

Nome: Manuel B. Traquina

Comissão: Guiné-1968/1970

Força: Companhia de Caçadores 2382

Actualidade: Aos 66 anos, está reformado da Função Pública. Vive em Abrantes.

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