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Da criação surge a obra: o piano a dez mãos

Compositores de obras para piano a quatro mãos – como Mozart, Schuman, Rachmaninov, Brahms – dificilmente teriam imaginado cinco pessoas a interpretá-los no mesmo teclado. Impossível! O que Álvaro Barbosa criou é um programa de computador (interface de software) “para que diversas pessoas partilhem conteúdos musicais”.
21 de Outubro de 2007 às 00:00
Mesmo quem nunca aprendeu a ler partituras pode experimentar o PSO (sigla em inglês para Objectos Musicais Sonoros), até ao final de Dezembro, na Casa da Música, Porto. Bem ao estilo do séc. XXI: um piano acústico irá projectar harmoniosamente os sons gerados, em simultâneo, nos cinco terminais informáticos onde o visitante ocupa o lugar... de compositor.
A ideia não compete com os clássicos da música instrumental. Ainda que diferente dos chats de conversação na internet – onde as pessoas falam através da escrita, vídeo e até podem trocar imagens – o PSO permite a várias pessoas criar on-line sons harmoniosos em simultâneo. “A comunicação é estritamente musical. As pessoas não se conhecem fisicamente” – frisa o professor da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, no Porto.
Filho de uma enfermeira e de um militar, Álvaro Barbosa nasceu em 1970, em Luanda, Angola. “Vivi lá até aos seis anos e recordo-me de passar fins-de-semana na ilha de Mussulo, a acampar na praia com os meus pais e a minha irmã (um ano mais nova).” Depois deu-se a fuga para Portugal – sem regresso. A adolescência, passada na Invicta, fez-se acompanhar pelo gosto musical. Por isso, decide aprender guitarra no Conservatório de Aveiro, já que tinha entrado para o curso de Engenharia Electrónica e Telecomunicações, na Universidade da ‘Veneza de Portugal’.
“Ainda não havia cursos superiores de Informática. Mesmo a opção de Telecomunicações era só antenas e radiação. Não havia comunicações móveis” – diz. Durante a vida académica, teve várias bandas de garagem. Mas foram os Basement, criados entre 1989 e 90, que chegaram aos concertos. Editaram dois álbuns em Portugal e, em 2003, ao lançarem o terceiro em Espanha, romperam a formação. Fica a experiência: “A prática de tocar em conjunto é também importante para a vida porque obriga-nos a articular interesses comuns.”
Ainda na primeira metade da década de 90, o estudante universitário começa a dar os primeiros passos na World Wide Web (vulgo www), ao criar um repertório informático sobre música, já que a Universidade de Aveiro estava a desenvolver o portal Sapo. Emprega-se depois como uma espécie de web designer na empresa criadora do ‘Aeiou’.
Álvaro muda-se em definitivo para o Porto, em 1997, pouco antes da Universidade Católica criar a Escola das Artes. Faz parte da equipa instaladora do sistema informático naquele ‘campus’. Convidado para dar aulas no departamento de Som e Imagem, o professor que, entretanto, se formou nos Estados Unidos e Espanha ascendia na ‘arte’ de comunicar através da música.
O projecto que eleva capacidades da internet aplicadas ao domínio da música, agora patente na Casa da Música, parte da sua tese de doutoramento, em Ciências de Computadores e Comunicação Digital, na Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, Espanha.
Álvaro, apaixonado pelo trabalho, foi perdendo muito social e familiarmente – divorciou-se até. Faz música diariamente “como compositor, instrumentista, ou investigador”. E está a escrever uma curta-metragem – ‘O Trovão’ –, em animação. É um workaholic “da categoria dos que têm um interesse compulsivo pelo seu próprio trabalho”.
QUESTIONÁRIO
Um País... Estados Unidos
Uma pessoa... O pai
Um livro... ‘Traço de Giz’ (BD), de Miguelanxo Prado
Uma música... ‘Esbjorn Svensson Trio’ (jazz sueco)
Um lema... “Antes prejudicar--me primeiro a mim do que a outra pessoa”
Um clube... “Agnóstico – é uma lógica que não consigo apreciar muito”
Um prato... Francesinha
Um filme... ‘Death Proof’, de Quentin Tarantino
INÉDITO NA CASA DA MÚSICA
É sugestivo – e alternativo até – que várias pessoas ao mesmo tempo possam comunicar musicalmente sem partilharem o mesmo espaço físico. Sem conversa; sem que se conheçam. E qualquer curioso pode experimentar, caso visite até ao final de Dezembro a Casa da Música, no Porto. Lá, com o sistema PSO (sigla em inglês para Objectos Sonoros Musicais), diversos visitantes controlam colectivamente um piano acústico, utilizando terminais de computador espalhados pelos corredores. Claro, o resultado da ‘harmonia’ criada é audível no foyer principal da Casa da Música. Os interfaces de software instalados nos computadores são parte da tese de doutoramento de Álvaro Barbosa.
ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
Álvaro Barbosa recorda com saudade as viagens que fez pelo deserto do Nevada e Arizona, nos EUA, enquanto esteve a complementar os seus estudos superiores na Universidade da Califórnia.
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