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DA GLÓRIA À PRISÃO EM 43 DIAS

A 28 de Maio de 1926, o general Gomes da Costa era o rosto da revolta que fez cair a I República. Mas o homem que foi chefe de Governo e presidente da República acabou preso. Raul Brandão acusou-o de ter ‘cabeça de galinha’...
25 de Maio de 2003 às 00:00
Manuel de Oliveira Gomes da Costa nasceu em Lisboa, a 14 de Janeiro de 1863, filho de um militar de baixa patente, de modestas origens camponesas. Fez por isso suas as palavras de um marechal de Napoleão: "O antepassado sou eu!". Estudou no Colégio Militar, assentou praça como voluntário aos 17 anos e ingressou aos 21 na Escola do Exército. A partir dos 30 anos, desempenhará diversas missões nas parcelas ultramarinas do Império, primeiro na Índia – onde foi ferido em combate –, a seguir em Moçambique, onde se destacou nas campanhas de pacificação, sendo louvado por Mouzinho de Albuquerque.
Teve a carreira do típico militar colonial, ocupando sucessivos cargos nas colónias africanas. Como tantos outros dos seus camaradas de armas, não tinha qualquer simpatia pela República, implantada em 1910, e disso não fazia segredo. Comentava que se fosse ele a comandar as forças monárquicas, outro teria sido o desfecho do 5 de Outubro. A frontalidade – ou imprudência – de afirmações deste género era um traço do seu temperamento, que haveria de lhe causar dissabores e, mesmo, duas curtas passagens pela prisão.
Em 1915 Gomes da Costa regressa à metrópole para comandar a 1ª Divisão do Corpo Expedicionário Português, destinado à frente de combate na Flandres, durante a I Guerra Mundial. Na guerra de trincheiras evidencia méritos militares e qualidades de chefia que lhe valem as estrelas de general e o cobrem de prestígio. Após a guerra inicia, em Lisboa, uma participação política errática, que o leva a colaborar com partidos de orientação política diversa, acabando por integrar a direcção da conservadora ‘Cruzada Nun’Álvares’. O general tem, então, uma vida financeira atribulada, marcada por um endividamento constante. Gorada a tentativa de se fazer eleger deputado pelo Partido Reformista, envolve-se em conspirações e é enviado para o Oriente, de 1922 a 1924, como inspector militar. Era a forma de o Governo o compensar e, ao mesmo tempo, afastar fisicamente.
NUM DIA PRESIDENTE, NO OUTRO EXILADO
Em 1926, com a conspiração contra o governo republicano já organizada, Gomes da Costa é chamado para substituir o chefe designado, general Alves Roçadas, falecido subitamente. É então conduzido de automóvel até Braga, onde inicia, a 28 de Maio, o levantamento militar que, em poucos dias, não só derrubará o Governo como porá fim à experiência liberal portuguesa, iniciada mais de um século antes. Nesse mesmo dia, como o Governo não cai de imediato, Gomes da Costa chega a telegrafar para Lisboa, anunciando a sua rendição.
Mas a revolução estava em marcha e, em Lisboa, o seu camarada de conspiração, Mendes Cabeçadas, recebe do Presidente Bernardino Machado os poderes de chefe do Governo e do Estado.
Gomes da Costa decide prosseguir a marcha até Lisboa, onde, a 6 de Junho, desfila triunfalmente pela Avenida da Liberdade, à frente de 13 mil soldados. As unidades fiéis a Cabeçadas são desmobilizadas, enquanto as do velho general não arrancam pé de Sacavém.
O confronto entre os dois homens – e as tendências políticas que representam – dá-se quando, a 14 de Junho, é apresentado um projecto presidencialista autoritário, inaceitável para o republicano Cabeçadas. Três dias depois, por carta, Gomes da Costa exige-lhe que se demita.
Chefe do Governo e Presidente da República, o antigo herói da Flandres é agora, aparentemente, o homem forte do País mas, nos bastidores, o poder é disputado entre o bloco conservador – no seio do qual se irá destacar Carmona – e os extremistas de direita, cujo rosto visível era o comandante Filomeno da Câmara, ministro das Finanças por força da saída de Salazar. Apanhado entre estes dois fogos políticos, cujo alcance é incapaz de compreender, o velho general que, na opinião de Raul Brandão, "tinha cabeça de galinha e era sempre da opinião da última pessoa com quem falava", não resiste à lisonja de uns e à pressão de outros. Entre piadas de caserna e declarações contraditórias, o seu poder esgota-se nas mesmas três semanas do seu antecessor: a 6 de Julho a maioria dos ministros estava demitida ou demissionária, a 8 os principais chefes militares exigem-lhe que abandone a chefia do Governo, permanecendo como Presidente, mas sem poderes. Perante a sua recusa, na madrugada do dia 9 é demitido e colocado sob prisão. Dois dias depois Carmona ascende à chefia do Governo e Gomes da Costa embarca, com a família, para o exílio nos Açores, donde só regressará no final do ano seguinte. Ainda no exílio recebe, das mãos daqueles que o afastaram, o título de marechal, restaurado expressamente para si. Depois do regresso à metrópole ainda representará o Governo numa cerimónia fúnebre em Roma, vindo a morrer em 1929, desiludido e tão pobre que, para o seu enterro, foi necessário tirar do 'prego' as medalhas e a farda.
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