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Da privação do sono

“Um homem habitua-se a tudo – até ao facto de nunca nos irmos habituar a certas coisas, como a falta de sono”
22 de Agosto de 2010 às 00:00
Da privação do sono

Esta semana uma amiga muito querida, como só as autênticas o são, confidenciou-me que sonhou comigo num breve momento em que adormeceu numa noite de insónias. Fiquei sensibilizado, mesmo não o demonstrando efusivamente, porque sei o quão preciosa tal ocasião pode ser. Hoje posso dizer que compreendo – empiricamente – as implicações da privação do sono.

A ausência de capacidade para realizar as mais elementares tarefas, a falta de raciocínio, o desespero. Adeus inteligência e sensibilidade: fico burro e bruto quando não consigo dormir umas boas horas seguidas, e já há algumas semanas que não me é permitido fazê-lo. Faz-me perfeito sentido que a tortura do sono seja mais eficiente do que outra qualquer – se eu fosse obrigado a ficar dias inteiros sem dormir, diria tudo aquilo que quem me torturasse quisesse ouvir: em português, inglês e até me desenrascaria em espanhol e francês, só para poder descansar.

Na verdade, nessas horas funestas em que preciso desesperadamente de dormir mas não podendo fechar a pestana por mais do que um minuto e tendo que estar acordado e minimamente apto, já considerei a perpetração de actos tão ignominiosos e desumanos que envergonhariam até um alcoólico ou toxicodependente no auge do síndrome de abstinência, altura em que são capazes de vender a mãe por uma garrafa ou um chuto. Tudo isto com um sorriso nos lábios, no meio de um torpor alucinogénio.

Ainda assim, porventura por não ceder a maquinações diabólicas de um cérebro que funciona a meio gás, mais uma vez comprovo a espantosa capacidade de adaptação e sobrevivência que nós humanos detemos. Um homem habitua-se a tudo – até ao facto de nunca nos irmos habituar a certas coisas, como a falta de sono.

Parece e poderá ser de facto confuso, mas toda e qualquer dúvida ou perturbação são dissipadas, toda a bruteza é anulada e toda a sensibilidade reposta no preciso momento em que somos brindados com a visão de uma pequenita princesa que finalmente cerra os seus olhos azuis sendo, por uns minutos, a imagem de um descanso perfeito e santo.

Aí, bate tudo fundo e certeiramente no coração, e também nós descansamos o peso acumulado pelo corpo e cabeça – pelo menos durante umas duas horas. Bom domingo, minha gente.

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