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Correio da Manhã

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Dançar como gente grande

Não se intimidam diante dos adultos. Sentem-se tão donos do salão de baile como os maiores. São alunos de danças de salão da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense e somam vitórias nos campeonatos da modalidade disso.
15 de Outubro de 2006 às 00:00
Trocou de sapatos depois dos exercícios de aquecimento. Em vez dos ténis calça agora umas sandálias de cor bege, salto pequeno e fivela apertada junto ao tornozelo. Rita veste uma saia branca com folhos, que lhe deixa os joelhos de menina à mostra. Soam as primeiras notas de um cha-cha-cha e ela imprime movimento às ondas da saia. Primeiro é só um meneio de ancas, mas logo parte em rodopio nos braços do Hugo. Ele tem nove anos. Ela sete. Dançam como gente grande e entre os maiores.
O salão de baile é um recinto assoalhado com tabela de basquete. Rita e Hugo – ela de branco, ele com calças pretas e camisola sem mangas da mesma cor – volteiam, separam-se e reencontram-se. Nem antes, nem depois, mas no momento exacto, em simultâneo com os outros pares, batem com os tacões dos sapatos na madeira e ouve-se “cha-cha-cha”. Os sacos de boxe oscilam ou então é uma impressão do olhar, que se deixou conduzir pelo ouvido. Lá fora caiu a noite e a chuva baila também sobre o telhado da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense.
Bruno Tomás, professor de danças de salão, é a elegância física e a delicadeza personalizadas, mas não está ali, batendo as palmas e marcando o compasso, para ser indulgente nem com os graúdos nem com os miúdos. “Rita, Hugo, cabeça no sítio, concentração, espírito interior!” exorta quando o olhar da menina se distrai, passa por cima do ombro do par e voga pelo salão.
Talvez não lhes diga a eles, mas à Domingo Bruno confidencia admiração pelos bailarinos de palmo e meio, que, em competição, sempre garantem lugares no pódio. “São disciplinados e fiéis na interpretação do que se lhes diz.” Rita já fixou os olhos azuis nos castanhos do Hugo, que mantém as costas direitas, o peito para fora e a barriga para dentro.
O Hugo não foi sempre assim. Palavra de mãe, Manuela Campos, que ainda recorda o primeiro treino do miúdo na Incrível. “Foi um bocado à balda.” Mas os professores Bruno Tomás e Joana Santos viram para além da irrequietude infantil. “Ele tem ritmo.” O pé puxa-o para as danças latinas, entre as quais elege o cha-cha-cha, ‘filha’ do mambo e da rumba.
DEPOIS DA RUMBA
Depois da rumba, que veio a seguir ao cha-cha-cha, em Almada dança-se o samba. E então o melhor é abrir alas para o Rogério. Tem 12 anos, é magro e usa óculos. Nasceu com lábio leporino e fenda palatina, o que explica a cicatriz. Usa um aparelho nos dentes. Tendo em conta o olhar muitas vezes punitivo das crianças sobre as outras, podia esperar-se que fosse tímido e mesmo fisicamente pouco expansivo.
Nada disso. O Rogério é pura energia e movimento quando dança. Parece que o samba entrou no corpo dele e o comanda a partir de dentro. Fá-lo agora dobrar ligeiramente as pernas, abrir os braços qual Corcovado e abanar freneticamente o tronco debaixo da T-shirt cinzenta. Quem assiste lamenta que não seja a sério – é só um ensaio –, para poder aplaudi-lo até que os braços doam e gritar-lhe “Bravo miúdo!”
Não surpreende o orgulho no olhar de Ana Paula Gonçalves, a mãe do Rogério. Nem o sorriso, que lhe traz alegria ao rosto com marcas de fadiga – ainda há pouco terminou um dia de trabalho. “O Rogério mudou bastante desde que entrou nas danças de salão, há quatro anos. Ele é uma criança com alguns problemas e por isso isolava-se. Agora faz amigos com mais facilidade.”
Quando chegou à classe de competição da Incrível Almadenese não havia par para ele. Durante um ano dançou com quem pôde. Depois chegou a Catarina, uns palmos mais alta sobre as sandálias de salto médio. O Rogério não se intimida. Ergue a mão direita acima do alinhamento do ombro para encostar a palma à omoplata da menina e lá vão os dois, cirandando entre os pares, sem medo de chocar com os maiores.
Os projectos do Rogério passam pela arquitectura, a representação ou a dança. O futuro tem escolha e por isso obrigação de concretizar pelo menos um deles. Se o caminho for a dança, fique a saber-se que o rapaz sabe lidar com os preconceitos masculinos a respeito da actividade, modo elegante de dizer que o Rogério é capaz de responder aos homens para quem ‘dançar é coisa de mulheres’: “Quem gostar pode dançar, quem não gosta não dança.” Tem dito.
CATARINA É O PAR DO ROGÉRIO
Catarina é o par do Rogério, mas foi pela mão do Rafael que chegou à Incrível Almadense. Um dia foi vê-lo dançar e gostou tanto que ficou. O Rafael tem 12 anos e uma admiração infantil por Slavik Kryklyvyy. “É um dos melhores do Mundo”, diz, sobre o bailarino ucraniano radicado nos Estados Unidos. Rafael nunca o viu dançar ao vivo, mas é como se o conhecesse de tanto ter o-bservado a maneira como se movimenta em DVD e cassetes-vídeo.
Por enquanto o admirador de Slavik, aluno do 7.º ano com apetite pela História, é referência apenas para a mãe, Helena Paulino, a quem ensina alguns passos. “Dançamos em casa. Ele tem paciência comigo se me engano.” E ela faz tudo para que ele continue a dançar e a triunfar em sucessivas competições.
Também a Elisa, 11 anos, futura professora de Físico-Química, dá lições à mãe, que faz danças de salão na vertente social, não competitiva. “Ela tem dúvidas sobre passos básicos e eu mostro-lhe como é que se faz.” Mas foram as filhas Elisa e Lígia que seguiram os passos da mãe, há mais tempo praticante, e não ao contrário. “Eu não queria. Foi por causa da minha irmã: ela disse que só vinha se eu viesse também”, conta Lígia, de 17 anos, que começou aos 12.
“Eu gosto de ter bons resultados.” O André – um dos oito bailarinos em ponto pequeno da Incrível Almadense que se tem destacado nos campeonatos e galgado escalões – dispensa faltas modéstias. Mas, tanto como competir, aprecia conviver com os outros. “Somos todos amigos.”
Bruno Tomás levanta a mão direita e por cima dos dedos esticados coloca a palma da esquerda para significar “intervalo!” O Rafael baixa o tronco apoiando os cotovelos nas coxas. O Hugo está vermelho como um tomate. A Rita deixa-se cair de costas no chão. A Catarina senta-se, segura os tornozelos da mais pequena e levanta-lhe as pernas. O Rogério ajuda o André a alongar os músculos das costas, puxando-lhe os braços para a frente. A Elisa observa-os, ofegante, enquanto a Lígia prefere a companhia dos adultos.
NÃO É BRINCADEIRA. É TRABALHO
Não é brincadeira. É trabalho físico exigente. “No início o par mais novo não aguentava dez minutos de aula”, conta o professor, adiantando que a maior parte dos bailarinos de competição tem treinos diários. Como esta é uma disciplina técnica que exige maturidade corporal e capacidade de concentração, Bruno entende que não é recomendável em idades muito precoces.
Mesmo em período de descanso, o que distingue estas crianças bailarinas das outras é a postura. Mantêm as costas direitas, os ombros para trás. Não adoptaram a atitude de quem passa horas seguidas a ver televisão ou a jogar na consola. Mas há mais diferenças, uma das quais também evidente: o à-vontade entre raparigas e rapazes. Isto em idades – as da Rita e do Hugo – em que uns e outras não parecem suportar-se ou quando costumam envergonhar-se, caso dos pré-adolescentes.
Bruno Tomás também reparou e consegue explicar a diferença. “Este é o único desporto em que o homem e a mulher estão juntos. Há uma abordagem do outro sexo. Há interacção física e emocional.” São precisos dois para dançar e o outro é, em princípio, de sexo diferente. É preciso conhecê-lo.
O intervalo acabou. Quem já está em pé estende a mão aos que continuam sentados. O grupo das crianças permanece unido. Os adultos comportam-se com elas de igual para igual. Não há sinal de condescendência. Elas respondem-lhes da mesma maneira: não se desviam para que passem. “Não se preocupem com os outros pares. Dancem como se o salão fosse apenas vosso”, diz-lhes o professor Bruno.
Não é o professor que se ouve depois. É uma voz gravada que anuncia “the naughty but nice cha-cha-cha”, em tradução livre, “um cha-cha-cha malandro mas agradável”. Rita e Hugo já estão a postos para a simulação do campeonato de danças de salão. Não há paragens. No encalço do cha-cha-cha vem o samba. Depois a rumba cubana, que abre caminho ao paso doble, capaz de transformar o Rogério num toureiro. Depois o jive. Lá fora continua também a dança da chuva.
RAZÕES DE ORGULHO PARA OS PAIS
PEQUENOS BAILARINOS ACUMULAM DISTINÇÕES
Os pares de competição mostram o que valem no próximo dia 25 de Novembro, pelas 21h00, no salão de festas da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, durante a Gala de Danças de Salão. Rita e Hugo lá estarão – tal como as outras seis crianças e adolescentes – nos seus trajes de festa: casacos com asas de grilo e laços para os rapazes; vestidos justos com plumas e brilhantes para as meninas.
Os pais fazem todos os sacrifícios por eles. “Nós é que compramos tudo. Um par de sapatos custa 90 euros e um vestido cerca de 200.”Não se trata apenas de dinheiro. Há esforço de outro tipo. Quando as crianças participam em competições longe de Lisboa, os pais levantam-se, e levantam-nas, de madrugada e põem-se a caminho, cada um no seu automóvel ou uns à boleia dos outros. Regressam no mesmo dia à noite. “Tivemos uma vez o apoio da Câmara Municipal de Almada, que nos emprestou uma carrinha”, conta Helena Paulino, mãe do Rafael.
É quase certo que os miúdos vão regressar com mais uma taça ou uma medalha. Distinguem-se onde quer que se apresentem. Os olhos dos pais brilham tanto que os petizes podiam ver-se lá como num espelho. Belos. A bailar.
TRABALHO A SÉRIO
HUGO QUER APRENDER A DANÇAR BEM E A FAZER BODYBOARD
“Ó Bruno” – chama Hugo Campos – “e quem não consegue?”O petiz, deitado de costas, não consegue, durante o aquecimento, esticar completamente a perna direita em direcção ao tecto, enquanto a esquerda permanece colada ao chão. “Quem não consegue, esforça-se”, responde-lhe o professor Bruno Tomás, dispondo-se a ajudá-lo a alongar os músculos da zona posterior da perna em riste. O rosto corado denuncia o esforço, mas o Hugo não desiste. Tem nove anos, leva a sério as danças de salão e sabe que antes de começar é preciso aquecer o corpo. “Quero aprender a dançar bem.” E depois? “Depois vou aprender a fazer bodyboard.”
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