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Dão-lhe dinheiro e ele compra a roupa

Uma mentalidade fechada é osso duro de vestir. Mais do que o “corpo baixo e a puxar para o redondinho, tão típico da mulher portuguesa”. E que uma carteira pouco abonada. Felizmente, a tal da mentalidade é fraca cliente. Rara, sobretudo. António Gracias agradece.
18 de Novembro de 2007 às 00:00
Nas consultas que dá, não há filas de espera. As reservas são cumpridas com rigor, até porque o tempo para cada ‘paciente’ pode chegar às três horas - é o mais comum.
O ambiente nada tem de éter no ar e batas brancas apressadas - o ‘consultório’ tem antes pinta de atelier e é frequentado por quem quer conselhos no que à arte de (bem) vestir diz respeito.
António, 34 anos, é um ‘Personal Shopper’, na designação em inglês. Ajuda as pessoas a perceber as peças de roupa mais adequadas para o seu estilo, silhueta, tom de pele e modo de estar na vida. Primeiro a perceber, depois a comprar. Por outras palavras, é pago para gerir os euros que os clientes estão dispostos a gastar para renovar o guarda-roupa (‘closet-clearing’) ou apenas a escolher a peça certa para determinada situação.
Gracias diz, numa pronúncia algarvia com muitos anos de capital, que é fácil gerir o dinheiro dos outros. Depois da consulta de estilo, e de conquistada a confiança, o caminho é sempre em frente e chama-se lojas.
Pensadas a dedo pelo Personal Shopper, a escolha depende dos tais euros que o cliente quer gastar. “Tanto vou à Zara e à H & M como vou à Fashion Clinic”, explica o nosso profissional das compras. Também depende das peças que fazem falta no guarda-roupa de cada um. Mas se está a imaginar indecisões ou vozes alteradas no reflexo das montras, a decidir em que loja entrar, esqueça.
Tudo isso já ficou decidido durante a primeira consulta no atelier. Ou durante a visita à casa do cliente, numa espécie de médico da moda ao domicílio, em que o profissional faz uma prospecção a tudo quanto está no armário: avalia as peças de roupa e planeia a reestruturação - o que vale a pena aproveitar, o que de todo não interessa e aquilo que não existe mas faz mesmo falta. Esta é a primeira fase. E aqui, atendimento personalizado, são palavras de ordem (de compra). Futura compra.
ENTRE OS 23 E OS 55 ANOS
São sobretudo as mulheres, entre os 23 e os 55 anos, quem mais procura António Gracias. Como consta da cartilha, chegam “muito” envergonhadas na primeira vez.
Pedem sinceridade em relação ao que trazem vestido. A maioria das vezes querem uma mudança radical “Quem me procura tem que vir de mente aberta, para aceitar as críticas e as sugestões, isso é o mais importante”.
Importante é, também, que na carteira tenham, no mínimo, 120 euros - se optarem apenas pela consulta de estilo, e no máximo 600, se preferirem o “pacote” completo. O recheio do pacote inclui a consulta - aqui é preenchido um questionário em jeito de confessionário de moda: medidas, cor dos olhos, tom de pele, tipo de silhueta; e onde dados como a profissão, estilo de vida e idade, são de especial relevância para o profissional conseguir captar “a essência” de cada um.
“Quanto mais informação melhor”, garante António, que a partir daí elabora um ‘style book’ (guia de estilo) para o cliente, onde inclui a paleta de cores que a pessoa que o procura pode (e deve) usar, as silhuetas que a favorecem e ainda propostas de coordenados para cada situação (profissional, lazer, evento importante). A
té aqui ainda “só” foram gastos 120-150 euros. Depois, fica a faltar o aconselhamento no terreno - a sessão de compras que o personal shopper orienta. Chega-se aos 600 e ainda falta o principal... o dinheiro para a roupa.
A quantia mais elevada que já pediram a António para ‘transformar’ em peças de roupa foram 4000 euros. Uma formatação total.
“Geralmente quando as pessoas marcam a consulta dizem logo quanto estão a pensar gastar”, explica, adiantando que há, no entanto, flexibilidade. “Tenho a preocupação de não ultrapassar o ‘budget’ que o cliente estipulou, mas às vezes é a própria pessoa que pede para ultrapassar o valor” conta o personal shopper que se formou em Turismo antes de ceder ao “bichinho da moda” que o picava desde criança.
Mas com bem menos, Gracias já fez a festa. Bem, bem menos também as peças para comprar: um cinto e umas luvas - na mão, 50 euros.
António explica que o seu trabalho é ajudar as pessoas a “deixar a farda”.
A encontrar uma nova pele? “Não, a descobrir a verdadeira pele”, diz convicto. “Aqui o importante é que cada um descubra o seu estilo, pessoal e intransmissível”. Tem resultado, garante. Tanto, que os clientes voltam a cada mudança de estação. E antes disso, já comemoraram a “nova pele” num almoço onde o personal shopper foi o anfitrião.
500 EUROS NA MÃO
Apresentámos a António Gracias 500 euros virtuais e pedimos-lhe uma remodelação de guarda-roupa. O especialista não recuou nem disse ser impossível o feito. Essencial, disse-nos, era começar pelos ‘básicos’ - as peças que não podem mesmo faltar.
O Personal Shopper aconselhou “uma camisa branca, uma camisa preta, um bom par de jeans de bom corte, um sobretudo de Inverno e um par de calças mais clássicas”, a que acrescentou “duas ou três blusinhas e tops”.
Isto é a base de um guarda-roupa, explicou, adiantando que para comprar estas peças por 500 euros nos levaria à Zara, Lanidor ou Corte Inglés. “Acima de tudo as peças têm de ser de boa qualidade, o que não significa que sejam de marca, até porque nem tudo o que é griffe é bonito”, admitiu António Gracias que além de Personal Shopper é criador de moda - desenhou as linhas ‘slow_couture’, ‘fast_couture’ e ‘ornament_me’ e faz guarda-roupa para publicidade na imprensa e televisão.
MANEQUIM EM DESTAQUE
O vestido verde é da autoria de António Gracias e foi usado pela cantora Marta Plantier no Festival da Canção deste ano (2007).
No manequim mais recuado está uma outra criação de Gracias, coordenado que foi usado pela vocalista dos MESA, Mónica Ferraz, na fotografia de capa do último álbum da banda, ‘Vitamina’. Por diversas vezes foi responsável pelo styiling da mesma banda, em concertos e videoclips. Faz também o guarda roupa de uma cantora francesa.
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