De ascensorista de hotel chegou a milionário

Conheceu o conde de Caria na Pousada do Infante, em Sagres. O aristocrata e homem de negócios abriu-lhe as portas da capital. Sousa Cintra aproveitou todas as oportunidades.
10.06.07
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De ascensorista de hotel chegou a milionário
Foto Jorge Paula
Quem o conheceu menino e moço na Raposeira, Algarve, nunca imaginou que ele iria chegar tão longe. É certo que o Zé, como era conhecido, muito novo demonstrou espírito de fura-vidas: ainda andava na escola, metia-se pelos campos de balde enfiado no braço a apanhar caracóis – que vendia de porta em porta. Mas ninguém apostava em como aos 40 anos o filho do casal Cintra, que vivia da pequena agricultura, já seria milionário.
Não enriqueceu a apanhar caracóis. Teve a sorte de trabalhar nas férias escolares na pousada Infante de Sagres – e de ter conhecido D. Manuel, conde de Caria, homem de negócios com interesses nas águas engarrafadas e na hotelaria, que ali costumava passar férias sozinho.
D. Manuel, reconhecido pela simpatia com que era tratado, despediu-se no final do Verão deixando a Sousa Cintra um cartão com a morada e o número de telefone: se o rapaz precisasse de alguma coisa, não hesitasse em procurá-lo em Lisboa. O abençoado cartão abriu a Cintra as portas para uma vida farta.
Teria uns 14 anos quando cismou que havia de ir à capital bater à porta de D. Manuel para ele lhe arranjar emprego conveniente. O pai levou-o à estação de Lagos – e um primo, residente na Margem Sul, foi avisado para o esperar no Barreiro à saída do comboio. Era um sábado. Cintra dormiu nessa noite em casa do primo, que o levou no outro dia, pela tardinha, à morada indicada no cartão de visita que D. Manuel lhe deixara.
O aristocrata achou graça à desenvoltura do rapaz – e arranjou-lhe um emprego. Cintra não deu por mal empregada a maçadora viagem na velha automotora com bancos de madeira. Foi trabalhar como ascensorista no Hotel Tivoli, na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Sousa Cintra, de farda com botões dourados, barrete e luvas brancas, nunca mais parou de subir...
Quando chegou à idade de cumprir o serviço militar, já travara conhecimento com muita gente de posição. Saiu-lhe em sortes a Marinha de Guerra – e, por influência ou não dos amigos de D. Manuel, foi parar à especialidade de transmissões, mesmo à medida para ser colocado na Estação Radio-naval de Sagres, a escassa meia dúzia de quilómetros da sua Raposeira natal. Enamorou-se de uma professora de Lagos – e do casamento, cumprido o tempo de tropa, nasceu o filho Miguel. O enlace, porém, durou pouco tempo.
Antes do 25 de Abril de 1974, Sousa Cintra torna-se proprietário da companhia das águas do conde de Caria. Mas onde ele começou a ganhar dinheiro que se visse foi no imobiliário: primeiro, como intermediário entre pequenos proprietários na Costa Vicentina e grandes investidores. A revolução arrefeceu o negócio. Mas Sousa Cintra soube adaptar-se aos novos tempos. Milionários donos de terrenos, agora refugiados no Brasil, procuravam desfazer-se de tudo – por qualquer preço. Ele comprava para vender mais tarde.
A par dos negócios imobiliários, alargou o império das águas – e chega às Pedras Salgadas, cuja empresa tinha terrenos e hotéis, que vendeu por 12 milhões de contos, nos finais da década de 90, ao grupo Jerónimo Martins.
Em 1989, Cintra já é uma das maiores fortunas de Portugal. Tem dinheiro – mas o País ainda não o conhece. Atira-se, aos 46 anos, ao cadeirão da presidência do Sporting e, finalmente, torna-se uma figura com grande projecção pública.
UM NEGÓCIO QUE LHE CORREU MAL
Embalado pelo êxito da cerveja Cintra no Brasil, onde a par da fábrica abriu duas cervejarias gigantes no Rio de Janeiro, o empresário abalançou-se numa cervejeira em Portugal. Investiu 75 milhões de euros numa fábrica, à beira da auto-estrada do Norte, na zona de Santarém. Mas o negócio não teve por cá a mesma sorte que conheceu no Brasil: a cervejeira portuguesa nunca escoou a capacidade de produção e, a trabalhar a meio-gás, afogou-se em dívidas. Os 150 trabalhadores temeram o pior. Mas Sousa Cintra vendeu em fábrica, no ano passado, à Iberpartners – de que são accionistas Jorge Armindo, Vasco Pereira Coutinho, Esmeralda Dourado, António Bernardo, a família Amorim e Estela Barbot.

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