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De onde vêm os cabelos da moda

Só este mês foram assaltados dois locais de comércio de cabelo. A Domingo foi espreitar a origem das extensões, que chegam a custar 900 euros.
25 de Outubro de 2009 às 00:00
Indira e Isa, da Hair 4 Ever. A loja tem um ano
Indira e Isa, da Hair 4 Ever. A loja tem um ano FOTO: Natália Ferraz

O valor da mercadoria percebe-se na porta trancada por dentro, a chave a cumprir o figurino, mas mede-se ao grama e ao centímetro. A prateleira das lojas que comercializam extensões de cabelo é uma espécie de purgatório – um estádio de descanso entre uma longa viagem de avião e uma cabeça ansiosa por mais volume e comprimento – mas antes paradas, em modo de espera, do que em mãos pouco especializadas na poda. O alvo é lucrativo – no último mês, um armazém de uma loja com poiso na internet e um estabelecimento de venda de cabelo foram assaltados – e por isso todas as trancas são bem-vindas para espantar cabeças com segundas intenções.

Na Oficina dos Cabelos Hair 4 Ever o sistema de porta fechada funciona, mesmo em pleno entra e sai de clientes. Todos os cuidados são poucos para proteger um bem que as lojas europeias vão buscar à Índia. Porque o cabelo, mesmo quando virgem (nunca pintado) tem um passado, embora faça por esquecê-lo de cada vez que embarca, encaixotado, rumo a destinos mais desenvolvidos do que o berço onde cresceu. Mas o negócio começa muito antes da viagem – tem início nos templos como ritual de agradecimento, promessas cumpridas ou esperança de que em breve se cumpram. E se nos primórdios encaminhavam os cabelos cortados para serem usados no fabrico de almofadas e filtros de óleo para automóveis, agora usam-nos para pagar aos 400 empregados, financiar hospitais e escolas. O cabelo rende ao templo de Tirupati, no Sul da Índia, um dos maiores centros de peregrinação, 25 milhões de euros por ano.

A marca londrina Great Lengths, considerada o ‘Bentley das extensões’, foi a primeira a aperceber-se das potencialidades do segmento, no início dos anos 90, e a expandi-lo para o mundo. A fábrica da marca, onde os cabelos são posteriormente tratados, localiza-se em Nepi, perto de Roma, e o processo tem honras demoradas. 'Como não descoloramos o cabelo, despigmentamos, para não destruir as escamas. É mergulhado em tanques para perder o pigmento durante 3 a 6 semanas, dependendo da cor que se pretende, e só depois é repigmentado, em tinas', explica Arminda Vaz, da Leocris, representante da marca em Portugal.

Quando chega a terras lusas, o cabelo já vem devidamente tratado, colorido e pronto a usar por quem estiver disposto a pagar entre 600 e 900 euros por um tamanho e volume ‘standard’. 'Em Portugal as mulheres põem extensões em momentos marcantes da sua vida: como os casamentos, para celebrar, ou os divórcios, para levantar a auto-estima', sublinha a representante da marca que só vende a profissionais do sector. 'E só aos que são certificados por nós. Todos os fios do cabelo humano que comercializamos são importantes e por isso não corremos riscos.'

A Hair 4 Ever vende a todas as cabeças que entrarem porta adentro. Clientes ou cabeleireiros. Desde que esperem que seja aberta depois de rodada a chave de dentro para fora. Fios de cabelo espalham-se no chão, resultado do trabalho manual a que Isa, uma africana que optou pelas extensões para esconder a carapinha, se dedica nesta manhã. O avental protege a roupa das comichões que o cabelo provoca em contacto com o corpo. Numa pequena despensa encavalitam-se mechas de cabelo em bruto, até grisalho – vindo da Índia – de tamanhos e jeitos diferentes. Essas reclamam uma lavagem urgente que só acontecerá no andar de cima, na pequena fábrica onde se costura, penteia, corta, separa.

'Lavamos de cima para baixo, como se estivéssemos a dar banho a uma criança, cheias de cuidados'. Os preços que saltam das vitrinas podem fazer arrepiar mas Indira e Isa garantem que 'as clientes que querem, compram na mesma'. Agora a moda dita que seja em cachos. 'Como o da Taís Araújo, da novela da noite.'

Ter um penteado igual ao da heroína da ficção – já pronto – pode custar 180 euros por cada 50 gramas (para encher uma cabeça podem ser precisos entre 150 e 250). Por isso é que Marinela Ribeiro, da Belos Cabelos, trancou estantes e prateleiras. A loja de que é proprietária foi assaltada há pouco mais de uma semana, no Centro Comercial Imaviz, em Lisboa, embora os 5000 euros em cabelo já tenham sido devolvidos. Mas todo o cuidado passou a ser pouco para esta empresária que compra a fornecedores na Índia, Bélgica, Alemanha, Brasil. O indiano é, no entanto, aquele que mais enche o expositor. 'É o cabelo que melhor se adequa às portuguesas, por causa da estrutura, se não contarmos com o europeu. Mas as mulheres na Europa não têm o hábito de vender cabelo.' Só de comprar, ao que parece. Felizmente não pagam a viagem. 

EXTENSÕES PARA TODOS OS GOSTOS E BOLSOS

Há várias formas de colocar extensões de cabelo. As extensões de queratina, uma proteína igual à que encontramos no cabelo, são as preferidas pelos europeus. Mas há procedimentos diferentes: a tissagem (extensões são ‘cosidas’ ao cabelo do cliente); extensões com micro-cilindros; extensões trançadas e extensões com tic tacs (espécie de gancho, dá para retirar como uma peruca). O cabelo preparado com queratina é mais caro que o costurado.

CABELO MOVE 800 MILHÕES EUROS/ANO

Depois de doado ao templo pelas mulheres indianas – que o entrançam para que não embarace – o cabelo é vendido em leilões. A empresa de Mayoor Balsara, que compra para a Great Lengths, será das poucas autorizadas a comprar directamente. A companhia desinfecta diariamente cerca de 500 quilos de cabelo. O mercado do cabelo nos templos indianos – os espaços sagrados são mais de cinco mil na Índia – representa mais de 800 milhões de euros por ano e trabalha com, aproximadamente, 500 toneladas de matéria-prima.

NOTAS

ÍNDIA

Cabelo indiano é o mais comercializado porque tem estrutura molecular semelhante ao europeu. O chinês é mais forte e pesado.

FAMA

Por cá, Marta Leite Castro e Diana Chaves já usaram extensões. Lá fora, Victoria Beckham e Katie Holmes são adeptas do mesmo.

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