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De volta aos tempos do rolo

A lomografia virou moda. Membros da ‘tribo’, fotografados com a sua lomo, explicam porquê
7 de Outubro de 2012 às 15:00
Adelina Martins, 34 anos
Adelina Martins, 34 anos FOTO: Pedro Catarino

"Deixei de ser fumador para me tornar lomógrafo. Em vez de gastar quatro euros num maço de tabaco, compro um rolo e fico com 36 fotografias em vez de 20 cigarros." Quem o diz é o "viciado" Ricardo Dias, 33 anos, artista plástico, que também dá formação em workshops na Embaixada da Lomografia do Porto.

Este "freelancer a tempo inteiro" é dos que perfilham esta nova tendência urbana, que fez surgir uma comunidade unida pelo culto da velhinha fotografia analógica: os lomógrafos. A Embaixada Lomográfica de Portugal tem 70 mil inscritos, de todas as idades, e os seguidores nas redes sociais rondam os 20 mil. Pessoas que contrariam os sinais do tempo, porque as lomos, além do ar retro, ainda precisam de rolo, e este precisa depois da revelação, à moda antiga.

E, tal como nos bons velhos tempos, não se sabe o que se fotografou, mas o efeito surpresa é "incomparável". Não há regras técnicas e só a imaginação é o limite. O erro é o motor criativo.

Ricardo confessa que ainda tem rolos muito antigos por revelar porque isso faz parte da magia: "Nunca sabemos o que lá está. É um passado que está registado, mas que só é conhecido no futuro."

As máquinas que os lomógrafos usam chamam-se lomos. São leves e fáceis de manejar, tiram fotografias com ou sem efeitos, mas sempre com textura e tonalidade especiais.

O culto por este objecto começou por ser determinante numa viagem à Letónia que Ricardo Dias fez no âmbito do programa Erasmus: "Lá há muitas máquinas analógicas e acabei por comprar duas."

O fascínio pela lomografia em particular veio em 2003: "Tem um lado de fácil acesso para quem não percebe muito de fotografia. As máquinas são pequenas, não têm um uso complicado, apesar de serem muito diferentes das digitais. É mais académica e agrada mais ao nosso olhar do que a fotografia digital. É quase como na música ouvir um CD ou um vinil", diz.


A CRIATIVIDADE DO ERRO

Na prática, a lomografia é também "diferente da restante fotografia analógica, não apenas devido às características inigualáveis das câmaras, mas também porque na experimentação se desenvolvem princípios de desconstrução. Aspectos que na fotografia tradicional são considerados erros, na lomografia são abraçados enquanto prática criativa", explica Susana Gonçalves, responsável pelos eventos da Embaixada Lomográfica do Porto.

Há aproximadamente 20 modelos e, dentro desses, edições limitadas em que só varia o design e a cor. Os preços vão dos 29 aos 499 euros, abarcando desde câmaras multilentes sequenciais, que captam o movimento, a câmaras de médio formato com resultados de ar retro, até outras com lente grande angular, fisheye e panorâmicas com ou sem perfuração na película. Podem ser compradas nas embaixadas (ou nos seus respectivos sites), que são um misto de loja e colectividade.

Fã que é mesmo fã tem sempre várias. Como Adelina Martins, que já contabiliza nove câmaras, entre as quais as míticas Diana e Holga: "E já tive outras duas, que vendi, porque estava interessada em adquirir modelos mais recentes", afirma. Mas a lomografia está longe de ser uma colecção de gadgets. "A ideia é explorar todas as possibilidades de cada máquina, todos os efeitos dos acessórios. Neste momento, por exemplo, estou a explorar o splitzer."

Adelina, 34 anos, licenciada em Antropologia mas empregada num call-center, já era apaixonada por fotografia mas descobriu este universo por acaso. "Acidentalmente, veio parar-me às mãos um postal sobre um concurso lomográfico. Resolvi participar. Atraiu--me o facto de não ter regras, de ser uma expressão de total liberdade. Como a embaixada empresta máquinas, requisitei uma Pop9 e ganhei o 2º prémio." Desde então, nunca mais parou. Ao contrário do que se possa pensar, "é fácil encontrar estúdios que façam revelação".

O preço dos rolos varia entre os 3 e os 6 euros e a revelação fica entre 9 e 12 euros. Depois há vários acessórios e uma série de objectos que se adequam ao estilo de vida lomográfico: porta--chaves, álbuns, guias de viagem e malas para transporte.

Mas só alguns a usam para fins profissionais, como Maria Isaura, 29 anos, designer gráfica freelancer, do Porto. Iniciou-se na arte de lomografar há cerca de dois anos por várias razões: "A diferença das fotografias, das máquinas, dos rolos… enfim, como uma forma de complementar a minha formação e uma ferramenta de trabalho", explica Maria Isaura. Dona de uma LC-A e de uma Strocket Rocket, que é uma máquina panorâmica, Maria desatou depois a fotografar o quotidiano: "Não há um propósito para a fotografia. Fotografamos as coisas que fazem parte da nossa vida."


Miguel Saavedra, 39 anos, é fotógrafo profissional há 20 e lecciona a miúdos e graúdos em workshops, em Lisboa. "Sou lomógrafo a tempo inteiro. Trago sempre a minha LC-A. É uma máquina de culto", diz.

Com ela, recuperou algo que já tinha perdido: "Ir ao laboratório, esperar pela revelação – sem a rapidez de saber como ficaram as fotos – e só depois ver o resultado", revela Miguel, sublinhando que "os defeitos destas máquinas são as suas virtudes. Não tem correcção da aberração cromática e não tem grande definição".

Tudo porque a LOMO Internacional era, nos anos 80 do século passado, especialista na construção de telescópios e microscópios. Foi Igor Petrowitsch Kornitzky, do Ministério da Indústria e da Defesa Soviético, que na altura ordenou ao director da LOMO, Michael Pantiloff, em São Petersburgo, a produção em grande escala de máquinas fotográficas pequenas e fáceis de usar. A qualidade das lentes ficou para segundo plano porque não era para continuar.

Há nesta comunidade quem procure, de laboratório em laboratório, rolos fora de prazo que ainda se encontram por um euro. Miguel é um exemplo: "Eu sou um fã incondicional dos filmes fora de prazo."

Márcio Barcelos, designer freelancer, 29 anos, justifica: "Procura-se o erro, o grão, o poder da cor, o valor estético. Nenhuma foto vai parar ao lixo, portanto todos os momentos têm de ser importantes."

Márcio começou pela Diana F+ , a sua "preferida". Em 1960, a Diana já existia, mas acabou por desaparecer. Foi mais tarde trazida pela LOMO Internacional, que a reconstruiu do zero.

E, na inversão da lógica dos anos 90, em que o digital anunciava a morte iminente do analógico, encontra até rasgos de existencialismo: "A lomografia traz o simples, o sentimento de reviver momentos que foram felizes. É ele próprio um movimento que percorre toda a sociedade. Para os mais novos, é uma espécie de saudade de um tempo que não se viveu."


PROJECTO MUNDIAL UNE TODOS OS LOMÓGRAFOS

A lomografia é uma forma de estar que se tornou um caso de sucesso. "O lomógrafo faz parte de uma comunidade que não só fotografa o quotidiano com uma lomo como também o partilha com outros lomógrafos nas actividades desenvolvidas pelas embaixadas lomográficas mundialmente", frisa Ana Almeida, responsável pela Embaixada Lomográfica de Lisboa.

Uma dessas iniciativas à escala mundial é o LomoWorldarchive, projecto desenvolvido pela Sociedade Internacional Lomográfica, em Viena, em conjunto com todas as suas congéneres no Mundo, e que consiste "em criar um arquivo com milhares de imagens de todos os lomógrafos, retratando a vida no Planeta através das câmaras lomográficas", acrescenta a lomógrafa Ana Almeida.

Existe já um espólio "fantástico", ou não tivesse a lomografia nascido em Viena em 1985, através da colocação no mercado da mítica LOMO LC-A. "Desde essa altura que todo o trabalho desenvolvido tem como meta final esse magnífico arquivo." Ou seja, uma meta que une todos os praticantes.

NOTAS

1.ª REGRA

A lomografia tem dez ‘regras de ouro’. A principal é: ‘Leva a tua lomo onde quer que vás’.

LOMO

Uma parte da ‘magia’ de fotografar com uma lomo é captar o imprevisível do quotidiano. 

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