Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
7

Deixam-me dormir, se faz favor?

“É como se Deus Nosso Senhor lhes soprasse ao ouvido: ‘Levanta-te e anda!’ (...) Em direcção ao meu quarto.”
7 de Agosto de 2011 às 00:00
Deixam-me dormir, se faz favor?
Deixam-me dormir, se faz favor? FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

Ver um filho crescer é uma coisa maravilhosa. Podemos apreciar as novas fases da sua vida, eles vão ficando cada vez mais espertos, a nossa cumplicidade vai crescendo – tudo isso é magnífico, não é? Com certeza. Mas a razão é outra: ver um filho crescer é uma coisa maravilhosa porque podemos finalmente dormir.

Só há coisa de seis meses voltei a poder usufruir desse extraordinário privilégio que é fechar os olhos sete horas de seguida sem ser interrompido por pedidos inflamados de retorno da chucha à boca do dono, desejos incontroláveis de beber água às quatro da manhã ou salvamentos urgentes de peluches que se despenharam da cama. Durante sete infindáveis anos, cada vez que um dos meus filhos começava a dormir decentemente logo nascia outro, o que me obrigava a regressar de imediato ao estado de zombie doméstico, com a desvantagem de não poder estraçalhar o pescoço do humano ao alcance dos meus dentes.

Mas agora que o Gui chegou aos três anos e já dorme a noite toda, a minha qualidade de vida melhorou muito. Melhorou muito – mas ainda está longe de ter melhorado tanto quanto eu gostaria. Todo o santo dia, seja segunda-feira ou domingo, os meus filhos levantam-se por volta das sete da manhã. É como se Deus Nosso Senhor lhes soprasse ao ouvido: "Levanta-te e anda!" E eles levantam-se. E andam. Em direcção ao meu quarto.

Donde, a partir do momento em que eles acordam – mesmo que uma das primeiras lições que lhes dei tenha sido como usar o comando da televisão, carregar no número 42 e não chatear o pai –, o meu lindo soninho acabou. É um problema qualquer que eles têm nos genes e que não foi devidamente acautelado pelo criador: os miúdos não conseguem ver um adulto a dormir. Se o Gui ou o Tomás toparem a mãe a cabecear no sofá (claro que o pai nunca faz essas figuras tristes), o seu primeiro gesto é saltarem-lhe para cima, certamente para se assegurarem de que a mãe continua viva e eles não passaram a ser dois orfãozinhos.

O conceito de descanso está muito para além da sua compreensão, mas o mais irritante de tudo é mesmo o raio do despertador biológico, que dispara às sete da manhã quer se tenham deitado às nove da noite ou à uma da madrugada. Hoje em dia já mando nas horas a que me deito. O que é fixe. Mas desconfio que vou precisar de mais sete anos para passar a mandar nas horas a que acordo.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)