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“Deixámos camaradas sepultados em aldeias”

Em 1961 fui mobilizado depois da célebre frase de Salazar: ‘para Angola rapidamente e em força’. Sofremos vários ataques com muitas baixas
14 de Outubro de 2012 às 15:00
Por sermos as primeiras companhias, ficávamos instalados em tendas, em terrenos desbravados à floresta e ao capim
Por sermos as primeiras companhias, ficávamos instalados em tendas, em terrenos desbravados à floresta e ao capim FOTO: Direitos reservados

Apresentei-me para cumprir o exercício militar a 2 de Abril de 1959 na EPE em Tancos. Ao fim da recruta e já com a especialidade de condutor auto, fui enviado para manobras no Campo Militar de Santa Margarida, onde construímos uma ponte, transportámos materiais e por lá fiquei. Em 1960 participei nos exercícios no Campo de Tiro de Alcochete, realizei obras de engenharia e acabei o serviço militar em Novembro. No entanto, o pior estava para vir.

Em finais de Abril de 1961 fui convocado a apresentar-me no quartel para continuação do serviço militar e em Junho veio a ordem de serviço para 230 condutores auto, mobilizados após a célebre frase de Salazar: ‘Para Angola rapidamente e em força.’

ALMA EM FARRAPOS

A 7 de Julho de 1961 embarquei no ‘Vera Cruz’, com destino a Luanda. Passados três dias a ver nada mais do que água, lá chegámos, pela manhã.

Desembarcámos cerca de três mil homens e desfilámos na marginal, onde muitos civis nos aplaudiram. Seguimos depois para Grafanil, que era só mato, e dali, para Sassa, Caxito, Mabubas, Ulua...

Estávamos a dar os primeiros passos do BC 158 e da CC 164-165-166, à qual eu pertencia. Seguimos na vanguarda para Ambriz, rumo a Zala, uma colina cheia de capim, que se destacava num local diferente. O resto eram florestas densas, a famosa Terra de Dembos, o Inferno Verde, onde sofremos o primeiro camarada morto. Por lá ficámos mais de um ano, numa zona de ferozes combates.

Antes, a minha companhia partiu para Nambuangongo, onde reforçou as tropas do coronel Maçanita, que poucos dias antes tinha tomado a localidade. Fomos impedir a picada da Beira Baixa ‘Quenacassala’, a primeira operação com apoio aéreo de artilharia. Nesses 40 quilómetros fomos muito atacados, mas, felizmente, não sofremos baixas. Daí seguimos para outros lugares, como Quicabo, Balacende, Quipedro, Quixico, Ponte de Freitas Morna, Colonato do Vale de Loge, Nova Capipemba, Bembe, Lucunga, onde éramos constantemente flagelados com ataques de metralhadora e minas.


Os perigos eram muitos e deixámos por lá 18 camaradas, que acabaram por ser sepultados pelas vilas e aldeias e muitos locais descampados. Entre esses, saliento o sargento Paula dos Santos, que heroicamente se atirou para cima de uma granada, salvando assim a sua companhia. Na freguesia onde resido, no bairro de Pereiró, Porto, existe uma rua com o nome de outro camarada, o furriel Guilherme Dantas, que também por lá ficou. Vi muitos morrerem. Lembro-me de um camarada que foi apanhado pelos terroristas, cortaram-lhe os pés e os braços e assaram-no. Quando recuperámos o corpo estava irreconhecível.

Por fim, chegou o dia de voltar à pátria. Tínhamos os corpos cansados e a alma em farrapos. No meu caso, tinha quatro anos e duzentos e cinquenta dias de serviço militar cumpridos. Quando em Beja me vesti à civil e calcei uns sapatos, quase não conseguia andar. Foi a 5 de Novembro de 1963.

Éramos uma companhia de alentejanos e algarvios, e hoje, com 74 anos, quero enviar saudações a todos os que me acompanharam nesta aventura. Ainda sinto saudades.

PERFIL

Nome: Ramiro da Silva Brandão

Comissão: Angola (1961/1963)

Força: CC 166

Actualidade: Reformado, 74 anos, casado e pai de três filhas 

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