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Democracia suspensa por um trio

A Democracia Portuguesa já está suspensa, detida em tenebrosa casa de correcção
27 de Novembro de 2011 às 00:00
Victor Bandarra
Victor Bandarra

Consta que tem origens na Grécia Antiga, mas pode ser boato. Chama-se Democracia à Portuguesa e é uma desatinada balzaquiana que, menina e moça, prometeu muito mas acabou por enveredar pelas ruas esconsas da amargura, da má vida e até da prostituição. Proxenetas teve muitos, mais ou menos competentes. Este ano, de tanto azougamento, a dama acabou condenada a cumprir pena em casa de correcção, dirigida com mão de ferro por uma troika de senhores sisudos e impecavelmente calculistas. Gente obrigada a conviver com Democracias, mas que odeia dar-se com Ideologias.

A Democracia Portuguesa ostenta um coração do tamanho de um bordel: dá para muitos, sobretudo para quem tem, ou ambiciona ter, conta calada nas ilhas Caimão. Aos descamisados, a adolescente Democracia deu casa, uísque e roupa lavada, mas, com o desleixo da idade, a doidivanas também pôs muitos a suspirar por uma ‘madame’ chamada Salazar. Quanto a Ideologias, a dama deu em baralhar tudo e todos – muitos são PS sem serem socialistas, outros são PSD renegando a social-democracia e há quem se assuma CDS democrata-cristão sem acreditar no Cristo. Suspeito que a maioria dos comunistas do PCP também abandonou a fé em Lenine. Quanto aos trotskistas do Bloco, são mais anti-troika que pró-Trotsky. Todos infiéis à Ideologia, todos amantes da Democracia.

Por isso caiu o Carmo e a Trindade quando Manuela Ferreira Leite deu o mote e suspirou por um tempito sem a senhora a ditar leis. Otelo seguiu-lhe os passos e, ameaçando golpe de Estado, pugna agora em fechá-la no quarto até a maluca ganhar juízo.

Bem vistas as coisas, a Democracia Portuguesa já está suspensa, detida em tenebrosa casa de correcção que, como se sabe, é a melhor escola de crime do Mundo. Doutos, os cavalheiros da troika dão palpites como se tivessem sido eleitos em escrutínio democrático. Um trio de tecnocratas a quem o banqueiro Fernando Ulrich chamou pelos nomes: "Uns funcionários de sétima categoria a quererem mandar no País." Mário Soares sorriu e aplaudiu.

Amancebado com uma Democracia muito própria, o meu amigo Zé dos Pneus teve uma ideia luminosa: "Os maiorais da troika que enviem listas com nomes e currículos: em vez de votarmos para o Parlamento, votamos na lista de engenheiros do FMI e de Bruxelas." Como quem diz: os técnicos mais votados passam a gerir o País. Podem ser de sétima linha, mas são eleitos democraticamente. Os democratas governantes do burgo podem dormir descansados.

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