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Dentro do precipício

Desemprego e perda de poder económico obrigam famílias a pedir roupa e comida
10 de Outubro de 2010 às 00:00
Quem antes podia ajudar, agora precisa também de ajuda
Quem antes podia ajudar, agora precisa também de ajuda FOTO: Bruno Colaço

Por vergonha e sem dinheiro, aguenta-se vários dias sem comer. Pelos filhos não há vergonha que não se vença. Pede-se e até comida às instituições de apoio social.

Patrícia não teve outra opção. No princípio do ano entregou a casa ao senhorio e suprimiu 375 euros de renda. O marido, armador de ferro nas obras, perdeu o trabalho e do fundo de desemprego passou a ganhar 400 euros. "Quando nos vimos sem o ordenado dele pensámos que, das duas uma, ou comíamos e não pagávamos a casa e as despesas, ou não comíamos para pagarmos as despesas". Acontece que com duas crianças – de oito e 11 anos –, esta família estava encurralada. Patrícia encheu-se de vida e desembaraço e acumulou trabalhos: florista paga com o ordenado mínimo e mulher a dias a sete euros à hora.

"Passei fome pelos meus filhos", diz ela agravando o tom da voz. "Por isso é que perdi o orgulho e neste momento estamos a viver em casa dos meus pais".

Apesar dos dissabores, a florista parece esconder no cheiro das flores o mau cheiro da tristeza. Esboça um sorriso cheio de contra-senso. É possível seguir-lhe no rosto esguio as más marcas do passado – visíveis na boca descomposta.

Veste uma meia-calça xadrez, castanha, botas de cano alto, pretas, da mesma cor do casaco de malha. O dinheiro não dá para luxos. Patrícia fala em tom monocórdico. A voz só é traída quando refere as fases difíceis.

Patrícia sempre redobrou cuidados para que aos filhos nunca lhes faltasse nada: da alimentação ao material escolar. E não, não têm a PlayStation que tanto querem.

Em Abril do ano passado, a Paróquia de N. Sra. do Amparo, em Benfica, reagiu às dificuldades das famílias portuguesas – novas vítimas da crise económica nacional. De segunda a sexta servem vinte almoços – sopa, prato principal, pão, café, fruta e bolo – àqueles que até há bem pouco tempo eram gente que tinha meios e que agora se vê na condição de precisar.

A paróquia cedeu-lhes uma sala com três mesas redondas para vinte pessoas almoçarem. António, Patrícia e Diniz – ex-toxicodependente de 42 anos, seropositivo claramente marginalizado, sem emprego e dependente dos pais, idosos, que vivem numa casa onde chove – estão à mesma mesa a comer a sopa de legumes e massa.

António Azevedo, 55 anos, sofre do síndroma contemporâneo ‘velho demais para trabalhar’. Servente de pedreiro com vinte anos de experiência, ficou sem trabalho há dois, mas já há algum tempo que andava nas obras a dias, sem descontar para a Segurança Social. Quando a crise se abateu sobre o sector da construção civil, António deixou de ganhar dinheiro. Vive com a mãe de 75 anos com quem tem discussões frequentes, mas de quem depende.

CABAZ DE VERGONHA

O padre José Traquina, da Paróquia da N. Sra. do Amparo, explica que, das pessoas que ficaram sem emprego, são poucas aquelas que ali almoçam. Acabam por ser mais as pessoas que já estavam em situação de pobreza que o aproveitam. "As outras preferem receber um dos 66 cabazes com alimentos para cozinharem em casa. E muitas delas nem querem ir para a ‘fila dos necessitados’ onde mensalmente os cabazes são distribuídos. Há casos em que nos pedem para passarem por cá a outra hora, ou o cabaz é-lhes entregue em casa". Têm vergonha.

"Quando isto começou, havia gente que só tinha esta refeição para comer. Chegavam aqui cheios de fome" – conta Isabel Carvalho, voluntária responsável por servir os almoços. São experiências como esta que educam também civicamente os voluntários mais novos do que ela. Miguel Félix, 19 anos, assim que termina as aulas, de segunda-feira, na faculdade, corre para ali com um colega. "Eu conhecia superficialmente a condição destas pessoas, mas interessava-me falar com elas. Há casos realmente chocantes. Essencialmente, tudo por falta de dinheiro". Tal como ele, a psicóloga Susana Faísca, 29, sente-se por vezes chocada: "assusta-me bastante ver pelo que já passaram estas pessoas. E em muitas situações vemos que foi claramente azar. Trabalhavam e, de repente, perderam a rede. Infelizmente, pode acontecer a muita gente".

Do lado da Cáritas, D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, acrescenta que "esta é a altura mais crítica de sempre. Nem na fase crítica dos anos 80 se viveram tempos tão difíceis". O endividamento das famílias é naturalmente um dos factores que competem com a crise financeira mundial para o empobrecimento das famílias. "Na Cáritas tem-se sentido a crescente procura de ajuda por parte de quem até agora nunca tinha pensado vir a precisar de apoio alimentar". Segundo D. Carlos Azevedo, as solicitações aumentaram cerca de vinte por cento. Especialmente vindas de famílias das zonas circundantes de Lisboa e Porto, Sintra e Setúbal. O apoio já excede as roupas e alimentos e chega já a pedidos monetários (mas só em emergências) para pagar despesas correntes e medicamentos.

Setúbal, que nas questões de ordem social funciona como um barómetro do estado do País, vive momentos críticos. Uma das associações, Questão de Equilíbrio, que está no terreno, "tem vindo a receber mais solicitações por parte de famílias que até então eram minimamente organizadas e estruturadas e que por agravamento da situação financeira no País sentem a sua estrutura ‘vacilar’", explica Marta Marques. "Quem mais nos procura são famílias de classe baixa, mas tem sido crescente a procura por famílias de classe média, principalmente para fornecimento de alguns bens alimentares, muitas vezes de forma temporária, até a situação financeira do agregado normalizar".

Como esta, muitas outras associações contam com o apoio do Banco Alimentar Contra a Fome para lhes fornecer os alimentos que entregam a quem mais precisa. Isabel Jonet explica que todos os meses tem crescido tanto o número de instituições que lhes solicitam apoio, bem como o volume de alimentos pedidos. E isto deve-se a mais pedidos de ajuda por parte das famílias, que, por sua vez, têm menos recursos económicos e mais dificuldades em pagar as suas prestações.

O Banco Alimentar vê-se confrontado com o facto de não poder aumentar o número de campanhas para doações, dirigidas ao público em geral, "porque as próprias pessoas não aguentariam este esforço", acrescenta Isabel Jonet. "Temos então que procurar mais activamente produtos excedentes e fontes de desperdício". Recolhendo, por exemplo, os excedentários do Mercado Abastecedor de Lisboa.

Em Bragança, o padre Fernando Rodrigues explica que o Centro Social e Paroquial de Santo Condestável está a ajudar diversas "pessoas que tinham salários à volta dos mil euros e com créditos de casa e carro para pagar", mas também "estudantes universitários que não têm retaguarda familiar".

A CRISE AGUDIZA-SE

Todos os dias a Comunidade Vida e Paz depara-se, em Lisboa, com o desespero das pessoas. No primeiro semestre, já registaram mais 90 novos casos do que no período homólogo de 2009 – elevando para 310 o número total. O desemprego é a segunda maior causa, logo a seguir às dependências.

"O nosso princípio de intervenção está mais relacionado com as questões das dependências", contextualiza o sociólogo Marco António. "Mas para muitas dessas pessoas que ficaram agora mais carentes por terem perdido os seus empregos, há a opção de mensalmente receberem de nós um cabaz alimentar. E esses casos têm aumentado substancialmente".

LINHA TÉNUE

Maria Helena Fraústo esconde o rosto amargo. Aos 65 anos vive, a contragosto, no abrigo de Xabregas. "Esta situação é contra a minha maneira de ser", afirma, frustrada. Trabalhava a cuidar de uma pessoa com deficiência, apesar de não fazer descontos. Só que a morte do filho atirou-a para uma longa depressão, um desgosto profundo. Sem trabalho nem reforma, perdeu a condição económica. E de uma casa passou para um quarto alugado, que, com o tempo, deixou de pagar. Foi despejada. Um dia, caiu na rua desamparada e só acordou no Hospital Júlio de Matos.

Pronta para servir o almoço a Maria Helena e mais duas dezenas de homens, a maioria com problemas de adição, está Maria de Fátima Rocha, 45 anos. A sua história poderia ser mais uma de alguém a quem a crise desfez o lar. Mas ela não permitiu. Era cozinheira num externato privado em Paço de Arcos. No final do terceiro contrato de seis meses, dispensaram-na. Tinham de efectivá-la. Até ali tinha servido sozinha 250 crianças e mais 30 funcionários. Nenhuma reclamação.

Mãe de uma filha com deficiência e, aos 24 anos, totalmente dependente dela, Maria de Fátima reagiu. Foi ao centro de emprego pedir para que lhe ocupassem o tempo de qualquer forma. Voluntariado, sugeriu. Provavelmente não somaria nada aos 560 euros de fundo de desemprego, mas ela não queria era ficar em casa. Inscreveram-na num programa de inserção no trabalho e colocaram-na na Comunidade Vida e Paz (e recebe mais vinte por cento de subsídio, tem direito a passe e a refeições).

Nas rondas da noite onde se distribui um saco alimentar pelos sem-abrigo de Lisboa, os voluntários vão-se deparando com diversas famílias que acabam de entrar em crise. "Segunda-feira passada foi ter connosco um casal com duas crianças. Ele vestia fato e gravata. Tinha acabado de perder o emprego e, pouco tempo antes, já a mulher tinha ficado desempregada. Queriam comer", conta Margarida Mendes. "Encontrei noutra ocasião um casal que já tinha vivido num quarto mas agora estava num barracão. Ele era pedreiro e ela cozinheira. Ambos desempregados. Os dois filhos estavam em casa dos pais dela, que também não tinham condições para acolher a família inteira" – prossegue a voluntária. "Até os vendedores de rosas à noite e alguns artesãos de rua nos procuram. Não vendem o suficiente para comer".

Quando alguém se dirige aos voluntários da Comunidade Vida e Paz e lhes diz ‘olhe, desculpe’, é porque a sua pobreza é recente. Muitos começam por rondar as equipas de distribuição. Observam. E só quando ultrapassam a vergonha e os receios avançam timidamente.

"Em Entrecampos estava uma família inteira a observar-nos – pai, mãe, uma filha pequena mas em idade escolar e um miúdo de quatro anos. A senhora foi ter connosco relutante. Tinham perdido o emprego e, para agravar a situação, o marido tinha uma doença e por isso estava a aguardar uma operação. Tinham ocupado uma casa devoluta, que agora estavam a ‘mobilar’ com coisas que iam recolhendo do lixo" – recorda a voluntária Joana Correia.

Numa ronda que acompanhámos, às 21h45, na praça de Londres, junto à pastelaria Mexicana, apareceu um homem de uns 40 anos; de rosto redondo, curtido pelo sol, cabelo negro, denso, e os dentes superiores em ouro. Vestia calças de ganga, camisa clara, casaco de malha azul-escuro. Fazia-se acompanhar por outros dois moldavos com quem partilha casa: ele era alto, de cabelo ralo, grisalho e um rosto enrugado; ela era baixinha, cabelo esbranquiçado esticado num rabo de cavalo.

"Quando tem trabalho, tem dinheiro para comer; quando não trabalha não tem" – explica o primeiro moldavo, num português arranhado. Laboram nas obras, no campo, onde houver quem lhes pague. "Difícil arranjar trabalho", remata. E há dois meses que os dois homens não o têm. Vivem na casa deles cinco pessoas em três quartos. Num regime comunitário de partilha de despesas: quem está empregado paga as contas; quem não está recorre à comida que é distribuída na rua.

MÃOS DOS VOLUNTÁRIOS

A carrinha da Comunidade Vida e Paz prosseguiu a volta e, à passagem pela igreja de Arroios, a mão de Cândida Mota estendeu-se para receber as duas sandes, sumo, bolo e um iogurte. Tem 79 anos. É pobre. O bispo auxiliar de Lisboa, D. Carlos Azevedo, já alertou para o agudizar da pobreza entre os idosos.

Depois de receber a comida, Cândida Mota senta-se no jardim ali perto. Conversa com António Calisto – um homem de arcaboiço abonado por uma farta barriga e de barba negra, longa. Já passa das onze da noite mas ainda há motivos para conversa, enquanto ela sorve o sumo pela palhinha. "Eu era mulher a dias, mas não era estúpida. Fiz descontos. Hoje tenho uma reforma que me dá para pagar as contas da casa – onde chove e que tem papelões no chão, mas o senhorio não faz obras". Cândida cozinha para si, sopa. Ofende-se quando se lhe pergunta para o que chega o dinheiro. "Então, grão e bacalhau..." O resto recebe na rua, das mãos dos voluntários.

São pelo menos quatro horas a percorrer a cidade, desde a praça de Londres até ao Rossio, passando por Arroios, Almirante Reis, Martim Moniz, rua da Prata. Todos os ‘quartos’ com camas de cartão são visitados diariamente. Outras três equipas percorrem outros recantos da cidade. Qualquer sítio onde durma um sem-abrigo. "Nesta altura já não é só o alcoólico e toxicodependente que vem às nossas carrinhas. Vêem-se pessoas com habitação e que necessitam de comida", conta a voluntária Anabela Lopes. "Recordo-me de um senhor, de fato e gravata, que nos procurou uma destas noites no Rossio. Tinham-lhe congelado as contas e ele estava com fome. Só nós lhe podíamos dar de comer".

PIOR ANO DE POBREZA

Este é o Ano Europeu de Luta Contra a Pobreza e, para Agostinho Moreira, presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza, é o "pior ano". Explica que "o Governo português está preso num sistema europeu que é perverso, já que produz por ano um milhão de pobres", considerando ser urgente uma "mudança profunda" que regule o poder económico: "enquanto não formos capazes de regulamentar o poder económico estaremos sempre escravos e seremos impotentes para mudar a situação", declarou ainda à Lusa. "A pobreza só se deve resolver pelo desenvolvimento pessoal e não por subsídios".

NOTAS

EM RISCO

A população residente no País em situação de risco de pobreza era de 17,9% em 2009. Desceu 0,6%.

IDOSOS

Quanto ao risco de pobreza para os idosos, registou-se uma redução de 22,3%, em 2008, para 20,1%.

2010

Não há dados referentes a 2010. Mas a maioria das instituições diz que as solicitações subiram 20%.

ALERTA

Um terço da população activa entre os 16 e os 34 anos seria pobre se dependesse só do seu trabalho.

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