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Desafio contra ventos e mares

Tem 25 anos e várias vitórias no currículo. Acaba de ser eleito velejador do ano por uma revista francesa da especialidade.
17 de Janeiro de 2010 às 00:00
O veleiro exige uma atenção permanente
O veleiro exige uma atenção permanente FOTO: Flávio Santos

Uma onda de dez metros virou-lhe o pequeno veleiro, ao largo do golfo da Biscaia. Atirado ao mar revoltoso em noite de tempestade, Francisco Lobato chegou a pensar no pior. "Foi o maior susto que apanhei, mas consegui voltar para o barco e esperar pela ajuda, que só chegou de manhã". Nessa altura – na Primavera de 2008 – chegou a pensar em desistir de um desporto que sabe ser perigoso como poucos.

Mas não é fácil deixar uma actividade em que se iniciou aos oito anos, e decidiu continuar. Um mês depois, chegou a recompensa. Ganhou a regata Les Sables (França) – Açores – Les Sables, da qual guarda "uma alegria indescritível, que foi chegar à Horta e ter centenas de pessoas a festejar a minha vitória".

O maior feito da carreira na vela solitária aconteceu em 2009. Francisco ganhou a mítica prova Transat 6.50, a regata que liga a França e o Brasil e é uma das mais importantes provas da vela mundial. São 4100 milhas náuticas, percorridas ao longo de 26 dias, em que a solidão e o cansaço são os maiores adversários. "O pior é que não podemos dormir mais de uma hora seguida. Ao fim de alguns dias, começamos a ter alucinações, sobretudo auditivas. E a comida é toda liofilizada, torna-se muito desconfortável", conta o português, que perdeu oito quilos durante a prova transatlântica.

O esforço voltou a ser reconhecido: aos 25 anos, Francisco Lobato foi eleito pela segunda vez consecutiva como velejador do ano pela prestigiada revista francesa ‘Sea Sail Surf’. Um troféu decidido por votação on-line, em que o português reuniu 53% dos votos.

Feliz com a distinção, Francisco já pensa em novos desafios. Este ano vai correr com um barco de classe superior (Figaro II) e planeia entrar na regata de circum-navegação Vendée Globe em 2016.

Para já, Francisco tem preocupações mais imediatas. "Ainda estou a reunir patrocínios para a nova época. Tenho um barco mais competitivo e o orçamento ronda os 200 mil euros."

O velejador está a concluir o mestrado em engenharia naval no Instituto Superior Técnico, mas aposta, para já, na profissionalização na vela, que o poderá levar a mudar-se para França. "Gosto muito de Portugal, foi no Tejo que comecei a fazer vela aos oito anos, mas em França há outras condições para este desporto", explica Francisco Lobato.

COMBATER O SONO E DESCONFORTO

Ouvir Francisco Lobato descrever as condições de vida a bordo faz esquecer a ideia romântica que muitas vezes se associa às grandes travessias oceânicas. "Até agora, competi com um barco de 6,5 metros, pouco maior do que um carro. Não se pode cozinhar – a comida é toda liofilizada – e o espaço para dormir é exíguo." Por questões de segurança e de competição, os velejadores dormem pouco, e não o podem fazer mais do que uma hora seguida.

Quanto a banhos, o cenário é pouco animador: "Temos pouca água doce e recorremos a toalhetes. É fundamental não deixar a pele ficar salgada por muitos dias", diz Francisco. E depois há as tempestades. "A minha mãe e a minha namorada preocupam-se muito, e têm alguma razão, porque é perigoso." 

PERFIL

Profissão: Velejador, está a completar mestrado em engenharia naval

Idade: 25 anos.

Carreira: Começou a praticar vela por influência familiar aos oito anos. Passou por várias classes de competição até optar pelas provas de longo curso, em 2005

Prémios: Eleito velejador do ano pela revista ‘Sea Sail Surf’em 2008 e em 2009

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