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Desarrumações & máquinas de barbear

“‘Tu não mexes nas minhas coisas!’, berro eu, tal como berrava com a minha mãe em 1984. Com o mesmo efeito”
20 de Novembro de 2011 às 00:00
Desarrumações & máquinas de barbear
Desarrumações & máquinas de barbear FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

A minha excelentíssima esposa acha que eu sou um homem desarrumado. Mas eu não sou desarrumado. Tenho é falta de tempo. Infelizmente, ela tem uma certa dificuldade em compreender que naqueles 35 minutos diários (não são mais do que 35) em que não estou a trabalhar, a comer, nos transportes públicos, a dar banho aos miúdos ou a enfiá-los na cama, eu prefira pegar num livro ou num jornal em vez de ir arrumar a mesinha de cabeceira.

Isso faz com que leve o tempo todo a ser repreendido, como se fosse um adolescente. Neste momento estamos sem empregada doméstica, e a excelentíssima esposa entende - e entende de forma muito efusiva - que tenho a obrigação de fazer a cama, exigência que eu não ouvia para aí desde os meus 11 anos. Diz-se que envelhecer é regressar à infância - eu estou a começar essa viagem manifestamente cedo. E por isso protesto muito, tento explicar-lhe que andamos sempre a correr, que é mais importante ter tempo para arejar a cabeça do que para alisar os lençóis, que as pilhas dos jornais se podem acumular sem daí vir mal ao mundo, que vá mas é chatear o Camões.

Só que quando a excelentíssima esposa acha que a discussão já foi longe demais, passa à acção. E é a tragédia. Ela põe as suas lindas mãozinhas em cima das minhas coisas e transforma uma desarrumação arrumada (no sentido em que sei onde está tudo o que preciso, ainda que seja debaixo de sete quilos de papel) numa arrumação desarrumada (no sentido em que tudo está lindamente ordenado mas eu não encontro coisa nenhuma). "Tu não mexes nas minhas coisas!", berro eu, tal como berrava com a minha mãe em 1984. Com o mesmo efeito - nenhum, porque elas fazem aquilo de propósito. No seu léxico doméstico-poético, "arrumar" rima com "vais-te lixar".

E lixado eu fico. Ainda a semana passada tive de sair à rua com a barba num estado lastimável porque não encontrei o transformador que permitia ligar a máquina de barbear à corrente. Procurei-o desesperadamente durante meia hora. Claro que a esposa não atendia o telemóvel (nunca atende quando preciso realmente dela) e acabei por desistir. Ao reencontramo-nos à noite, explicou candidamente: "juntei-o aos outros equipamentos eléctricos na biblioteca". Óbvio, não é? Metade da minha máquina de barbear foi parar à biblioteca. Um grande brinde à arrumação feminina.

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