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“Desculpe, foi o senhor que deitou o papel para o chão?”

Durante três horas por dia, sete dias por semana, um grupo de 15 reformados zela pela segurança e civismo na principal avenida de Setúbal. As motivações vão desde o dinheiro ao “bem comum”. A Domingo conheceu os estreantes.
24 de Janeiro de 2010 às 00:00
Dois patrulheiros em acção, em plena avenida Luísa Todi
Dois patrulheiros em acção, em plena avenida Luísa Todi FOTO: Carlos Santos, A-gosto.com

A idade pesa nas pernas mas não o faz arredar da missão a que se propôs, numa altura da vida em que as rugas levam a melhor ao espelho. José Carrapeta, há quatro anos na reforma, estava longe de imaginar que ia voltar ao activo – como patrulheiro da avenida Luísa Todi, em Setúbal, função tão diferente da guilhotina que comandava noutros tempos. Tem 66 anos e partilha, com 32 outros idosos que se candidataram ao mesmo programa, a vigilância de várias zonas da cidade. Quinze, os caloiros, começaram há uma semana na avenida – no Parque de Albarquel 17 reformados estão já destacados há dois anos.

A motivação de Carrapeta é simples: "A minha filha e os meus netos vieram viver comigo e tenho de os sustentar. Se vivesse sozinho, como antes, não tinha de trabalhar para sobreviver porque a minha reforma chegava para os meus gastos". Por isso não pôde recusar a patrulha quando reparou no anúncio, colado no placard do Centro de Bem-estar Social dos Idosos e Reformados de Setúbal, associação que frequenta para dois dedos de conversa, que oferecia 2,60 euros à hora pelo trabalho nas ruas. Carrapeta ganhou então nova rotina: três horas por dia, sete dias por semana, com feriados incluído, zela pela cidade onde nasceu.

ESTREIA NA PATRULHA

Ao fim do primeiro dia de trabalho Vítor Lopes, 78 anos, tinha motivos de orgulho para contar. "Fui o único do meu turno a detectar anomalias: a falta de duas tampas papeleiras e de uma grelhagem para evitar as folhas". E criminosos, terá visto? "Não vi ninguém que quisesse fazer mal, mas não tenho medo nenhum: se não faço mal a ninguém, ninguém me faz a mim". Mas o que fará se algum lhe aparecer pela frente? "Essas coisas mais graves telefonamos para as autoridades a avisar onde estamos".

O papelinho que guarda, amachucado, no bolso do casaco é prova de que está pronto se isso acontecer: tem os números da emergência, PSP e bombeiros, entre outros contactos da Câmara Municipal, distribuído a cada turno pela associação. Isso e um telemóvel "para não termos de gastar do nosso". Também para Vítor a principal motivação para se ter inscrito são os euros a mais na conta ao final de cada mês.

"Quando trabalhava pertencia à classe média. Agora, com a mísera reforma de 300 euros, sou um excluído, sou pobreza envergonhada". Para Jorge Godinho, camarada patrulheiro, o serviço é uma forma de ocupar o tempo: "Até a minha mulher me disse: ‘vai patrulhar, fazes bem, porque sempre te distrais’". Para que a distracção surta efeito tem a lição decorada: "se uma pessoa deita um papel para o chão temos de chamar a atenção, mas com voz baixa, para não sermos mal-educados. Temos de levar a população a ver que se não tivermos brio na cidade, quem terá?" A resposta fica pendurada até Américo Tomaz – nome célebre que carrega por ter herdado do padrinho "e não por ter alguma coisa a ver com aquele que já morreu" – aparecer: "Temos que ser nós a fazer isto porque os novos não querem trabalhar. É triste mas continuamos a ser nós a dar o exemplo".

Bem-disposto, Jorge Godinho conta que esta não é a sua estreia na patrulha. "Durante a Guerra Colonial, onde estive 36 meses, fiz muitas, mas no mato, era diferente destas daqui da cidade". Francisco Fuzeta também bateu muita estrada. "Era motorista profissional. Agora ando a pé que também é bom, assim não fico entrevado dos joelhos. E o dinheiro sempre dá jeito, já não temos de ir à carteira da mulher buscar uns trocos para beber uns copitos". Nem tem, diz Pedro de Jesus, 70 anos, de ficar "no banco do jardim à espera que os dias passem devagar. A minha mulher e o meu filho apoiam-me, preferem que faça algo útil em vez de estar parado. Era sinal que já não havia mais dia, que estava acabado". E não está.

António Alberto também não. Tanto que, apesar de um acidente de trabalho lhe ter imobilizado um braço – que tantos anos depois continua sem mexer – e o reformar aos 30 anos, garante "ir atrás dos assaltantes todos que aparecerem. Faço-lhes frente, isso é certo, até corro para os apanhar". Se bem que, garante, "não quero substituir as autoridades, essa é a função delas". Aos 52 anos, a vida deste homem solteiro voltou a ganhar sentido. "Estive vinte anos sem trabalhar e custa, não fazia ginástica há muito tempo, mas fazer alguma utilidade é muito bom. Quero aproveitar para abater a barriguinha e quem sabe até me possa vir a casar". Américo Tomaz afirma convicto que " não vai custar nada. Estou habituado a correr a cidade de uma ponta à outra todos os dias e a puxar o barco da pesca para cima e para baixo. Tenho músculos fortes e até canto o fado".

E não, não quer chatear as pessoas. "Quero é mostrar-lhes que a educação é muito bonita e eu gosto: que não se pode sujar a nossa cidade, que têm de se comportar com respeito". Nem vai levantar a voz se vir alguém a cometer uma infracção. "Falo baixo e com cuidado. Já se sabe que há gente que não gosta de ser incomodada e que reage mal, mas estou preparado para a patrulha. Sobrevivi a um acidente muito grave, há muitos anos, na Arrábida. Ia na camioneta da cerveja Sagres, mas os travões partiram-se e morreu o chauffeur e o segundo ajudante. Eu era o primeiro. Estive dois anos e quatro meses no hospital mas consegui recuperar".

Terminada a conversa, Américo pega no guarda-chuva, ajeita o boné que tem estampado o símbolo da Suíça e ala que se faz tarde. Há uma avenida inteira à espera. Jorge acompanha-o. Jaime Fonseca, de 44 anos e reformado por invalidez, e Pedro de Jesus já lá estão. Encontrar-se-ão os quatro a meio da Luísa Todi e trocar dois ou três gracejos sobre a chuva que dá tréguas curtas, como amigos no café. 

ACORDO AGRADA A TODOS

O protocolo para a patrulha da cidades foi assinado entre a autarquia setubalense, a Junta da Anunciada e a associação de reformados. Começou há uma semana a vigilância da avenida Luísa Todi pelos idosos. Há até um grupo de reserva, para o caso de doença de algum voluntário. Entre os 15 patrulheiros da Luísa Todi não há mulheres.

QUEM SÃO OS PATRULHEIROS DA AVENIDA

Américo Tomaz, 63 anos. Trabalhou 26 anos na Sagres e fez trabalhos como calceteiro e sapateiro. Ainda está pronto para fazer alguns biscates.

Pedro de Jesus, 70 anos. Antes da reforma vendia material eléctrico.

Francisco Fuzeta, 64 anos. Foi motorista profissional durante vinte anos.

Jorge Godinho, 64 anos. Esteve num escritório, foi funcionário público, taxista, pintor da construção civil e na América foi electricista.

António Pedro, 64 anos. Era empregado de hotelaria.

Jaime Fonseca, 44 anos. Era empregado de hotelaria antes da reforma por invalidez, depois de um acidente.

José Carrapeta, 66 anos. Foi mecânico e operador de guilhotina antes de se reformar, há quatro anos.

Vítor Lopes, 78 anos. Trabalhou numa oficina de motorizadas, foi "ferramenteiro" na Volvo e também esteve empregado no Cais dos Navios.

António Alberto, 52 anos. Trabalhou nas obras antes de uma reforma por invalidez, há vinte anos. Esteve, segundo diz, nas obras de construção de um aeroporto em Israel durante cinco anos.

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