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Despertado pela curiosidade

“[...] meteu-se na camioneta e foi para Sul para descobrir onde acabava o país”
Tiago Rebelo 26 de Agosto de 2012 às 15:00
Despertado pela curiosidade
Despertado pela curiosidade

Estão os dois nus na cama. Ele deposita-lhe um beijo casto no seio e ela solta uma gargalhada, divertida com a sua atitude de cavalheiro inveterado até na confusão dos lençóis desfeitos. Puxa-o mais para si, aproxima-lhe a boca do seio exposto e diz-lhe que se deixe de cerimónias, que o quer apaixonado e sôfrego. Mas diz-lhe isto com palavras francas e uma desenvoltura de mulher adulta e sem remorsos de trair o marido que também a trai todas as sextas-feiras nas traseiras do café da praia com uma rapariga trigueira que ela conhece de lhe servir a bica de manhã e de se servir do seu marido ao final do dia, num quartinho quase indigente, quente e abafado, onde mal se respira.

Ela sabe isto tudo mas não quer saber, diz que do seu casamento já só restam os cacos e que, se ainda vivem juntos, é porque não têm dinheiro para duas casas. É uma mulher madura e robusta, que já passou há muito dos quarenta mas vai deixando a idade assentar sem se amargurar com as desilusões.

Já ele é um viúvo chegado aos sessenta sem saber quase nada do sexo feminino, pois foi sempre homem de uma só mulher, a única que namorou, casou e enterrou com uma profusão de lágrimas de alma perdida. Pensou que não aguentaria a vida sem ela, que não poderia comer por não saber cozinhar, que iria descomposto à missa de domingo por não saber fazer o nó da gravata que ela lhe fizera todas as manhãs sem uma única falha em trinta e um anos de casados. Viveram um para o outro com uma dedicação resignada e uma paciência feliz, apaixonados até ao último minuto. Não tiveram filhos nem foram mais longe de casa que os limites da própria vila, tirando raras excepções como o casamento de um primo, que distava cinquenta quilómetros.

Contudo, desde que enviuvou, despertado por uma curiosidade súbita, apanhou o comboio e foi à capital. E depois de esquadrinhar incansavelmente a cidade, meteu--se na camioneta e foi para Sul para descobrir onde acabava o país. E, não satisfeito, continuou a viagem por todas as cidades, vilas e aldeias do país. Pensou prosseguir caminho para lá da fronteira, mas entretanto conheceu a vizinha, que esteve sempre do outro lado da rua.

Recebe-a em casa todas as sextas-feiras ao final da tarde e ela afoga-o em beijos quentes sem lhe dar tempo para a cumprimentar e despe-lhe, peça por peça, a roupa toda desde a entrada até ao quarto e mete-se debaixo dele com um ardor que não conhecia. Descobriu que pode fazer amor sem amor e que aquela mulher alegre lhe diz entre gargalhadas, na intimidade dos lençóis, as mesmas palavras dissolutas que ele só costumava ouvir dos homens. E está curioso por conhecer melhor as mulheres.

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