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Diderot denunciou o assédio sexual nos conventos

‘A Religiosa’: escândalo em livro no séc. XVIII e no cinema 200 anos depois.
João Pedro Ferreira 27 de Outubro de 2019 às 11:00
‘A Religiosa’
‘A Religiosa’ FOTO: Direitos Reservados

Denis Diderot (1713-1784) foi um escritor francês e um dos mais destacados filósofos do Iluminismo. A adesão ao naturalismo materialista, patente na ‘Carta sobre os Cegos’ (1749), levou o poder absolutista a considerá-lo um perigoso libertino e a mandá-lo prender no castelo de Vincennes, em Paris. No romance ‘A Religiosa’ (1796) – só publicado doze anos depois da sua morte – fez uma crítica demolidora à prática, então muito em voga, das ‘vocações forçadas’: o envio de raparigas e mulheres para os conventos contra a sua vontade. A protagonista é obrigada pela mãe a ir para freira. De convento em convento, a jovem ingénua, preocupada em seguir os ensinamentos da moral cristã, fica sujeita ao arbítrio das respetivas madres superioras: sofre torturas que fazem lembrar o marquês de Sade e é alvo de assédio sexual por uma lésbica.

O legado mais importante de Diderot foi a ‘Enciclopédia’, para a qual escreveu mais de mil artigos. No que dá título à obra escreveu que o seu objetivo era "mudar a maneira comum de pensar". No preâmbulo do seu mais importante livro filosófico, ‘Pensamentos sobre a Interpretação da Natureza’ (1753), escreveu: "Jovem, toma e lê. Se conseguires chegar ao fim desta obra, não serás incapaz de entender uma melhor. (…) Tem sempre em mente que a Natureza não é Deus, que um homem não é uma máquina, que uma hipótese não é um facto". Criou ainda um género teatral – o ‘drama burguês’ – e foi pioneiro da crítica de arte.

Do livro ‘A Religiosa’, trad. Franco de Sousa, ed. Publicações Europa-América
"Logo na primeira noite recebi a visita da superiora: veio ajudar-me a despir-me; foi ela quem me tirou o véu e o escapulário e me penteou para dormir; foi ela quem me despiu. (…) De dia para dia via crescer a ternura   que   a   superiora   me   dedicava.   Estava constantemente na sua cela, ou estava ela na minha.

(…) Entretanto, levantara o lenço do pescoço e colocara-me a minha mão sobre o seu seio; calara-se e eu também me calara; parecia experimentar o maior prazer. Incitava-me a beijar-lhe a testa, as faces, os olhos e a boca; e eu obedecia; pensava não haver nisso qualquer mal; entretanto, o seu prazer aumentava; e, como eu nada mais desejava do que aumentar a sua felicidade de uma maneira tão inocente, voltava a beijar-lhe a testa, as faces, os olhos e a boca. A mão que tinha no meu joelho passeava agora pelas minhas vestes, desde a ponta dos pés até à cintura, carregando ora num sítio ora noutro; exortava-me, gaguejando, numa voz alterada e rouca, a redobrar de carícias; eu assim fazia; por fim chegou um momento, não sei se foi de prazer se de sofrimento, em que ficou pálida como uma morta; os olhos cerraram-se, todo o seu corpo se retesou com violência e os lábios fecharam-se, primeiro, molhados por uma ligeira espuma; depois, a boca entreabriu-se e pareceu-me que tinha morrido, ao soltar um profundo suspiro.

(…) E afastava-me a roupa do pescoço e da cabeça; entreabria-me a gola do vestido; os cabelos caíam soltos sobre os ombros a descoberto; o seio estava quase nu, e os seus beijos corriam-me pelo pescoço, pelos ombros, pelos seios quase nus.

(…) - Querida madre - disse-lhe -, o que tem? Sente-se mal? Que devo fazer? - Estou a tremer – respondeu-me – tenho arrepios; toda eu estou num frio mortal. - Quer que me levante e lhe ceda a minha cama? - Não – disse ela –, não seria necessário levantar-se; levante apenas a coberta, para que eu me aproxime de si; para me aquecer e curar.

- Querida madre, mas isso é proibido. Que iriam dizer, se soubessem? (…)

- Querida amiga – disse-me ela -, todas dormem e ninguém saberá de nada. (...) sou eu quem o proíbe às outras, mas quem lho permite a si e lho pede. Deixe-me aquecer um   instante   e   ir-me-ei   embora.   Dê-me   a sua mão..." Dei-lha. "Aqui tem, veja - disse   ela   -   tremo,   tenho   arrepios,   estou   fria como mármore..." E realmente era verdade. "Oh, a querida madre vai ficar doente. Mas espere, vou afastar-me para a ponta e vai deitar-se no sítio quente." Cheguei-me para o lado, levantei a coberta e ela deitou-se onde eu estava (…). Logo me pôs umas das mãos no peito e outra em volta da cintura; tinha os pés debaixo dos meus e eu apertava-os para os aquecer; e a querida madre dizia-me: "Ah, querida amiga, veja como os meus pés aqueceram tão depressa, porque nada os separa dos seus.

- Mas - disse eu - quem a impede de aquecer todo o corpo da mesma maneira?

- Nada, se assim o quer."

Tinha-me voltado, ela tirara a sua camisa e eu ia tirar a minha, quando de repente se ouviram pancadas violentas na porta (…)"

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