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Correio da Manhã

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Diferentes mas iguais

Cabe ao PSD ser uma alternativa fracturante, que mobilize o eleitorado em direcção a novas opções políticas e estratégicas.
4 de Maio de 2006 às 17:00
A doce ilusão de que a queda do Muro de Berlim tinha esbatido irreversivelmente a matriz ideológica na orientação das lideranças políticas desvaneceu-se.
É hoje evidente que não existe uma única forma de governar com eficácia. É hoje evidente que a democracia representativa, assente na economia liberal de mercado, pode ser interpretada de formas diversas. Em Portugal, todos ganharíamos com o facto de se tornar perceptível uma fronteira ideológica fracturante entre a actual maioria e a oposição. Seria revitalizador da vida democrática que os cidadãos percebessem que a separação entre o PS e o PSD é real e não decorre, em exclusivo, da diversidade de estilo e competência dos seus líderes circunstanciais.
É uma tarefa necessária, útil e exequível. Para isso basta constatar que, por baixo de uma capa reformista, a actual maioria continua ortodoxamente estatizante. Para isso basta que o PSD assuma a postura personalista e defensora da iniciativa privada que caracteriza a sua história.
O actual Governo diz que acredita na livre iniciativa, mas depois quer manter o monopólio do Estado no sector do ambiente, que, no próximo Quadro Comunitário de Apoio vai gerir mais de 2,5 mil milhões de euros de fundos.
É este mesmo Governo que teima em eternizar as ‘golden shares’ do Estado, que permitem a sua privilegiada presença nos sectores energético e das telecomunicações, determinantes da existência de uma economia saudável.
É, ainda, o actual Executivo que obstaculiza e considera desaconselhável a entrada da iniciativa privada na gestão do sistema educativo público; que não descomprime o funcionamento do sistema de Segurança Social, permitindo a entrada, em regime facultativo, da dinâmica privada; que desbarata os recursos públicos de uma geração no TGV e na Ota.
Cabe ao PSD ser uma alternativa fracturante, que mobilize o eleitorado em direcção a novas opções políticas e estratégicas, de acordo com uma matriz ideológica que combine a dinâmica do sector privado com as inalienáveis funções sociais do Estado.
O PSD devia propor a imediata privatização da ‘holding’ pública que gere águas, saneamento e tratamento de resíduos sólidos urbanos – a economia agradecia e os cidadãos também.
O PSD devia propor o fim da figura do Estado-accionista, na Galp, na EDP e na PT, que assim podiam movimentar-se livremente no mercado – os cidadãos-consumidores agradeciam e acabava o papel do Estado dos interesses e dos lóbis.
O PSD devia desenvolver propostas que levassem os melhores da sociedade civil para a gestão do Ensino, da Saúde e da Segurança Social. O PSD devia mobilizar um amplo movimento cívico que explicasse que o volume dos investimentos na Ota e no TGV representam milhares de acções de formação de quadros e a construção de novas escolas, teatros, creches e lares adiados por mais uma ou duas décadas.
Se tudo isto acontecesse, seria mais simples optar em próximos actos eleitorais. Quando tudo isto acontecer, a Democracia portuguesa deixará de ser um desfile estéril e enfadonho, numa ‘passerelle’ por onde passam diferentes actores, mas a mesma forma de conceber a gestão do País.
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